Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2026
- Código
- fg131008
- Banca
- FGV
- Órgão
- EBSERH
- Ano
- 2026
- Nível
- Superior
- Cargo
- Grupo - Pediatria
- Aanti-Sm.
- Banti-SSA/Ro.
- Canti-H2A-H2B.
- Dantibeta-2 glicoproteína I.
- Eanti-DNA de dupla hélice.
GabaritoC — anti-H2A-H2B.
Gabarito: letra C. O quadro — febre baixa, fadiga, mialgia, artralgias, fenômeno de Raynaud e autoanticorpos em criança em uso contínuo de carbamazepina — é a apresentação clássica de lúpus eritematoso sistêmico induzido por fármaco, condição em que o autoanticorpo mais característico é o anti-histona (anti-H2A-H2B), presente em mais de 95% dos casos. A carbamazepina é um dos fármacos classicamente associados a essa síndrome, e a positividade para anti-histona é o marcador que a distingue do lúpus idiopático.
O lúpus induzido por fármacos é uma síndrome autoimune que mimetiza o lúpus eritematoso sistêmico (LES), mas com características próprias. Diferentemente do LES espontâneo, que acomete preferencialmente mulheres jovens e tem como alvos principais os rins e o sistema nervoso, o lúpus farmacológico costuma se manifestar com sintomas articulares e musculares, febre, e raramente compromete órgãos vitais. O fenômeno de Raynaud — descrito no enunciado como palidez e coloração arroxeada dos dedos ao frio — é uma manifestação vasoespástica frequente nas doenças autoimunes e reforça a suspeita de um processo reumatológico sistêmico.
A fisiopatologia envolve a capacidade de certos fármacos de induzir autoimunidade. A carbamazepina, um antiepiléptico amplamente utilizado na infância, está entre os medicamentos com maior associação ao lúpus induzido. O mecanismo proposto inclui a interferência na tolerância imunológica, com ativação de linfócitos B autorreativos e produção de autoanticorpos. O achado laboratorial mais distintivo é a presença de anticorpos contra o complexo histona-DNA, que compõe a cromatina nuclear. Esses anticorpos anti-histona são detectados em cerca de 95% dos pacientes com lúpus induzido por fármacos, enquanto no LES idiopático estão presentes em apenas 30-50% dos casos.
A distinção entre lúpus induzido por fármacos e LES idiopático é fundamental para a conduta. No lúpus farmacológico, a suspensão do agente causador geralmente leva à remissão dos sintomas em semanas a meses, e a positividade para anti-histona tende a desaparecer. Já no LES, os sintomas persistem e exigem tratamento imunossupressor. Outra diferença importante é o perfil de autoanticorpos: enquanto o LES idiopático frequentemente apresenta anti-DNA de dupla hélice e anti-Sm, o lúpus induzido por fármacos raramente os exibe, sendo o anti-histona o marcador de escolha.
A banca explora exatamente essa fronteira: o aluno que reconhece o quadro como lúpus, mas não diferencia a forma induzida por fármaco da idiopática, tende a marcar anti-DNA ou anti-Sm, que são marcadores do LES espontâneo. O gatilho para a resposta correta está na associação entre o uso prolongado de carbamazepina e o aparecimento de sintomas sistêmicos com autoanticorpos — é essa combinação que aponta para o lúpus induzido e, consequentemente, para o anti-histona.
O anti-Sm é um marcador altamente específico do lúpus eritematoso sistêmico idiopático, presente em cerca de 20-30% dos pacientes. No lúpus induzido por fármacos, esse anticorpo é raramente encontrado. A banca o oferece como distrator para o candidato que reconhece o quadro lúpico, mas não identifica a forma farmacológica.
O anti-SSA/Ro está associado ao lúpus neonatal, à síndrome de Sjögren e ao lúpus cutâneo subagudo. Embora possa aparecer em algumas doenças autoimunes, não é o marcador característico do lúpus induzido por fármacos. Sua presença no enunciado serve para testar o conhecimento das associações específicas de cada autoanticorpo.
O anti-histona (anti-H2A-H2B) é o autoanticorpo mais frequentemente positivo no lúpus induzido por fármacos, presente em mais de 95% dos casos. A carbamazepina, em uso contínuo há 18 meses, é o agente causal clássico, e o quadro clínico — febre, fadiga, mialgia, artralgias e fenômeno de Raynaud — é a apresentação típica dessa síndrome. A positividade para anti-histona, associada ao uso do fármaco, fecha o diagnóstico.
O antibeta-2 glicoproteína I é um anticorpo antifosfolípide, associado à síndrome antifosfolípide, caracterizada por tromboses e perdas gestacionais recorrentes. Não há relação com o lúpus induzido por fármacos, e o quadro clínico do enunciado não sugere eventos trombóticos.
O anti-DNA de dupla hélice é um marcador de atividade do lúpus eritematoso sistêmico idiopático, especialmente com comprometimento renal. No lúpus induzido por fármacos, esse anticorpo é raramente positivo, sendo o anti-histona o marcador predominante. A presença desse distrator testa a capacidade de diferenciar as duas formas da doença.
A banca explora a associação automática entre "lúpus" e "anti-DNA" ou "anti-Sm", que são marcadores do LES idiopático. O candidato que não percebe o gatilho "carbamazepina há 18 meses" cai na armadilha. A chave é reconhecer que o fármaco é o agente causal e que o lúpus induzido tem perfil sorológico próprio, com anti-histona como marcador principal.
Para diferenciar lúpus induzido por fármacos de LES idiopático, foque em três pontos: (1) história de uso de fármaco indutor (carbamazepina, hidralazina, procainamida, isoniazida); (2) quadro clínico predominantemente articular e muscular, sem comprometimento renal ou neurológico; (3) sorologia com anti-histona positivo e anti-DNA/anti-Sm negativos. Memorize os fármacos mais associados e o perfil sorológico — é o que a banca cobra.
Gabarito: letra C
Link permanente: /questoes/fg131008