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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg131221
Banca
FGV
Órgão
IBGE
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Supervisor de Coleta e Qualidade (SCQ)

ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se à questão.



Maria  


     Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?


     A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida! 


     Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...


EVARISTO, Conceição. Olhos D’água (adaptado). Rio de Janeiro: Pallas/Fundação Biblioteca Nacional, 2016. 

Assinale a opção que apresenta a crítica presente no texto.
  1. AA desigualdade social e seus desdobramentos.
  2. BO descaso com a saúde pública no Brasil.
  3. CA agressão física contra a mulher, praticada pelos parceiros.
  4. DA superlotação dos transportes públicos.
  5. EA violência urbana praticada por menores.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — A desigualdade social e seus desdobramentos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crítica social em "Maria" (Conceição Evaristo)

Gabarito: letra A. O texto constrói uma crítica à desigualdade social ao retratar as condições de vida de Maria, empregada doméstica, que depende de restos da patroa, de gorjeta e enfrenta dificuldades para cuidar dos filhos doentes. Nenhuma das outras alternativas encontra sustento no trecho.

A questão pede "a crítica presente no texto" – ou seja, qual problema social o autor denuncia por meio da narrativa. O foco não está em um fato isolado, mas na condição de Maria como representante de uma classe social desfavorecida.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta."

A crítica à desigualdade social é explícita: Maria depende da sobra dos patrões. A gorjeta chega "numa hora boa" – revela a precariedade financeira. Ela precisa comprar remédio e "uma lata de Toddy" com o pouco dinheiro. A condição de empregada doméstica, a espera longa no ponto de ônibus, o cansaço, a sacola pesada: tudo isso constrói um quadro de desigualdade estrutural.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto menciona que os filhos estão gripados e que ela precisa comprar xarope e "remedinho de desentupir o nariz", mas não há qualquer crítica ao sistema público de saúde, à falta de atendimento ou ao descaso do Estado. A dificuldade é financeira, não de acesso a serviços.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. Não há agressão física por parceiros no trecho. O pai do filho de Maria aparece e diz sentir saudade, mas não há violência. O corte na mão de Maria foi com uma faca-laser enquanto cortava pernil para a patroa – acidente doméstico, não agressão.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação + restrição. O ônibus "não estava cheio, havia lugares" – a superlotação não é retratada. A espera no ponto é longa, mas o problema central de Maria não é o transporte, e sim a desigualdade que a obriga a usar transporte coletivo demorado. A crítica não é ao transporte superlotado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. Não há qualquer referência a violência praticada por menores. Maria tem filhos pequenos (um com o homem reencontrado e mais dois), mas não há narração de violência envolvendo crianças ou adolescentes.

Conclusão: A única alternativa que reflete uma crítica efetivamente presente no texto é a A. Todas as demais introduzem problemas que o texto não aborda ou tangencia superficialmente.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a crítica central, pergunte-se: qual problema social é recorrente e estruturante na vida da personagem? A resposta é a desigualdade de classe – manifestada na pobreza, no trabalho doméstico explorado, na dependência de sobras, na falta de condições para tratar os filhos.

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