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Questão de Português — Morfologia — FGV 2026

PortuguêsMorfologia
Código
fg134638
Banca
FGV
Órgão
Prefeitura de São José dos Campos - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Leia o texto a seguir.CIDADE DE DEUSBarracos de caixas de tomate, madeiras de lei, carnaúba, pinho-de-riga, caibros cobertos, em geral, por telhas de zinco ou folhas de compensados. Fogueiras servindo de fogão para fazer o mocotó, a feijoada, o cozido, o vatapá, mas, na maioria das vezes, para fazer aquele arroz de terceira grudado, angu duro ou muito ralo, aqueles carurus catados no mato, mal lavados, ou simplesmente nada. Apenas olhares carcomidos pela fome, em frente aos barracos, num desespero absoluto e que por ser absoluto é calado. Sem fogueira para esquentar ou iluminar como o sol, que se estendia por caminhos muitas vezes sem sentido algum para os que não soltavam pipas, não brincavam de pique-pega e não se escondiam num pique-esconde.Os abismos têm várias faces e encantam, atraem para o seu seio como as histórias em quadrinhos que chegavam ao morro compradas nas feiras da Maia Lacerda e do Rio Comprido, baratas como a tripa de porco que sobrava na casa do compadre maneiro que nem sempre era compadre de batismo. Era apenas o adjetivo, usado como substantivo, sinônimo de uma boa amizade, de um relacionamento que era tecido por favores, empréstimos impagáveis e consideração até na hora da morte.São as pessoas nesse desespero absoluto que a polícia procura, espanca com seus cassetetes possíveis e sua razão impossível, fazendo com que elas, com seus olhares carcomidos pela fome, achem plausíveis os feitos e os passos de Zé Pequeno e de sua quadrilha pelos becos que, por terem só uma entrada, se tornam becos sem saídas, e achem, também, corriqueira essa visão de meia cara na quina do último barraco de cada beco de crianças negras ou filhas de nordestinos, de peito sem proteção, pé no chão, shorts rasgados e olhar já cabreiro até para o próprio amigo, que, por sua vez, se tornava inimigo na disputa de um pedaço de sebo de boi achado no lixo e que aumentaria o volume da sopa, de um sanduíche quase perfeito nas imediações de uma lanchonete, de uma pipa voada, ou de um ganso dado numa partida de bola de gude.(LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.)Por meio de um texto em que predomina a tipologia descritiva, o capítulo inicial da obra Cidade de Deus, de Paulo Lins, apresenta, ao leitor, a ambientação da famosa favela homônima ao título do livro.Das opções a seguir, marque aquela em que se apresentam dois substantivos que, por si sós e por seu contexto de uso, contribuem para que o leitor tome contato com a precariedade do ambiente.
  1. Abarracos e becos.
  2. Bfome e pipas.
  3. Cfome e pessoas.
  4. Dbarracos e sanduíche.
  5. Esanduíche e becos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — barracos e becos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substantivos que revelam precariedade

Gabarito: letra A. A questão pede dois substantivos que, por si sós e em seu contexto de uso, transmitam a precariedade do ambiente descrito no texto. A única alternativa em que ambos os termos remetem diretamente a aspectos da pobreza e da violência da favela é barracos e becos.

“Barracos de caixas de tomate, madeiras de lei, carnaúba, pinho-de-riga, caibros cobertos, em geral, por telhas de zinco ou folhas de compensados.” “becos que, por terem só uma entrada, se tornam becos sem saídas”

O substantivo barracos (moradias improvisadas e frágeis) e becos (vielas estreitas e sem saída) são apresentados já no início do texto e associados à falta de estrutura, perigo e abandono. Nenhum outro par de substantivos carrega essa carga semântica de forma tão imediata.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Barracos e becos são os elementos centrais da ambientação: as moradias precárias e os becos que se tornam “sem saída” simbolizam a exclusão e a violência. Ambos são descritos com detalhes que reforçam a precariedade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Fome aparece como “olhares carcomidos pela fome”, mas pipas não remete à precariedade; são mencionadas apenas para dizer que as crianças não soltavam pipas (privação). O substantivo “pipas” isoladamente não evoca o ambiente degradado.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Fome é forte, mas pessoas é genérico demais. O texto fala de pessoas em desespero, mas o termo “pessoas” por si só não carrega a ideia de precariedade; é neutro e depende de muitos qualificadores.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Barracos é adequado, mas sanduíche aparece em “sanduíche quase perfeito nas imediações de uma lanchonete” – o contexto sugere disputa por restos, mas o substantivo “sanduíche” sozinho não é símbolo de precariedade; a precariedade está no ato de disputar, não no objeto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Becos funciona, mas sanduíche novamente falha, pelo mesmo motivo da alternativa D. O par não é equilibrado: apenas um dos dois termos sustenta a ideia de precariedade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca usa “fome” e “pessoas”, que parecem fortes, mas “pessoas” é genérico e “pipas” é neutro. O candidato pode se deixar levar por palavras que aparecem em contextos negativos, sem verificar se o substantivo em si, no uso do texto, representa a precariedade.

Gabarito: letra A

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