Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
fg130989
Banca
FGV
Órgão
EBSERH
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Grupo - Pediatria
Adolescente, masculino, 12 anos, com história de infecções cutâneas de repetição desde lactente. Aos oito anos, foi internado com diagnóstico de pneumonia grave com derrame pleural.Com 10 anos, nova internação, sendo diagnosticado abscesso hepático, sendo isolada Salmonella. No momento, nova internação com diagnóstico firmado de aspergilose pulmonar.A principal hipótese diagnóstica é
Asíndrome de Hiper IgD.
Bsíndrome de Chediak-Higashi.
Cdoença granulomatosa crônica.
Dagamaglobulinemia ligada ao X.
Eimunodeficiência comum variável.
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GabaritoC — doença granulomatosa crônica.
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Gabarito: letra C. O quadro — infecções cutâneas de repetição desde a lactência, pneumonia com derrame pleural, abscesso hepático por Salmonella e aspergilose pulmonar — é a apresentação clássica da doença granulomatosa crônica (DGC), imunodeficiência primária do fagócito que cursa com infecções bacterianas e fúngicas recorrentes, especialmente por catalase-positivos, e formação de granulomas. O diagnóstico é firmado pelo teste do nitroblue de tetrazólio (NBT) ou pela citometria de fluxo com dihidrorodamina (DHR), que avaliam a explosão respiratória dos neutrófilos.
A doença granulomatosa crônica é uma imunodeficiência primária que afeta a fagocitose, mais especificamente a capacidade dos neutrófilos e macrófagos de produzir espécies reativas de oxigênio (a chamada "explosão respiratória") para destruir microrganismos fagocitados. O defeito está no complexo enzimático NADPH oxidase, responsável por gerar o superóxido e seus derivados microbicidas. Sem essa explosão, as bactérias e fungos ingeridos sobrevivem dentro do fagócito, e a infecção se perpetua. O resultado clínico é um padrão muito característico de infecções de repetição por germes catalase-positivos — como Staphylococcus aureus, Serratia marcescens, Burkholderia cepacia, Nocardia e Aspergillus — além de Salmonella, que também é catalase-positiva. Esses microrganismos, por produzirem catalase, degradam o peróxido de hidrogênio que eventualmente seria gerado por outras bactérias no interior do fagossomo, anulando o pouco de atividade microbicida que restaria. Por isso, a DGC predispõe a abscessos profundos (hepáticos, pulmonares, cutâneos), pneumonia, linfadenite e osteomielite, além de granulomas inflamatórios que podem obstruir trato gastrointestinal e urinário.
O caso do enunciado é um verdadeiro "mapa" da DGC: infecções cutâneas de repetição desde lactente (abscessos e furunculose são marcos da doença), pneumonia grave com derrame pleural, abscesso hepático por Salmonella (germe clássico da DGC) e, por fim, aspergilose pulmonar — Aspergillus é o fungo mais temido nesses pacientes, causando pneumonia necrosante e invasiva. A apresentação em menino de 12 anos também é compatível: cerca de 70% dos casos são ligados ao X (mutação no gene CYBB, que codifica a subunidade gp91phox), manifestando-se predominantemente no sexo masculino, embora exista forma autossômica recessiva. O diagnóstico é confirmado pela demonstração da falha na explosão respiratória — o teste do NBT mostra neutrófilos que não reduzem o corante, e a citometria com DHR mostra ausência de oxidação do fluoróforo após estímulo com PMA. O tratamento envolve profilaxia com trimetoprima-sulfametoxazol e itraconazol, interferon-gama e, nos casos graves, transplante de células-tronco hematopoéticas.
A grande pegadinha desta questão é a aspergilose pulmonar. O candidato pode associar infecção fúngica a imunodeficiência de células T (como na AIDS) ou a neutropenia (como na quimioterapia). Mas, na DGC, a aspergilose é uma complicação clássica e frequentemente fatal — o defeito na explosão respiratória também compromete a defesa antifúngica, e o Aspergillus é um dos principais agentes de pneumonia necrosante nesses pacientes. Além disso, o abscesso hepático por Salmonella é um achado quase patognomônico de DGC: a Salmonella é um germe intracelular facultativo que depende da atividade microbicida do macrófago, e a falha nessa atividade permite sua disseminação e formação de abscessos viscerais. Nenhuma das outras alternativas explica esse conjunto de infecções por germes catalase-positivos com abscessos profundos e aspergilose.
