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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg131218
Banca
FGV
Órgão
IBGE
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Supervisor de Coleta e Qualidade (SCQ)

ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se à questão.



Maria  


     Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?


     A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida! 


     Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...


EVARISTO, Conceição. Olhos D’água (adaptado). Rio de Janeiro: Pallas/Fundação Biblioteca Nacional, 2016. 

Assinale a opção que indica corretamente o gênero do texto, bem como sua justificativa.
  1. AFábula, uma vez que traz uma reflexão filosófica a partir de um tema cotidiano.
  2. BBiografia, já que apresenta aspectos da vida de um personagem real.
  3. CEditorial, pois revela aspectos sociais a partir de um ponto de vista.
  4. DEnsaio, tendo em vista a predominância de um tom confessional no texto.
  5. EConto, considerando a condensação de uma história com poucos personagens.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Conto, considerando a condensação de uma história com poucos personagens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Gênero textual do fragmento de "Olhos D'água"

Gabarito: letra E. O texto é um conto, pois apresenta uma narrativa breve e condensada, com poucos personagens (Maria, o homem e os filhos mencionados), enredo linear (espera do ônibus, encontro, diálogo) e foco em um episódio da vida da protagonista. A justificativa da alternativa E ("condensação de uma história com poucos personagens") descreve exatamente a estrutura do fragmento.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Fábula é um gênero narrativo que emprega seres fantásticos ou animais para transmitir uma moral explícita. O texto de Conceição Evaristo é realista, não há elementos fantásticos nem uma lição moral destacada. A reflexão sobre a vida de Maria é implícita, mas não configura o propósito moralizante típico da fábula. Erro: troca de conceito – confunde narrativa reflexiva com fábula.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Biografia narra a vida de uma pessoa real, com dados factuais e verificáveis. O texto é uma obra de ficção, não há compromisso com a veracidade dos fatos; Maria é uma personagem literária. Erro: fora do escopo – o texto não é biográfico.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Editorial é um gênero jornalístico que expressa a opinião institucional de um veículo sobre temas da atualidade. O fragmento não tem caráter opinativo nem jornalístico; é uma narrativa literária. Erro: fora do escopo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Ensaio é um texto expositivo-argumentativo que desenvolve uma tese sobre um tema, com tom reflexivo e subjetivo. Embora haja tom confessional e reflexão interna, o predomínio é da narração de eventos (espera, lembranças, diálogo), não da exposição de ideias. O texto não se organiza em torno de uma tese, mas de uma sequência de ações. Erro: troca de conceito – confunde narrativa com ensaio.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O fragmento reúne as características do conto:

  • Narrativa curta (uma cena de espera e encontro).

  • Poucos personagens (Maria, o homem, referências aos filhos).

  • Enredo condensado (apresenta um conflito interno e um reencontro).

  • Foco em um episódio com começo, meio e fim (chegada do ônibus, encontro, diálogo).

A justificativa "condensação de uma história com poucos personagens" é precisa.

Conclusão: A única alternativa que nomeia corretamente o gênero e oferece justificativa coerente com o texto é a letra E.

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