Questão de Medicina — Epidemiologia — FGV 2025
- Código
- fg124599
- Banca
- FGV
- Órgão
- EBSERH
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- AIII.
- BI e II.
- CI e III.
- DI.
- EII e III.
GabaritoC — I e III.
Gabarito: letra C. A exposição crônica ao material particulado fino (PM2.5) é um fator de risco estabelecido para infarto do miocárdio e morte cardiovascular (afirmativa I correta), e a associação entre hipertensão arterial e PM2.5 já foi documentada tanto em regiões de baixa quanto de elevada exposição (afirmativa III correta). A afirmativa II está incorreta porque a exposição ao PM2.5 também está relacionada ao aumento do risco de eventos cerebrovasculares, como o acidente vascular cerebral (AVC).
O material particulado (PM, do inglês particulate matter) é uma mistura complexa de partículas sólidas e líquidas suspensas no ar, classificadas pelo diâmetro aerodinâmico. O PM2.5 refere-se às partículas com diâmetro menor que 2,5 micrômetros (μm), capazes de penetrar profundamente no trato respiratório, alcançando os alvéolos e, a partir daí, a corrente sanguínea. Essa capacidade de translocação sistêmica é o que explica seus efeitos cardiovasculares: as partículas induzem inflamação sistêmica, estresse oxidativo, disfunção endotelial e ativação do sistema nervoso autônomo, mecanismos que culminam em aterosclerose acelerada, trombose e arritmias.
A evidência epidemiológica é robusta e consistente. Estudos de coorte e metanálises demonstram que a exposição crônica ao PM2.5 aumenta a incidência de infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, AVC e mortalidade cardiovascular. A relação dose-resposta é praticamente linear, sem um limiar seguro identificável: mesmo concentrações abaixo dos padrões de qualidade do ar recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) estão associadas a risco aumentado. A associação com hipertensão arterial também é bem documentada, tanto em estudos transversais quanto longitudinais, em diferentes populações e níveis de exposição — o que torna a afirmativa III correta em sua abrangência.
A afirmativa II, ao negar a relação entre PM2.5 e eventos cerebrovasculares, contraria diretamente a literatura. O AVC isquêmico é um desfecho cardiovascular major associado à poluição atmosférica, com mecanismos fisiopatológicos compartilhados com a doença coronariana: inflamação, disfunção endotelial e hipercoagulabilidade. A banca explora aqui uma armadilha clássica: o candidato pode associar PM2.5 apenas a doenças respiratórias ou coronarianas, esquecendo que o sistema cardiovascular como um todo — incluindo a circulação cerebral — é afetado.
Guarde o critério decisivo: o PM2.5 é um fator de risco cardiovascular sistêmico, afetando coração e cérebro. É exatamente essa abrangência que separa as afirmativas corretas da incorreta.
A afirmativa está correta. A exposição crônica a níveis elevados de PM2.5 é um fator de risco bem estabelecido para infarto do miocárdio e morte cardiovascular. Estudos epidemiológicos de grande escala, como o estudo American Cancer Society e o Harvard Six Cities, demonstraram associação consistente entre concentrações de PM2.5 e mortalidade cardiovascular, com mecanismos fisiopatológicos envolvendo inflamação sistêmica, estresse oxidativo e disfunção endotelial.
A afirmativa está incorreta. A exposição ao PM2.5 está sim relacionada ao aumento do risco de eventos cerebrovasculares, incluindo o AVC isquêmico. A literatura é clara: a poluição atmosférica, especialmente o material particulado fino, é um fator de risco modificável para AVC, com mecanismos semelhantes aos da doença coronariana. A banca tenta induzir o erro ao restringir o efeito do PM2.5 ao coração, ignorando a circulação cerebral.
A afirmativa está correta. A associação entre hipertensão arterial e PM2.5 atmosférico já foi observada tanto em regiões de baixa quanto de elevada exposição. Estudos em diferentes países e contextos socioeconômicos confirmam essa relação, reforçando o caráter global do problema. A hipertensão é um dos principais mecanismos intermediários pelos quais a poluição atmosférica aumenta o risco cardiovascular.
Conclusão: Corretos: I e III → portanto a alternativa é a letra C.
A banca explora a associação automática entre PM2.5 e doenças respiratórias ou coronarianas, fazendo o candidato esquecer que o material particulado afeta todo o sistema cardiovascular, incluindo a circulação cerebral. A afirmativa II é a armadilha: ao negar a relação com eventos cerebrovasculares, ela parece plausível para quem não domina a abrangência sistêmica do PM2.5. Com treino, você enxerga essas restrições indevidas de longe 💪
Para questões sobre poluição atmosférica e saúde, lembre-se do tripé: coração (IAM, IC), cérebro (AVC) e vasos (hipertensão, aterosclerose). O PM2.5 é um fator de risco sistêmico — qualquer afirmativa que limite seus efeitos a um único órgão ou sistema deve ser tratada com suspeita.
Gabarito: letra C
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