Guarde o critério que separa a DGC das demais imunodeficiências: o tipo de microrganismo e o padrão de infecção. A DGC cursa com bactérias catalase-positivas e fungos, com abscessos profundos e granulomas; as imunodeficiências humorais (agamaglobulinemia, ICV) cursam com bactérias encapsuladas e infecções de vias aéreas; as imunodeficiências combinadas cursam com infecções oportunistas por vírus, fungos e protozoários desde os primeiros meses. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Imunodeficiências primárias
1Defeito de fagócitos
Doença granulomatosa crônica
Germes catalase-positivos
Abscessos profundos
Aspergilose
2Defeito humoral
Agamaglobulinemia ligada ao X
Bactérias encapsuladas
Infecções de vias aéreas
Imunodeficiência comum variável
Bactérias encapsuladas
Infecções de vias aéreas
3Defeito de fusão lisossomal
Chediak-Higashi
Albinismo oculocutâneo
Infecções piogênicas
4Doença autoinflamatória
Síndrome de hiper IgD
Febres recorrentes
Sem infecções profundas
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A síndrome de hiper IgD (mevalonato quinase) é uma doença autoinflamatória caracterizada por episódios febris recorrentes, adenopatia, artralgia e rash cutâneo, com elevação da IgD sérica. Não cursa com abscessos profundos, pneumonia com derrame pleural nem aspergilose. O erro: confundir "infecções de repetição" com "episódios febris recorrentes" — na hiper IgD, a febre é inflamatória, não infecciosa, e não há o padrão de infecções por germes catalase-positivos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A síndrome de Chediak-Higashi é uma imunodeficiência com defeito na fusão de lisossomos, cursando com albinismo oculocutâneo parcial, neutropenia, infecções piogênicas de repetição e risco de linfohistiocitose hemofagocítica. Embora haja infecções de repetição, o quadro é diferente: o albinismo e as inclusões granulares gigantes nos leucócitos (grânulos de peroxidase positivos) são marcadores, e não há a associação clássica com abscesso hepático por Salmonella nem aspergilose pulmonar como na DGC. O erro: focar apenas em "infecções de repetição" sem considerar o espectro completo de manifestações.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A doença granulomatosa crônica explica todos os elementos do caso: infecções cutâneas de repetição desde lactente (abscessos, furunculose), pneumonia grave com derrame pleural, abscesso hepático por Salmonella (germe catalase-positivo clássico) e aspergilose pulmonar (fungo que causa pneumonia necrosante na DGC). O defeito na explosão respiratória dos fagócitos compromete a destruição de bactérias e fungos catalase-positivos, levando a abscessos profundos e granulomas. O diagnóstico é confirmado pelo teste do NBT ou citometria com DHR.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A agamaglobulinemia ligada ao X (doença de Bruton) é uma imunodeficiência humoral com ausência de células B maduras e hipogamaglobulinemia, cursando com infecções de repetição por bactérias encapsuladas (Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae tipo b) após o 6º mês de vida, quando os anticorpos maternos desaparecem. Não há a associação com abscesso hepático por Salmonella nem aspergilose, e o padrão de infecções é de vias aéreas e otites, não abscessos profundos. O erro: confundir imunodeficiência humoral (defeito de anticorpos) com defeito de fagócitos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A imunodeficiência comum variável (ICV) é a imunodeficiência primária mais frequente em adultos, com hipogamaglobulinemia e defeito na produção de anticorpos, cursando com infecções de repetição de vias aéreas por bactérias encapsuladas, além de risco aumentado de doenças autoimunes, hiperplasia nodular linfoide e neoplasias. Embora possa haver doença granulomatosa (granulomatose linfocítica), o padrão de infecções é diferente: não há a tríade de abscessos cutâneos, abscesso hepático por Salmonella e aspergilose pulmonar que caracteriza a DGC. O erro: a ICV é uma imunodeficiência de anticorpos, não de fagócitos, e o espectro de microrganismos é distinto.
Gabarito: letra C — doença granulomatosa crônica, pela tríade de infecções cutâneas de repetição, abscesso hepático por Salmonella e aspergilose pulmonar, típicas do defeito na explosão respiratória dos fagócitos.