Questão de Criminalística — Aspectos Gerais da Tanatologia — FGV 2026
Criminalística›Aspectos Gerais da Tanatologia
Código
fg155471
Banca
FGV
Órgão
PC PI
Ano
2026
Cargo
Per OC ( )
Entre os muitos problemas da Tanatologia Médico-Legal, o diagnóstico de morte súbita ou de morte agônica e o do tempo de sobrevivência sempre preocuparam o estudioso das questões legispericiais [...]. O período de sobrevivência, por sua vez, tem, em Medicina Legal, uma primordial importância, principalmente nos casos de morte violenta por homicídio, suicídio e acidentes fortuitos ou de trabalho e, ainda, nas mortes suspeitas.
Genival Veloso de França. Medicina Legal 11ª ed. Grupo GEN: Rio de Janeiro, 2017
Durante a investigação de uma morte suspeita, buscando determinar como se deu a sequência da morte, um perito analisa o fígado e as glândulas suprarrenais da vítima. As amostras utilizadas para análises de docimásia hepática histológica de Meissner assumiram cor avermelhada e a docimásia hepática química revelou precipitação branca após adição de álcool. Além disso, a docimásia suprarrenal histológica mostrou abundante pigmento feocrômico nas cápsulas suprarrenais. Considerando as técnicas e interpretações descritas, assinale a opção que apresenta a conclusão mais compatível com o conjunto de achados.
AA morte provavelmente ocorreu após prolongada agonia, devido à depleção das reservas de glicogênio e à abundância de epinefrina nas cápsulas suprarrenais.
BA presença de pigmento fotocrômico indica manipulação pós-morte do material, invalidando as investigações.
CEste é, provavelmente, um caso de morte lenta por septicemia, dada a deterioração metabólica e a falência orgânica.
DA compatibilidade com as alterações metabólicas provocadas por intoxicação por epinefrina aponta para morte fulminante.
EA morte foi, provavelmente, instantânea, com pouca ou nenhuma solicitação suprarrenal e preservação das reservas glicogênicas.
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GabaritoE — A morte foi, provavelmente, instantânea, com pouca ou nenhuma solicitação suprarrenal e preservação das reservas glicogênicas.
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Docimásias hepáticas e suprarrenais na Tanatologia
Gabarito: letra E. O conjunto de achados — docimásia hepática histológica de Meissner avermelhada, docimásia hepática química com precipitação branca após adição de álcool e abundante pigmento feocrômico nas suprarrenais — indica morte instantânea, com preservação das reservas glicogênicas e pouca ou nenhuma solicitação suprarrenal. A base é a Tanatologia Médico-Legal, que correlaciona o esgotamento do glicogênio hepático e a depleção de catecolaminas com a duração da agonia.
A Tanatologia estuda a morte e seus fenômenos, incluindo o diagnóstico do tempo de sobrevivência — o intervalo entre o início da agonia e a morte efetiva. Esse dado é crucial em mortes violentas (homicídio, suicídio, acidentes) e suspeitas, pois ajuda a reconstruir a sequência dos fatos. As docimásias são provas funcionais aplicadas em órgãos para inferir se houve atividade metabólica até o momento da morte e por quanto tempo ela se manteve.
A docimásia hepática histológica de Meissner avalia a presença de glicogênio no fígado. O glicogênio é a reserva energética que o organismo consome durante a agonia. Se a amostra assume cor avermelhada, isso indica que o glicogênio está preservado — ou seja, não houve consumo significativo, o que é típico de morte rápida ou instantânea. Se houvesse agonia prolongada, o glicogênio estaria depletado e a coloração seria diferente (pálida ou não avermelhada).
A docimásia hepática química complementa a histológica: ao adicionar álcool à amostra, a precipitação branca confirma a presença de glicogênio. O álcool precipita o glicogênio, formando um precipitado esbranquiçado. A ausência de precipitação indicaria ausência de glicogênio, ou seja, consumo total durante agonia prolongada.
A docimásia suprarrenal histológica avalia a presença de pigmento feocrômico (catecolaminas — epinefrina e norepinefrina) nas glândulas suprarrenais. Em morte instantânea, as suprarrenais não são solicitadas a liberar grandes quantidades de catecolaminas, então o pigmento permanece abundante. Em agonia prolongada, há depleção desse pigmento, pois o organismo o consome na tentativa de manter as funções vitais.
Portanto, o conjunto — glicogênio preservado + pigmento feocrômico abundante — aponta para morte instantânea, sem agonia prolongada. A alternativa E sintetiza exatamente isso: "morte instantânea, com pouca ou nenhuma solicitação suprarrenal e preservação das reservas glicogênicas".
NÃO CAIA NESSA!
A banca inverte o raciocínio: em vez de associar glicogênio preservado e pigmento abundante à morte rápida, o candidato pode pensar que "abundância" indica "muita atividade" e concluir agonia prolongada. Mas o oposto é verdadeiro: abundância de reservas = morte súbita; depleção = agonia longa. Fique atento à direção da interpretação.
Docimásias na Tanatologia
1Objetivo
Estimar tempo de sobrevivência (agonia)
2Hepática histológica (Meissner)
Avalia glicogênio no fígado
Cor avermelhada = preservado → morte rápida
Depleção = agonia prolongada
3Hepática química
Álcool precipita glicogênio
Precipitação branca = preservado → morte rápida
Sem precipitação = consumido → agonia longa
4Suprarrenal histológica
Avalia pigmento feocrômico (catecolaminas)
Abundante = sem solicitação → morte instantânea
Depleção = agonia prolongada
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que houve "depleção das reservas de glicogênio" e "abundância de epinefrina". Contradiz os achados: a docimásia hepática mostrou glicogênio preservado (cor avermelhada e precipitação branca), não depletado. Além disso, a abundância de pigmento feocrômico indica ausência de solicitação suprarrenal, não agonia prolongada. O erro está em inverter o significado dos achados.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Menciona "pigmento fotocrômico" (termo incorreto — o correto é feocrômico) e alega manipulação pós-morte. Não há qualquer indício de manipulação no enunciado; os achados são compatíveis com morte instantânea. A alternativa inventa uma causa de invalidação sem fundamento nos dados apresentados.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Sugere "morte lenta por septicemia". A septicemia envolveria deterioração metabólica progressiva e consumo de reservas, o que contraria a preservação do glicogênio e do pigmento feocrômico. Não há menção a infecção ou falência orgânica no enunciado; os achados apontam para morte rápida, não lenta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Fala em "intoxicação por epinefrina" e "morte fulminante". Embora a morte instantânea seja compatível, a intoxicação por epinefrina não é o mecanismo indicado pelos achados. A abundância de pigmento feocrômico é um achado normal em morte súbita, não um sinal de intoxicação exógena. A alternativa adiciona um elemento não suportado pelo enunciado.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Corresponde exatamente à interpretação dos achados: glicogênio preservado (docimásias hepáticas positivas) e pigmento feocrômico abundante (suprarrenais intactas) indicam morte instantânea, sem agonia prolongada. A preservação das reservas glicogênicas e a ausência de solicitação suprarrenal são os marcadores clássicos de morte súbita.