Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FGV 2026
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
fg128286
Banca
FGV
Órgão
ALERJ
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Especialista Legislativo - Nível IV - Medicina
Homem de 54 anos, hipertenso e em uso irregular de medicação, procura o pronto atendimento referindo cefaleia leve e certa ansiedade há duas horas, sem dor torácica, sem dispneia, sem déficit neurológico focal.PA na admissão: 194 × 108 mmHg, sem sinais de lesão aguda de órgão-alvo ao exame físico e à avaliação inicial (ECG e exame neurológico normais). Demais sinais vitais sem alterações.Nesse cenário, assinale a opção que indica a melhor opção terapêutica.
AHidralazina intravenosa em bolus, com redução rápida da PA em pelo menos 30% na primeira hora.
BNitroprussiato de sódio intravenoso em bomba de infusão, com meta de PA < 120×80 mmHg em 30 minutos.
CIniciar imediatamente diálise de urgência como forma principal de controle pressórico.
DClonidina via oral em dose de 0,1–0,2 mg, podendo repetir após reavaliação, visando à ansiólise e à redução gradual da PA nas próximas horas.
ENão são necessárias quaisquer medidas para controle da PA nem para controle da cefaleia.
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GabaritoD — Clonidina via oral em dose de 0,1–0,2 mg, podendo repetir após reavaliação, visando à ansiólise e à redução gradual da PA nas próximas horas.
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Urgência hipertensiva: manejo da PA elevada sem lesão de órgão-alvo
Gabarito: letra D. O paciente apresenta PA de 194×108 mmHg, mas sem sinais de lesão aguda de órgão-alvo (ECG e exame neurológico normais, sem dor torácica, sem dispneia, sem déficit focal) — o que caracteriza urgência hipertensiva, não emergência. Nesse cenário, a conduta correta é reduzir a PA de forma gradual, com medicação oral, como a clonidina 0,1–0,2 mg, podendo repetir após reavaliação, visando à ansiólise e à queda lenta da PA nas próximas horas. A alternativa D espelha exatamente essa conduta.
A hipertensão arterial é classificada em emergência hipertensiva e urgência hipertensiva, e a diferença entre elas é o que decide toda a conduta. Na emergência hipertensiva, há lesão aguda e progressiva de órgão-alvo (cérebro, coração, rins, retina, grandes vasos) — como encefalopatia hipertensiva, AVC, edema agudo de pulmão, dissecção de aorta, síndrome coronariana aguda, eclâmpsia. Nesses casos, a PA deve ser reduzida rapidamente, por via intravenosa, com drogas tituláveis (nitroprussiato, nitroglicerina, esmolol), em ambiente de UTI ou emergência, com monitorização contínua.
Na urgência hipertensiva, a PA está muito elevada (geralmente > 180×120 mmHg), mas não há lesão aguda de órgão-alvo. O paciente pode ter sintomas inespecíficos como cefaleia, ansiedade, tontura, mas o exame físico e os exames complementares iniciais são normais. A conduta é reduzir a PA de forma gradual, em horas, com medicação por via oral, e não de forma abrupta. A redução rápida e intensa da PA nesses pacientes pode causar hipoperfusão cerebral, coronariana e renal, levando a eventos isquêmicos graves.
No caso apresentado, o homem de 54 anos tem PA de 194×108 mmHg, cefaleia leve e ansiedade, mas sem sinais de lesão aguda de órgão-alvo — ECG normal, exame neurológico normal, sem dor torácica, sem dispneia. Isso configura urgência hipertensiva. A conduta correta é iniciar ou ajustar medicação anti-hipertensiva oral, com meta de redução gradual da PA (20–30 mmHg nas primeiras horas), e não redução rápida e agressiva. A clonidina, um agonista alfa-2 central, é uma opção adequada nesse cenário, pois reduz a PA de forma gradual e também tem efeito ansiolítico, o que é útil para o paciente que está ansioso.
A pegadinha desta questão é confundir urgência hipertensiva com emergência hipertensiva. O candidato que associa PA muito elevada a necessidade de tratamento intravenoso imediato erra a questão. A presença de cefaleia e ansiedade pode sugerir encefalopatia hipertensiva, mas a ausência de sinais neurológicos focais, ECG normal e exame neurológico normal afastam essa hipótese. A banca explora exatamente essa confusão: o aluno vê PA de 194×108 mmHg e pensa em emergência, mas o enunciado deixa claro que não há lesão de órgão-alvo.
Guarde a fronteira entre urgência (PA elevada + sem lesão de órgão-alvo → tratamento oral, gradual) e emergência (PA elevada + lesão de órgão-alvo → tratamento IV, rápido). É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Hipertensão grave
1Emergência hipertensiva
Lesão aguda de órgão-alvo
Redução rápida IV (nitroprussiato)
2Urgência hipertensiva
Sem lesão de órgão-alvo
Redução gradual VO (clonidina)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A hidralazina intravenosa em bolus com redução rápida da PA em pelo menos 30% na primeira hora é conduta para emergência hipertensiva, não para urgência. Redução rápida e intensa da PA em paciente sem lesão de órgão-alvo pode causar hipoperfusão cerebral e coronariana, levando a AVC isquêmico ou infarto. Além disso, a hidralazina IV não é a primeira escolha na maioria das emergências hipertensivas, e a meta de redução de 30% na primeira hora é agressiva demais para uma urgência.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O nitroprussiato de sódio intravenoso em bomba de infusão com meta de PA < 120×80 mmHg em 30 minutos é conduta para emergência hipertensiva, com lesão de órgão-alvo. Neste caso, não há lesão de órgão-alvo, e a meta de PA < 120×80 mmHg em 30 minutos é extremamente agressiva e perigosa, podendo causar hipoperfusão cerebral, renal e coronariana. O nitroprussiato é reservado para emergências hipertensivas graves, como dissecção de aorta, encefalopatia hipertensiva, e deve ser usado com monitorização contínua em UTI.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Iniciar imediatamente diálise de urgência como forma principal de controle pressórico é um absurdo. A diálise é indicada para pacientes com insuficiência renal aguda ou crônica com indicações específicas (hipercalemia refratária, acidose metabólica grave, sobrecarga de volume refratária, uremia sintomática), e não para controle pressórico em urgência hipertensiva. Não há nenhuma indicação de diálise neste caso, pois o paciente não apresenta sinais de lesão renal aguda (sem alteração de função renal mencionada, sem oligúria, sem edema agudo de pulmão).
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A clonidina via oral em dose de 0,1–0,2 mg, podendo repetir após reavaliação, visando à ansiólise e à redução gradual da PA nas próximas horas, é a conduta correta para urgência hipertensiva. A clonidina é um agonista alfa-2 central que reduz a PA de forma gradual, sem causar hipotensão abrupta, e também tem efeito ansiolítico, o que é benéfico para o paciente que está ansioso. A redução gradual da PA em horas é a meta na urgência hipertensiva, e a clonidina oral é uma opção adequada, podendo ser repetida após reavaliação clínica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Não são necessárias quaisquer medidas para controle da PA nem para controle da cefaleia é uma conduta negligente. Embora a urgência hipertensiva não exija redução rápida da PA, ela não pode ser ignorada. A PA de 194×108 mmHg está muito elevada e, se não tratada, pode evoluir para lesão de órgão-alvo e emergência hipertensiva. O paciente deve receber medicação anti-hipertensiva oral e ser acompanhado, com reavaliação em horas e retorno ambulatorial precoce.
Gabarito: letra D — a conduta correta é a redução gradual da PA com medicação oral, como a clonidina, em paciente com urgência hipertensiva sem lesão de órgão-alvo.