Questão de Português — Denotação e Conotação — FGV 2026
Português›Denotação e Conotação
Código
fg156014
Banca
FGV
Órgão
AMAZUL
Ano
2026
Cargo
ADTND ( )
Por não estarem distraídos
(Clarice Lispector)
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbitos, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
A questão refere-se ao texto a seguir: Sobre a linguagem utilizada no texto, pode-se afirmar que
Aapresenta tom formal, construindo uma distância do texto em relação ao leitor.
Bmanifesta um caráter técnico ao recorrer a expressões do ambiente literário.
Cexpõe teor poético, já que explora a plurissignificação de muitos vocábulos.
Dreitera a ironia, considerando o contraditório do relacionamento amoroso.
Erevela a informalidade para ressaltar o estilo reflexivo do narrador.
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GabaritoC — expõe teor poético, já que explora a plurissignificação de muitos vocábulos.
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Função poética e plurissignificação no texto de Clarice Lispector
Gabarito: letra C. O texto de Clarice Lispector expõe teor poético, pois explora a plurissignificação de muitos vocábulos, ou seja, as palavras ganham múltiplos sentidos, especialmente conotativos, como se vê em "a sede era a própria água deles" e "a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca". A linguagem é marcadamente literária e subjetiva, centrada na expressão de sensações e emoções, o que caracteriza a função poética da linguagem.
O comando pede que se afirme algo sobre a linguagem do texto — é uma questão de compreensão e análise estilística. Não se trata de inferir algo implícito, mas de reconhecer, a partir das marcas linguísticas, qual é o efeito de sentido predominante. Para isso, é preciso observar o uso conotativo das palavras e a organização rítmica e imagética do texto.
O texto narra a história de um casal que, por "não estarem distraídos", perde a espontaneidade da alegria. A tese central é que a consciência excessiva (prestar atenção, querer nomear, querer ter o que já se tinha) destrói a felicidade. Essa ideia é construída por meio de metáforas e comparações — "a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras", "o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue" — que atribuem sentidos figurados a elementos concretos. A plurissignificação está em palavras como "sede", "água", "distraídos", que, no contexto, adquirem significados que vão além do literal.
A função poética é aquela que centra a mensagem na própria mensagem, valorizando a forma, as imagens, os jogos de palavras e os sentidos conotativos. No texto, isso se manifesta na linguagem figurada e na subjetividade com que o narrador expressa as emoções dos personagens. A plurissignificação é a capacidade de uma palavra ou expressão de apresentar múltiplos sentidos, e é exatamente isso que ocorre em passagens como "a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras", em que "sede" e "águas" não são apenas sensações físicas, mas símbolos do desejo e da plenitude.
A banca, ao perguntar sobre a linguagem, quer que o candidato identifique o efeito predominante — e não um efeito secundário ou uma característica ausente. A alternativa C é a única que captura a essência do texto: o teor poético decorrente da plurissignificação. As demais alternativas ou extrapolam (como a A, que fala em tom formal e distância, quando o texto é subjetivo e próximo), ou contradizem o texto (como a B, que fala em caráter técnico, quando o texto é literário), ou tangenciam o tema (como a D, que fala em ironia, quando o texto é mais lírico que irônico), ou restringem o alcance (como a E, que fala em informalidade, quando o texto é poético, não informal).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre "teor poético" e "ironia" ou "informalidade". A ironia exige uma contradição explícita entre o que se diz e o que se quer dizer, o que não é o caso aqui; a informalidade é uma marca de registro, não de estilo poético. Fique atento ao efeito central da linguagem, não a um detalhe periférico.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar a linguagem de um texto, pergunte-se: qual é a função predominante? Se há metáforas, imagens e subjetividade, a função é poética. Se há ironia, procure por contradições ou duplos sentidos explícitos. Se há informalidade, procure por gírias ou expressões coloquiais.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto apresenta tom formal, construindo uma distância em relação ao leitor. Isso contradiz o texto, que é subjetivo e próximo do leitor, com frases como "eles respiravam de antemão o ar que estava à frente" e "a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca". O tom é lírico e sensorial, não formal e distante. A banca tenta confundir com a ideia de que texto literário é sempre formal, mas a linguagem poética não é sinônimo de formalidade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto manifesta um caráter técnico ao recorrer a expressões do ambiente literário. Isso é um erro de conceito: o texto é literário, mas não técnico. Não há jargões ou termos especializados; há metáforas e imagens poéticas. A banca tenta confundir "literário" com "técnico", mas são coisas distintas. O texto não explica regras ou procedimentos; ele expressa sensações.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que o texto expõe teor poético, já que explora a plurissignificação de muitos vocábulos. Isso é exatamente o que ocorre. Veja o trecho:
"a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras"
Aqui, "sede" e "águas" não são apenas sensações físicas; são símbolos do desejo e da plenitude. Outro exemplo:
"ter esta sede era a própria água deles"
A palavra "sede" é usada em sentido conotativo, representando o desejo de estar junto, e "água" representa a satisfação desse desejo. Essa multiplicidade de sentidos é a plurissignificação, característica da função poética.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto reitera a ironia, considerando o contraditório do relacionamento amoroso. Isso é uma extrapolação: o texto não é irônico, mas lírico e reflexivo. A ironia exigiria uma contradição explícita entre o que se diz e o que se quer dizer, o que não ocorre. O texto fala da perda da espontaneidade, mas de forma séria e poética, não com tom de zombaria ou sarcasmo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto revela informalidade para ressaltar o estilo reflexivo do narrador. Isso é uma restrição indevida: o texto é poético, não informal. Não há gírias, expressões coloquiais ou marcas de oralidade. A linguagem é elaborada e literária, com inversões sintáticas e imagens metafóricas. A informalidade não é uma característica do texto; a reflexividade é, mas ela é expressa por meio da poesia, não da informalidade.
Conclusão: a alternativa C é a única que descreve corretamente a linguagem do texto, pois identifica o teor poético e a plurissignificação, que são as marcas centrais do estilo de Clarice Lispector. As demais alternativas ou contradizem o texto, ou extrapolam informações, ou restringem o alcance da análise. Ao resolver questões sobre linguagem, lembre-se de ancorar cada afirmação em passagens concretas do texto e de identificar a função predominante.