Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — FGV 2026
- Código
- fg129479
- Banca
- FGV
- Órgão
- AMAZUL
- Ano
- 2026
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico do Trabalho
- AAtropina
- BFlumazenil
- CNaloxona
- DN-acetilcisteína
- EHidroxocobalamina
GabaritoA — Atropina
Gabarito: letra A. O quadro descrito — sialorreia, sudorese, vômitos, diarreia, bradicardia, miose, broncorreia, sibilos, incontinência urinária, fasciculações, mioclonias, insuficiência respiratória — é a síndrome colinérgica aguda típica da intoxicação por inseticidas organofosforados (ou carbamatos), e o antídoto de primeira linha é a atropina, um antagonista muscarínico que reverte os efeitos mediados pelos receptores muscarínicos da acetilcolina. A atropina é a droga que salva a vida nesse cenário, pois combate a broncorreia, a bradicardia e a insuficiência respiratória de origem colinérgica.
A intoxicação por organofosforados é uma emergência médica frequente, especialmente em áreas rurais e em tentativas de autoextermínio. Esses compostos inibem de forma irreversível a enzima acetilcolinesterase, responsável por degradar a acetilcolina na fenda sináptica. Com a enzima bloqueada, a acetilcolina se acumula e estimula de forma excessiva e contínua os receptores colinérgicos, tanto muscarínicos quanto nicotínicos, além dos receptores do sistema nervoso central. O resultado é um quadro clínico exuberante, que pode ser dividido em três grupos de manifestações: os efeitos muscarínicos (parassimpáticos), os efeitos nicotínicos (simpáticos e motores) e os efeitos centrais.
Os efeitos muscarínicos são os mais proeminentes e incluem a tríade clássica de sialorreia, lacrimejamento e broncorreia, além de miose (constrição pupilar), bradicardia, vômitos, diarreia, incontinência urinária e broncoespasmo. Os efeitos nicotínicos, por sua vez, manifestam-se com fasciculações musculares, fraqueza, taquicardia e hipertensão (devido à estimulação dos gânglios simpáticos). Já os efeitos centrais podem causar agitação, confusão, convulsões e, nos casos graves, coma e depressão respiratória. A combinação de bradicardia (muscarínico) com taquicardia (nicotínico) e a presença de miose com broncorreia são a chave para o diagnóstico sindrômico.
O tratamento da intoxicação por organofosforados tem três pilares: medidas de suporte (incluindo suporte ventilatório, pois a insuficiência respiratória é a principal causa de morte), descontaminação (retirada da roupa contaminada e lavagem da pele) e o uso de antídotos específicos. O antídoto de primeira linha é a atropina, que antagoniza competitivamente os receptores muscarínicos, revertendo a bradicardia, a broncorreia, a sialorreia e o broncoespasmo. A dose inicial em adultos é de 2 a 5 mg por via intravenosa, repetida a cada 5 minutos até que ocorra a "atropinização" (sinais de secura das mucosas, midríase, frequência cardíaca > 80 bpm). Em casos graves, podem ser necessárias doses muito elevadas, de centenas de miligramas. Além da atropina, a pralidoxima é um antídoto adjuvante que reativa a enzima acetilcolinesterase, mas apenas se administrada precocemente (antes do envelhecimento da enzima) e não substitui a atropina como medida inicial.
A banca explora a associação automática entre "intoxicação" e antídotos específicos de outras síndromes. O candidato que decora antídotos isoladamente pode confundir o quadro colinérgico com outras intoxicações. A chave é reconhecer a síndrome colinérgica (miose, bradicardia, sialorreia, broncorreia, fasciculações) e lembrar que a atropina é o antídoto que reverte esses efeitos. As demais alternativas são antídotos para outras intoxicações: flumazenil para benzodiazepínicos, naloxona para opioides, N-acetilcisteína para paracetamol e hidroxocobalamina para cianeto. Guarde essa correlação: cada antídoto é específico para um tipo de intoxicação, e o quadro clínico é o guia para a escolha.
A atropina é o antídoto de primeira linha para a intoxicação por organofosforados (e carbamatos). Ela antagoniza os receptores muscarínicos da acetilcolina, revertendo os efeitos parassimpáticos que dominam o quadro clínico: sialorreia, broncorreia, bradicardia, miose, vômitos, diarreia e broncoespasmo. A dose deve ser titulada até a atropinização, e em casos graves podem ser necessárias doses maciças. É a medida que salva a vida ao combater a insuficiência respiratória de origem colinérgica.
O flumazenil é o antídoto para a intoxicação por benzodiazepínicos. O quadro típico dessa intoxicação é depressão do sistema nervoso central (sonolência, coma), hipotensão e depressão respiratória, sem os sinais colinérgicos (miose, sialorreia, broncorreia, fasciculações) descritos no enunciado. Além disso, o flumazenil é contraindicado em pacientes que fazem uso crônico de benzodiazepínicos ou em intoxicação mista com antidepressivos tricíclicos, pois pode precipitar convulsões.
A naloxona é o antídoto para a intoxicação por opioides (morfina, heroína, fentanil). A tríade clássica da intoxicação opioide é miose puntiforme, bradipneia e coma. Embora haja miose, o quadro do enunciado apresenta broncorreia, sialorreia, fasciculações e vômitos, que não são características da intoxicação por opioides. A naloxona não teria efeito sobre os receptores muscarínicos e não reverteria a síndrome colinérgica.
A N-acetilcisteína é o antídoto para a intoxicação por paracetamol (acetaminofeno). O quadro clínico dessa intoxicação é inicialmente inespecífico (náuseas, vômitos, mal-estar) e evolui com lesão hepática (elevação de transaminases, icterícia) e, em casos graves, insuficiência hepática fulminante. Não há manifestações colinérgicas como miose, sialorreia, broncorreia ou fasciculações. A N-acetilcisteína repõe os estoques de glutationa e não tem ação sobre os receptores de acetilcolina.
A hidroxocobalamina é o antídoto para a intoxicação por cianeto. O quadro clínico da intoxicação por cianeto é de hipóxia celular: taquipneia, cefaleia, confusão, convulsões, coma, acidose láctica e, nos casos graves, parada cardiorrespiratória. Não há os sinais colinérgicos (miose, sialorreia, broncorreia, fasciculações) descritos no enunciado. A hidroxocobalamina se liga ao cianeto formando cianocobalamina, que é excretada na urina.
Gabarito: letra A — a atropina é o antídoto de primeira linha para a síndrome colinérgica aguda por organofosforados.
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