Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto, ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbitos, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
A questão refere-se ao texto a seguir: Assinale a opção que apresenta sujeito expresso na oração.
AHavia a levíssima embriaguez de andarem juntos.
BAndavam por ruas e ruas falando e rindo.
CE se vê que por admiração se estava de boca entreaberta.
DSó porque, de súbitos, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.
EE ao toque brilhava o brilho da água deles.
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GabaritoE — E ao toque brilhava o brilho da água deles.
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Sujeito expresso na oração
Gabarito: letra E. A única alternativa que apresenta sujeito expresso — isto é, um termo escrito na oração que funciona como sujeito do verbo — é a E: em "E ao toque brilhava o brilho da água deles", o sujeito é "o brilho da água deles", com núcleo "brilho", claramente materializado na frase. As demais alternativas ou têm sujeito oculto (A, B, D) ou indeterminado (C), como se prova abaixo.
O comando pede que se assinale a opção com sujeito expresso — ou seja, aquele que está materialmente presente na oração, com núcleo identificável. Isso exclui de imediato o sujeito oculto (que só se deduz pela desinência verbal ou pelo contexto), o indeterminado (que não se pode identificar) e o inexistente (oração sem sujeito). A técnica é simples: localize o verbo e pergunte "quem?" — se a resposta estiver escrita na frase, o sujeito é expresso.
No texto de Clarice Lispector, a oração da alternativa E é: "ao toque brilhava o brilho da água deles". O verbo é "brilhava" (intransitivo). Perguntando "o que brilhava?", a resposta está na própria frase: "o brilho da água deles". O núcleo do sujeito é "brilho", e os demais termos ("da água deles") são adjuntos adnominais que o especificam. Como o sujeito está escrito, ele é expresso.
"E ao toque brilhava o brilho da água deles" — o sujeito está explícito, posposto ao verbo.
Agora vejamos por que as outras não servem:
Sujeito
1Expresso (escrito na oração)
Ex.: "brilhava o brilho da água"
2Oculto/desinencial (deduzido pela desinência)
Ex.: "Andavam por ruas"
3Indeterminado (não identificável)
Ex.: "se estava de boca entreaberta"
4Inexistente (verbo impessoal)
Ex.: "Havia a levíssima embriaguez"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos."
O verbo "havia" está empregado no sentido de existir — verbo impessoal. Nesse caso, a oração é sem sujeito (sujeito inexistente). O termo "a levíssima embriaguez" é objeto direto do verbo haver, não sujeito. Portanto, não há sujeito expresso. Erro: confundir objeto direto com sujeito em verbo impessoal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Andavam por ruas e ruas falando e rindo."
O verbo "andavam" está na 3ª pessoa do plural, mas o sujeito não está escrito — é oculto (eles, referindo-se aos amantes do texto). O sujeito é identificado pela desinência verbal e pelo contexto, mas não está expresso na oração. Erro: sujeito oculto/desinencial, não expresso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"E se vê que por admiração se estava de boca entreaberta."
Aqui há dois verbos: "vê" e "estava". No primeiro, "se vê" — o "se" é índice de indeterminação do sujeito (verbo transitivo direto + se = voz passiva sintética, mas o sujeito é "que por admiração se estava..." — na verdade, a oração "que..." funciona como sujeito da forma "se vê", mas é uma oração subordinada substantiva subjetiva, não um sujeito expresso simples). No segundo, "se estava" — o "se" também indetermina o sujeito. Portanto, não há sujeito expresso. Erro: sujeito indeterminado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Só porque, de súbitos, exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham."
O verbo "quiseram" está na 3ª pessoa do plural, mas o sujeito não está escrito — é oculto (eles, os amantes). O sujeito é identificado pela desinência e pelo contexto, mas não está expresso. Erro: sujeito oculto/desinencial.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"E ao toque brilhava o brilho da água deles."
Como já explicado, o sujeito é "o brilho da água deles", com núcleo "brilho", expresso na oração. O verbo "brilhava" é intransitivo, e o sujeito está posposto. É a única alternativa com sujeito materialmente presente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre sujeito oculto (desinencial) e sujeito expresso. Em A, o verbo "haver" impessoal atrai quem não percebe que "embriaguez" é objeto direto. Em C, o "se" indeterminado engana. Fique atento: sujeito expresso = está escrito na frase.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar sujeito expresso, localize o verbo e pergunte "quem?" ou "o quê?". Se a resposta estiver na frase, é expresso. Se só puder ser deduzida pela terminação verbal ou pelo contexto, é oculto. Se não houver como identificar, é indeterminado ou inexistente.
Conclusão: a única alternativa com sujeito expresso é a E. As demais apresentam sujeito oculto (B, D), indeterminado (C) ou inexistente (A).