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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156010
Banca
FGV
Órgão
AMAZUL
Ano
2026
Cargo
ADTND ( )

Por não estarem distraídos

(Clarice Lispector)

 

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbitos, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

A questão refere-se ao texto a seguir:     O texto apresenta uma perspectiva amorosa baseada
  1. Ana vigilância ao outro, a partir do zelo e cuidado com a relação.
  2. Bno comprometimento, fundamentado no acordo entre os amantes.
  3. Cna leveza e no contentamento, amparados na fruição do relacionamento.
  4. Dna firmeza e no engajamento, considerado o pacto amoroso.
  5. Ena constância, contrastando com a efemeridade das relações modernas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — na leveza e no contentamento, amparados na fruição do relacionamento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A perspectiva amorosa em "Por não estarem distraídos"

Gabarito: letra C. O texto de Clarice Lispector apresenta uma perspectiva amorosa fundada na leveza e no contentamento, amparados na fruição — ou seja, no prazer de simplesmente estar junto, sem esforço ou controle. A passagem decisiva é a que descreve a alegria do encontro como uma "levíssima embriaguez" e uma "sede" que é, ela mesma, "a própria água" dos amantes. A alternativa C é a única que captura essa essência de entrega espontânea ao momento, sem acrescentar elementos que o texto não sustenta.

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles."

Aqui, a "sede" não é falta a ser suprida, mas estado de gozo: a alegria está no próprio desejar, no respirar "de antemão" o ar que está à frente. É a fruição pura do relacionamento, sem projeto, sem exigência. O texto, porém, não para aí: ele narra a ruína desse estado quando os amantes "quiseram essa mesma alegria" — ou seja, quando tentaram reter o que já tinham. A tese central é justamente essa: a relação floresce na leveza e se perde quando se torna objeto de vigilância, compromisso formal ou pacto.

O comando e o método

O enunciado pede que se identifique a perspectiva amorosa que o texto apresenta. Isso é uma questão de compreensão (e não de inferência): a resposta está explícita na tese, que aparece logo no início e é retomada na conclusão. O comando "apresenta uma perspectiva amorosa baseada" pede que você localize o fundamento da relação descrita — não o que a destruiu, não o que veio depois. Por isso, a leitura deve separar dois momentos do texto: o estado inicial de graça (leveza, contentamento, fruição) e o estado posterior de erro (vigilância, exigência, dureza). A perspectiva amorosa defendida é a primeira; a segunda é a crítica.

A técnica que decide

A armadilha central desta questão é a oposição entre dois blocos do texto. Veja como o autor constrói a passagem do bem ao mal:

Estado inicial (perspectiva defendida)

Estado posterior (crítica)

"levíssima embriaguez"

"Tudo se transformou em não"

"alegria"

"grande dança dos erros"

"sede era a própria água"

"cerimonial das palavras desacertadas"

"admiravam estarem juntos"

"exigentes e duros"

A alternativa C descreve exatamente o primeiro bloco: leveza ("levíssima embriaguez"), contentamento ("alegria") e fruição ("ter esta sede era a própria água deles"). As demais alternativas descrevem o segundo bloco — a fase do erro — ou acrescentam ideias que o texto não contém. A banca adora esse tipo de pegadinha: oferece como correta uma alternativa que descreve o oposto da tese, mas com palavras que aparecem no texto (como "vigilância", "comprometimento", "firmeza"). O candidato desatento marca a alternativa que cita termos do texto, sem perceber que eles estão na parte negativa.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa fala em "vigilância ao outro, a partir do zelo e cuidado com a relação". O texto, porém, mostra que a vigilância é justamente o que destrói a relação: "Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos." A palavra "vigilância" remete a "prestar atenção", que o texto condena. A perspectiva amorosa defendida é a da distração (leveza), não a da vigilância. Portanto, a alternativa inverte o sentido do texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa fala em "comprometimento, fundamentado no acordo entre os amantes". O texto não menciona nenhum acordo ou compromisso formal. Pelo contrário, a ruína vem quando eles "quiseram dar um nome" — ou seja, quando tentaram formalizar o que era espontâneo. O "comprometimento" e o "acordo" são ideias extrapoladas do texto, que não as sustenta. A relação descrita é de fruição, não de pacto.

Alternativa C — ✅ Correta

Gabarito. A alternativa C diz: "na leveza e no contentamento, amparados na fruição do relacionamento". Isso é uma paráfrase exata da tese. O texto abre com "Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria" — leveza e contentamento. E a "fruição" está em "ter esta sede era a própria água deles": o prazer está no próprio desejar, no viver o momento, sem projeto. A alternativa C é a única que descreve o estado inicial de graça, que é a perspectiva amorosa defendida.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa fala em "firmeza e no engajamento, considerado o pacto amoroso". O texto mostra que a firmeza e a exigência são o que destrói a relação: "exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham". A palavra "engajamento" remete a "quiseram ser, eles que eram" — a tentativa de controlar o que já existia. A perspectiva defendida é a da entrega (fruição), não a do engajamento. Portanto, a alternativa inverte o sentido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa fala em "constância, contrastando com a efemeridade das relações modernas". O texto não menciona "relações modernas" nem "efemeridade". Essa é uma ideia de fora do texto, um clichê sobre relacionamentos contemporâneos que o candidato pode trazer de seu conhecimento de mundo. O texto de Clarice Lispector não faz esse contraste. A alternativa tangencia o tema, mas não se ancora em nenhuma passagem.

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca nas alternativas B, D e E palavras que aparecem no texto ("comprometimento", "firmeza", "constância"), mas em contextos que invertem o sentido. A correta (C) é a única que descreve o estado inicial de graça, que é a tese. Desconfie de alternativas que citam termos do texto, mas os colocam na parte negativa.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler o texto, separe os dois momentos (o bem e o mal). A perspectiva amorosa defendida é sempre a do bem. Se a alternativa descreve o mal (vigilância, exigência, dureza), ela está errada, mesmo que use palavras do texto.

Conclusão: a perspectiva amorosa do texto é a da leveza e do contentamento, amparados na fruição — o prazer de simplesmente estar junto, sem esforço ou controle. As demais alternativas ou contradizem o texto (A, B, D) ou extrapolam (E). A resposta é a letra C.

Gabarito: letra C

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