Questão de Medicina — Medicina Intensiva — FGV 2026
Medicina›Medicina Intensiva
Código
fg130670
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Grupo - Medicina Intensiva
Um paciente de 62 anos é admitido na UTI com rebaixamento súbito do nível de consciência. Ao exame neurológico apresenta coma não responsivo, pupila direita midriática e arreativa, pupila esquerda fotorreagente, hemiparesia esquerda previamente documentada na ficha do SAMU. Os reflexos de tronco encefálico preservados à esquerda.Nesse contexto clínico, o achado pupilar sugere mais provavelmente
Alesão metabólica difusa com comprometimento bilateral do tronco encefálico.
Bherniação central com compressão simétrica do mesencéfalo
Clesão pontina bilateral com interrupção das vias simpáticas.
Destado pós-ictal com anisocoria fisiológica transitória.
Eherniação uncal direita com compressão do III par craniano.
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GabaritoE — herniação uncal direita com compressão do III par craniano.
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Herniação uncal e comprometimento do III par craniano
Gabarito: letra E. A combinação de coma, pupila direita midriática e arreativa, hemiparesia esquerda e reflexos de tronco preservados à esquerda é a apresentação clássica da herniação uncal direita, que comprime o III par craniano (nervo oculomotor) ipsilateral à lesão, causando midríase e arreatividade pupilar do mesmo lado. A hemiparesia contralateral (esquerda) reflete o comprometimento do trato corticospinal direito, e a preservação dos reflexos à esquerda indica que o tronco encefálico ainda não foi difusamente comprometido.
A herniação uncal é um tipo de herniação transtentorial em que o uncus do lobo temporal medial é deslocado medialmente e para baixo, através da incisura tentorial, comprimindo estruturas mesencefálicas e o III par craniano. O III par emerge do mesencéfalo ventral e cursa lateralmente, sendo particularmente vulnerável à compressão pelo uncus herniado. A compressão do III par causa paralisia da musculatura extraocular inervada por ele (exceto reto lateral e oblíquo superior) e, crucialmente, interrompe as fibras parassimpáticas que chegam ao esfíncter da pupila, resultando em midríase ipsilateral (pupila dilatada) e arreatividade à luz. Este é um sinal neurológico de alarme, frequentemente o primeiro indicador de herniação iminente.
A hemiparesia contralateral à lesão (neste caso, hemiparesia esquerda com lesão à direita) ocorre porque o trato corticospinal cruza na decussação das pirâmides, na junção bulbo-medular. Assim, uma lesão supratentorial direita compromete o trato que controla o lado esquerdo do corpo. A preservação dos reflexos de tronco encefálico à esquerda (como o reflexo oculocefálico e o corneal) sugere que a herniação ainda não causou dano difuso ao tronco, o que é consistente com um estágio inicial ou intermediário da herniação uncal.
A distinção crucial para esta questão é entre lesão estrutural focal (herniação uncal) e lesão difusa/metabólica. As lesões metabólicas difusas (hipoglicemia, intoxicação, encefalopatia hepática, etc.) tipicamente causam pupilas isocóricas e reativas, pois não comprometem seletivamente o III par. A presença de anisocoria (pupilas assimétricas) com uma pupila midriática e arreativa é um sinal fortemente sugestivo de lesão estrutural, especificamente de herniação uncal. Da mesma forma, lesões pontinas bilaterais causam pupilas puntiformes (miose) e reativas, não midríase unilateral. A herniação central, por sua vez, causa uma sequência de sinais que começa com pupilas mióticas e reativas, evoluindo para pupilas médio-fixas, não midríase unilateral precoce.
A banca explora a associação automática entre rebaixamento de consciência e causas metabólicas, mas a presença de déficit focal (hemiparesia) e anisocoria direciona inequivocamente para uma causa estrutural. O raciocínio clínico deve sempre priorizar a identificação de sinais de herniação, pois exigem intervenção neurocirúrgica imediata. A TC de crânio sem contraste é o exame de escolha para confirmar a suspeita e identificar a causa da herniação (hematoma, tumor, edema).
Herniação uncal (direita)
1Compressão do III par (ipsilateral)
Midríase e arreatividade
Paralisia extraocular
2Compressão do trato corticospinal
Hemiparesia contralateral
3Tronco encefálico
Reflexos preservados (lado oposto)
Estágio inicial/intermediário
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A lesão metabólica difusa (como hipoglicemia, intoxicação ou encefalopatia) tipicamente causa pupilas isocóricas e reativas, não midríase unilateral. A presença de hemiparesia focal e anisocoria com pupila arreativa é incompatível com uma causa puramente metabólica, que afeta o cérebro de forma simétrica e difusa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A herniação central (transtentorial) causa uma evolução rostrocaudal de sinais, começando com pupilas mióticas e reativas (fase diencefálica), evoluindo para pupilas médio-fixas e, tardiamente, midríase bilateral. A midríase unilateral precoce com hemiparesia contralateral é característica da herniação uncal, não da central.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A lesão pontina bilateral (como hemorragia pontina hipertensiva) causa pupilas puntiformes (mióticas) e reativas, devido à interrupção das vias simpáticas descendentes. Não causa midríase unilateral. Além disso, a hemiparesia contralateral e a preservação dos reflexos à esquerda não são típicas de uma lesão pontina bilateral.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O estado pós-ictal pode causar rebaixamento de consciência e, ocasionalmente, déficits focais transitórios (paralisia de Todd), mas as pupilas geralmente são isocóricas e reativas. A anisocoria com pupila midriática e arreativa não é uma característica do estado pós-ictal e sugere fortemente uma causa estrutural.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A herniação uncal direita comprime o III par craniano ipsilateral, causando midríase e arreatividade pupilar à direita. A hemiparesia esquerda resulta da compressão do trato corticospinal direito. A preservação dos reflexos de tronco à esquerda indica que a herniação ainda não comprometeu difusamente o tronco encefálico, o que é consistente com o diagnóstico.