Questão de História — História do Brasil — FGV 2026
História›História do Brasil
Código
fg132390
Banca
FGV
Órgão
Prefeitura de São José dos Campos - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Professor II - História
Leia o trecho a seguir.Eu, Sabina da Cruz, achando-me incomodada de saúde, delibero meu testamento. Declaro que sou católica, e professo a Religião de Jesus Cristo, pois que desde que vim de minha terra de África, onde nasci, chegando nesta Capital há muitos anos fui batizada na fé da qual tenho sempre vivido, e desejo morrer. Declaro que sendo escrava do Senhor Manoel Gonçalves da Cruz, já falecido, de seu poder me libertei há muitos anos dando-lhe dois escravos por minha liberdade. Declaro que os bens que possuo consistem nos escravos Lino Gege, Maria Luiza Nagô, Antônio da mesma Nação, Mauricia e Francisca crioulas, cujos escravos os possuo desembargados. Deixo a minha afilhada, filha do meu Senhor Manoel Gonçalves da Cruz duas voltas de cordão de ouro para seu ornato. Meu testamenteiro me mandará celebrar uma capela de Missas pela minha alma, e fará repartir com os pobres a quantia de vinte mil reis.Adaptado de DAMIÃO, Erika. “O que deixei: testamento de Sabina da Cruz, “a denunciante” da Revolta dos Malês”, Revista de fontes, v. 12, n. 22, 2025, p. 60.Com base na leitura do testamento, assinale a opção que identifica corretamente aspectos da vida das pessoas escravizadas no Brasil presentes no documento.
AA estrutura da sociedade escravista, que possibilitava a existência de brechas legais para beneficiar determinados indivíduos em posições de desvantagem.
BA diversidade de experiências entre indivíduos de origem africana ou descendentes, marcada por distintas trajetórias sociais e formas de inserção na sociedade escravista.
CA facilidade de mobilidade social das pessoas escravizadas na ordem escravista, possibilitada pela acumulação de bens e pela participação em atividades econômicas.
DA predominância de redes de sociabilidade e ajuda mútua entre pessoas escravizadas, expressa em práticas como a destinação de bens a outros escravizados.
EA resistência africana às imposições do sistema colonial, manifestada na manutenção de um sistema religioso e legal alternativo ao imposto.
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GabaritoB — A diversidade de experiências entre indivíduos de origem africana ou descendentes, marcada por distintas trajetórias sociais e formas de inserção na sociedade escravista.
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Aspectos da vida escravizada no Brasil a partir de um testamento
Gabarito: letra B. O testamento de Sabina da Cruz revela a diversidade de experiências entre os africanos e seus descendentes na sociedade escravista brasileira, mostrando trajetórias distintas: Sabina nasceu na África, foi escravizada, conseguiu alforria dando dois escravos em troca, e posteriormente tornou-se proprietária de escravos. Esse percurso singular demonstra que não havia uma vivência homogênea entre os negros, havendo diferentes formas de inserção social.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A afirmação de que a sociedade escravista oferecia "brechas legais para beneficiar indivíduos em desvantagem" é imprecisa. O testamento mostra uma possibilidade de alforria por meio da substituição (dar dois escravos), mas isso não era uma "brecha" generalizada – era um recurso extremamente limitado e excepcional. O sistema escravista era amplamente fechado, e a maioria dos cativos jamais tinha acesso a essa via.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O documento exemplifica exatamente a diversidade de experiências: Sabina, africana, escrava, alforriada, proprietária de escravos. Ela também adota o catolicismo. Essa variedade de trajetórias entre pessoas de origem africana é um tema central da historiografia, que rejeita a ideia de uma vivência única e monolítica.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O termo "facilidade" é enganoso. Embora Sabina tenha conseguido ascender, seu caso é uma exceção. A ordem escravista impunha enormes barreiras à mobilidade social; a acumulação de bens era rara e dependia de condições muito específicas, como a permissão do senhor e oportunidades econômicas limitadas. A palavra "facilidade" distorce a realidade histórica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O testamento não mostra redes de solidariedade entre escravizados. Sabina deixa bens para sua afilhada (filha de seu ex-senhor) e para os pobres em geral, não para outros cativos. Além disso, ela possui escravos, o que a coloca na posição de senhora, não de igual entre os escravizados. O documento reflete uma hierarquia social, não uma ajuda mútua entre escravos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Sabina declara-se católica e não há vestígio de manutenção de "sistema religioso e legal alternativo". Pelo contrário, ela abraça a religião imposta pela colonização. A resistência africana ao sistema colonial se manifestou de diversas formas (revoltas, quilombos, sincretismo), mas neste testamento não há evidência disso.
NÃO CAIA NESSA!
A alternativa C é a mais traiçoeira porque, ao focar na ascensão de Sabina, leva o aluno a imaginar que a mobilidade social era comum. A banca explora essa generalização indevida: um caso excepcional não pode ser tomado como regra. Fique atento a palavras como "facilidade", "predominância" ou "sempre" – elas costumam sinalizar distorções históricas.
Conclusão: A riqueza do testamento está em mostrar que, dentro do sistema escravista, havia trajetórias individuais variadas, desde a escravidão até a posse de escravos. Isso reforça a necessidade de uma análise que considere a diversidade de experiências entre os africanos e seus descendentes no Brasil colonial.