Questão de Raciocínio Lógico — Tautologia, Contradição e Contingência — FGV 2025
Raciocínio Lógico›Tautologia, Contradição e Contingência
Código
fg124786
Banca
FGV
Órgão
MPE-RJ
Ano
2025
Nível
Superior
Entre as opções abaixo, aquela que mostra a falácia do círculo vicioso, é:
AEsse bairro, no Rio de Janeiro, é muito perigoso, pois ontem me assaltaram lá.
BPedro Cruz é o responsável por todos os crimes praticados pela mineração ilegal no país, pois ele é o gerente.
CJosé Navarro vai ganhar a Tour de França este ano porque ele é o melhor ciclista de todos os que competem.
DSe você de verdade ama o Brasil, deveria votar “Sim” no próximo plebiscito.
EA obra de Edgar Allan Poe é de má qualidade, pois ele era um bêbado que se casou com a própria prima.
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GabaritoC — José Navarro vai ganhar a Tour de França este ano porque ele é o melhor ciclista de todos os que competem.
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Falácia do círculo vicioso (petitio principii)
Gabarito: letra C. A falácia do círculo vicioso (ou petição de princípio) ocorre quando a conclusão é usada, ainda que disfarçada, como premissa do próprio argumento — ou seja, o argumento pressupõe aquilo que deveria provar. Na alternativa C, afirmar que José Navarro vai ganhar a Tour de France "porque ele é o melhor ciclista" apenas reformula a conclusão (que ele vencerá) em outras palavras (que ele é o melhor), sem apresentar nenhuma evidência independente — é exatamente o círculo vicioso.
A falácia do círculo vicioso é um erro de argumentação em que a premissa já contém, de forma implícita ou explícita, a conclusão que se pretende demonstrar. Diferentemente de uma falácia formal (que viola uma regra de inferência), ela é uma falácia material: o problema está no conteúdo, não na forma. O argumento até pode ter uma estrutura válida (se A, então A), mas não acrescenta informação alguma — é uma tautologia disfarçada de raciocínio. A banca explora justamente a dificuldade de distinguir "afirmação da conclusão" de "justificativa da conclusão": no círculo vicioso, a justificativa é a própria conclusão com outras palavras.
Para reconhecer a falácia, o candidato deve perguntar: a premissa oferece uma razão independente para aceitar a conclusão, ou apenas repete a conclusão? Se a premissa não puder ser aceita sem antes aceitar a conclusão, há círculo vicioso. Nas demais alternativas, há outros tipos de falácia (apelo à emoção, generalização apressada, argumento ad hominem), mas não o círculo vicioso.
Caso
Premissa (P)
Conclusão (C)
Relação P→C
Resultado
A
Assalto ontem no bairro
Bairro é perigoso
Premissa distinta da conclusão (fato isolado)
Generalização apressada — não é círculo vicioso
B
Pedro Cruz é gerente
Responsável por todos os crimes
Premissa distinta da conclusão (falta elo lógico)
Generalização indevida — não é círculo vicioso
C
José Navarro é o melhor ciclista
Vai ganhar a Tour de France
Premissa reformula a conclusão (ser o melhor = vencer)
Círculo vicioso — premissa contém a conclusão
D
Você ama o Brasil
Deveria votar "Sim"
Premissa distinta da conclusão (apelo emocional)
Apelo à emoção — não é círculo vicioso
E
Poe era bêbado e casou com a prima
Obra é de má qualidade
Premissa ataca o autor, não a obra
Ad hominem — não é círculo vicioso
Falácias de argumentação
1Círculo vicioso (petitio principii)
premissa repete a conclusão
ex.: "vai ganhar porque é o melhor"
2Generalização apressada
amostra insuficiente
ex.: "bairro perigoso por 1 assalto"
3Ad hominem
ataca a pessoa, não a obra
ex.: "obra ruim porque era bêbado"
4Apelo à emoção
manipula sentimento
ex.: "ame o Brasil, vote sim"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Aqui há uma generalização apressada (ou amostra insuficiente): concluir que todo o bairro é perigoso a partir de um único episódio (um assalto ontem). Não é círculo vicioso, pois a premissa (o assalto) é um fato distinto da conclusão (o bairro ser perigoso) — apenas insuficiente para sustentá-la.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Há uma generalização indevida (ou salto indutivo): atribuir a Pedro Cruz a responsabilidade por "todos" os crimes da mineração ilegal no país apenas porque ele é gerente. A premissa (ser gerente) não implica, por si só, responsabilidade por todos os crimes; falta um elo lógico. Não é círculo vicioso, pois a premissa não repete a conclusão.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
É o círculo vicioso (petitio principii). A premissa "ele é o melhor ciclista de todos os que competem" é apenas uma reformulação da conclusão "vai ganhar a Tour de France" — ser o melhor implica vencer, e vencer implica ser o melhor. O argumento não oferece nenhuma evidência independente (como desempenho em etapas, histórico, etc.); ele simplesmente assume aquilo que deveria provar. A conclusão está contida na premissa, fechando o círculo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Aqui há um apelo à emoção (ou argumentum ad populum/pathos): usar o amor ao Brasil como razão para votar "Sim" no plebiscito. A premissa (amar o Brasil) não tem relação lógica necessária com a conclusão (votar "Sim") — é uma tentativa de persuasão emocional, não um círculo vicioso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Há um argumento ad hominem (ataque à pessoa): desqualificar a obra de Edgar Allan Poe com base em características pessoais (ser bêbado, casar com a prima). A premissa ataca o autor, não a qualidade da obra; não há círculo vicioso, pois a premissa não repete a conclusão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura várias falácias para confundir. O candidato pode achar que a letra A (generalização apressada) ou a letra E (ad hominem) são o círculo vicioso, pois também são falácias. A chave é identificar qual alternativa tem a conclusão repetida na premissa — e só a letra C faz isso. Treine reconhecer cada falácia pelo seu mecanismo: círculo vicioso = premissa contém a conclusão; generalização = amostra insuficiente; ad hominem = ataque à pessoa; apelo à emoção = manipulação sentimental.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, ao identificar uma falácia, pergunte-se: "a premissa acrescenta alguma informação nova que sustente a conclusão?" Se a resposta for não, e a premissa apenas reafirma a conclusão com outras palavras, é círculo vicioso. Compare com as outras: se a premissa é um fato isolado, é generalização; se ataca a pessoa, é ad hominem; se apela ao sentimento, é apelo à emoção.