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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156038
Banca
FGV
Órgão
IBGE
Ano
2026
Cargo
Ag PM ( )

Mário recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camila, ainda na poltrona, com as costas para a janela, os cotovelos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua inocência. Tudo lhe parecia preferível àquela humilhação. Daria a luz dos seus olhos, - ah, antes ela fosse cega! para que Mário a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas crianças. Compreendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dor. Colhem rosas as insensíveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras há pedras, duras como aquelas palavras do seu filho adorado. Antes ela fora surda: não as teria ouvido!


Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos... e aí estava como dele só se dizia bem! Ele amara outras pela volúpia, pelo pecado, pelo crime; ela só se desviara para um homem, depois de lutas redentoras; e porque fora arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras...


(ALMEIDA, Julia Lopes de. A Falência. São Paulo: Via Leitura, 2018.)

ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se a próxima questão.     Assinale a opção que revela a crítica presente no texto.
  1. AA maternidade como um peso nas escolhas para a mulher.
  2. BA dependência da mulher em relação ao filho, considerados os papéis sociais.
  3. CO desequilíbrio atribuído ao peso de uma traição cometida por mulheres, em relação aos homens.
  4. DO questionamento da masculinidade diante da traição.
  5. EA violência das relações parentais na sociedade brasileira.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O desequilíbrio atribuído ao peso de uma traição cometida por mulheres, em relação aos homens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crítica social no texto de Júlia Lopes de Almeida

Gabarito: letra C. A crítica presente no texto é o desequilíbrio atribuído ao peso de uma traição cometida por mulheres, em relação aos homens — a personagem Camila, ao ser julgada pelo filho por ter se desviado uma única vez, contrasta com o marido, que amara outras mulheres sem sofrer a mesma condenação. Como se lê no segundo parágrafo: "Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos... e aí estava como dele só se dizia bem!" — enquanto ela, "porque fora arrastada nessa fascinação", ouve da boca do filho "amarguras". A alternativa C é a única que capta essa assimetria de julgamento moral entre os gêneros.

O comando pede que se revele a crítica presente no texto — ou seja, exige uma inferência a partir das pistas textuais, não uma mera localização de informação explícita. A crítica não está dita diretamente; ela emerge do contraste entre a situação do marido e a da mulher. Para resolvê-la, é preciso identificar o movimento argumentativo do trecho: Camila sofre por ser julgada, enquanto o marido, que cometeu as mesmas (ou piores) transgressões, é bem visto. Essa comparação implícita é o coração da crítica.

O texto apresenta Camila em profundo sofrimento, desejando até a cegueira ou a surdez para não ver/ouvir a condenação do filho. Ela pensa: "Daria a luz dos seus olhos, - ah, antes ela fosse cega! para que Mário a julgasse pura". Em seguida, o narrador expõe o pensamento dela: o marido amou outras mulheres "pela volúpia, pelo pecado, pelo crime", e mesmo assim "dele só se dizia bem". Já ela, que "só se desviara para um homem, depois de lutas redentoras", é humilhada pelo filho. A crítica está exatamente nesse duplo padrão: o homem é perdoado, a mulher é condenada.

A técnica que decide é o contraste — uma figura de pensamento que opõe dois elementos para destacar uma diferença. Aqui, o contraste entre o marido (infiel impune) e Camila (infiel punida) revela a crítica à moral sexual desigual. As alternativas que não captam esse contraste, ou que o extrapolam, estão erradas. Teste cada uma perguntando: o texto autoriza essa leitura, ou exige acrescentar algo de fora?

Crítica central
  • 1Contraste de julgamento
    • Marido: infiel impune
    • Camila: infiel punida
  • 2Desigualdade de gênero
    • Peso da traição feminina
    • Perdão à traição masculina
  • 3Estratégia do texto
    • Inferência (não explícito)
    • Contraste como figura
  • 4Pegadinha da banca
    • Extrapolação
      • Maternidade como peso
      • Violência parental
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A maternidade como um peso nas escolhas para a mulher. O texto não discute a maternidade como um fardo que limita escolhas. Camila sofre por ser julgada pelo filho, mas a crítica não é sobre a maternidade em si, e sim sobre a injustiça do julgamento moral. A alternativa extrapola ao transformar o sofrimento materno em uma crítica genérica à maternidade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A dependência da mulher em relação ao filho, considerados os papéis sociais. O texto mostra Camila querendo ser bem vista pelo filho, mas isso não configura uma "dependência" no sentido de subordinação social. A alternativa tangencia o tema: fala de papéis sociais, mas o texto não aborda a dependência da mulher em relação ao filho como crítica central.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O desequilíbrio atribuído ao peso de uma traição cometida por mulheres, em relação aos homens. Esta é a crítica central do texto. A passagem que a sustenta é:

"Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos... e aí estava como dele só se dizia bem! Ele amara outras pela volúpia, pelo pecado, pelo crime; ela só se desviara para um homem, depois de lutas redentoras; e porque fora arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras..."

Aqui, o narrador expõe o contraste entre a impunidade do marido e a condenação da mulher. A crítica é exatamente essa desigualdade de julgamento — o peso da traição recai desproporcionalmente sobre a mulher.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O questionamento da masculinidade diante da traição. O texto não questiona a masculinidade; pelo contrário, mostra o homem sendo beneficiado pelo duplo padrão. A alternativa contradiz o texto, pois inverte o foco: a crítica não é sobre a masculinidade, mas sobre a injustiça contra a mulher.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A violência das relações parentais na sociedade brasileira. O texto não fala de "sociedade brasileira" nem de "violência parental" de forma genérica. A alternativa extrapola ao ampliar o contexto para uma crítica social ampla que não está no texto. A crítica é específica: a desigualdade de gênero no julgamento da traição.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — alternativas que parecem plausíveis (como "maternidade como peso" ou "violência parental") mas que acrescentam ideias que o texto não sustenta. A correta é a que se ancora no contraste explícito entre o tratamento dado ao homem e à mulher.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "crítica presente no texto", procure o contraste ou a oposição que o autor estabelece. A crítica quase sempre mora aí. Grife as palavras que indicam comparação ("como dele só se dizia bem" vs. "aí estava boca do filho a dizer-lhe amarguras").

Gabarito: letra C — a única que capta a crítica central do texto: o desequilíbrio moral entre a traição feminina e a masculina.

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