Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbitos, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
A questão refere-se ao texto a seguir:
Na frase “Ele procurava e não via”, o conectivo destacado tem o valor de
Aadição.
Balternância.
Coposição.
Dcomplementariedade.
Econcomitância.
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GabaritoC — oposição.
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Valor do conectivo "e" em contexto de oposição
Gabarito: letra C. Na frase "Ele procurava e não via", o conectivo e não soma ideias — ele liga duas ações que se contrastam: procurar (esperar encontrar) e não ver (fracassar em encontrar). O valor é de oposição, equivalente a "mas": ele procurava, mas não via. A pista está no próprio texto, que descreve a "grande dança dos erros" e o desencontro entre os dois: "Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira".
"Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto."
O trecho mostra que o "e" articula uma quebra de expectativa: a ação de procurar deveria levar a encontrar, mas o resultado é o oposto. Esse contraste é típico da conjunção adversativa, e o "e" aqui assume esse valor, como ocorre em "estudou e não passou".
O comando
A questão pede o valor do conectivo — ou seja, a relação semântica que ele estabelece entre as orações. Não se trata de classificar a oração sintaticamente, mas de identificar o sentido que o conectivo carrega naquele contexto. Isso exige ler o trecho e perceber se as ideias se somam, se alternam, se opõem, se completam ou se ocorrem ao mesmo tempo.
O texto
O texto de Clarice Lispector narra a passagem de um estado de harmonia ("a levíssima embriaguez de andarem juntos") para um estado de desencontro ("Tudo se transformou em não"). A frase "Ele procurava e não via" está no meio dessa descrição do fracasso: ele busca algo (a conexão, a presença) e não encontra. O "e" liga duas ações que não se complementam, mas se contradizem — a segunda nega o resultado esperado da primeira.
A técnica
Conjunções coordenativas têm valores típicos: e = adição; mas = oposição; ou = alternância. Mas o contexto pode alterar o valor. Quando o "e" liga orações em que a segunda contraria a expectativa criada pela primeira, ele equivale a "mas" e tem valor adversativo. O teste é substituir o "e" por "mas": se a frase mantém o sentido, o valor é de oposição. Aqui, "Ele procurava, mas não via" preserva perfeitamente o sentido — prova de que a relação é de contraste.
Conectivo "e"
1Valor típico
Adição
2Valor contextual
Oposição (equivale a "mas")
Segunda oração contraria a 1ª
Ex.: "procurava e não via"
Ex.: "estudou e não passou"
3Teste de verificação
Substituir por "mas"
Mantém o sentido → oposição
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Adição seria o valor mais comum do "e", mas aqui as ações não se somam: "procurar" e "não ver" não são fatos que se acumulam; o segundo frustra o primeiro. Se fosse adição, a frase significaria "ele procurava e, além disso, não via" — sem oposição, o que não corresponde ao contexto de erro e desencontro.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Alternância é o valor de "ou", "ora...ora", indicando que as ações se excluem ou se revezam. Aqui, as duas ações ocorrem simultaneamente no mesmo sujeito: ele procura e, ao mesmo tempo, não vê. Não há revezamento.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Oposição é exatamente o valor expresso: a segunda oração contraria a expectativa da primeira. O texto reforça isso com o advérbio "no entanto" logo adiante, que marca explicitamente o contraste. O "e" aqui é adversativo, como em "tentou e não conseguiu".
Alternativa D — ❌ Incorreta
Complementariedade não é um valor típico de conjunção coordenativa; sugere que as orações se completam. Aqui, elas se opõem, não se completam. Além disso, o termo não é usado na nomenclatura gramatical para classificar conectivos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Concomitância indicaria que as ações ocorrem ao mesmo tempo, sem relação de contraste. Embora "procurar" e "não ver" possam ser simultâneos, o que o conectivo marca é a quebra de expectativa, não a simultaneidade. O valor semântico pedido é o da relação lógica entre as orações, que é de oposição.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora o valor não usual do "e". O candidato que decora "e = adição" marca a letra A sem perceber que o contexto inverte o sentido. Sempre teste o conectivo substituindo por outro de mesmo valor: se "mas" funciona, é oposição.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o valor de um conectivo, pergunte: "a segunda oração confirma, contraria ou alterna com a primeira?". Se contraria, é oposição — mesmo que o conectivo seja "e".