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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156058
Banca
FGV
Órgão
IBGE
Ano
2026
Cargo
Sup C Qual ( )

Maria

 

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?

 

A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!

 

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...

 

EVARISTO, Conceição. Olhos D’água (adaptado). Rio de Janeiro: Pallas/Fundação Biblioteca Nacional, 2016.

ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se a próxima questão.     Assinale a opção que apresenta a crítica presente no texto.
  1. AA desigualdade social e seus desdobramentos.
  2. BO descaso com a saúde pública no Brasil.
  3. CA agressão física contra a mulher, praticada pelos parceiros.
  4. DA superlotação dos transportes públicos.
  5. EA violência urbana praticada por menores.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — A desigualdade social e seus desdobramentos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crítica social em "Maria", de Conceição Evaristo

Gabarito: letra A. A crítica presente no texto é a desigualdade social e seus desdobramentos, como se comprova pela condição de Maria: empregada doméstica que espera ônibus há mais de meia hora, carrega restos de comida da patroa, não tem dinheiro para remédios dos filhos e vive uma história de abandono e privações. A passagem que ancora essa leitura é o trecho em que Maria planeja o uso da gorjeta: "Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy." — a necessidade básica de saúde e alimentação dos filhos expõe a precariedade material que atravessa toda a narrativa.

O comando pede que se assinale a crítica presente no texto, ou seja, a tese implícita que o autor constrói por meio da narrativa. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de inferir o posicionamento crítico que emerge do conjunto de situações retratadas. A resposta não está em uma frase única, mas na soma de indícios que apontam para a exclusão social de Maria e de sua família.

O texto narra o cotidiano de Maria, uma trabalhadora doméstica. Os elementos que compõem a cena são reveladores: a espera longa no ponto de ônibus, a sacola com restos da festa da patroa ("O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa"), a necessidade de comprar remédios para os filhos gripados, a lembrança do companheiro que a abandonou e a pergunta final — "Será que os meninos gostavam de melão?" — que sintetiza a distância entre o que ela pode oferecer e o que deseja. Todos esses elementos convergem para a desigualdade social como pano de fundo.

A técnica para resolver é identificar o tema central e a tese do texto. O tema é a vida de uma trabalhadora doméstica; a tese, ainda que implícita, é a crítica à desigualdade que a mantém na pobreza. As alternativas B, C, D e E apresentam desdobramentos ou situações pontuais que aparecem no texto, mas não constituem a crítica principal. Por exemplo, a menção aos filhos gripados e à necessidade de xarope (B) é um sintoma da desigualdade, não a crítica em si. O mesmo ocorre com o transporte público (D) e a violência (E), que são consequências ou contextos da exclusão social.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que são desdobramentos específicos da desigualdade (saúde, transporte, violência), mas que não são o foco central. O candidato pode se deixar levar por detalhes que aparecem na narrativa, mas que não constituem a crítica principal.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a crítica de um texto, pergunte-se: qual é o problema central que o autor denuncia? As demais opções costumam ser sintomas ou consequências desse problema.

1Tema central
Desigualdade social
Desdobramentos (saúde, transporte, abandono)
2Como se constrói
Soma de indícios
Tese implícita
3Pegadinha da banca
Alternativas = sintomas da desigualdade
Não são a crítica principal
Crítica social no texto
LEVELsoulevel.com.br
Crítica social no texto: Tema central (Desigualdade social, Desdobramentos (saúde, transporte, abandono)); Como se constrói (Soma de indícios, Tese implícita); Pegadinha da banca (Alternativas = sintomas da desigualdade, Não são a crítica principal)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A é a única que sintetiza a crítica central do texto. A desigualdade social é o pano de fundo de toda a narrativa: Maria é empregada doméstica, recebe restos de comida e uma gorjeta, não tem dinheiro para remédios e depende do transporte público. A passagem "Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa" evidencia a hierarquia social entre patroa e empregada. Além disso, a lembrança do companheiro que a abandonou e a pergunta sobre o melão reforçam a privação material e afetiva. A crítica não é a um aspecto isolado, mas à estrutura social que mantém Maria e sua família na pobreza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B afirma que a crítica é o descaso com a saúde pública. Embora o texto mencione que os filhos estão gripados e que Maria precisa comprar xarope, isso é um sintoma da desigualdade, não a crítica central. O texto não discute políticas públicas de saúde nem atribui a culpa ao sistema; a falta de dinheiro é o problema imediato. A alternativa restringe o alcance da crítica a um aspecto específico, quando o texto aborda a pobreza de forma mais ampla.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C fala em agressão física contra a mulher. O texto não menciona nenhuma agressão física; o abandono pelo companheiro é uma forma de violência emocional, mas não é o foco da crítica. A alternativa extrapola o texto, acrescentando uma informação que não está presente. A crítica central é a desigualdade social, não a violência de gênero em si.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D menciona a superlotação dos transportes públicos. O texto diz que Maria espera ônibus há mais de meia hora e que o ônibus "não estava cheio, havia lugares". A espera é um detalhe que ilustra a rotina de Maria, mas não é a crítica central. A alternativa tangencia o tema, focando em um aspecto periférico da narrativa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E fala em violência urbana praticada por menores. O texto não menciona nenhuma violência urbana nem menores infratores. A alternativa extrapola completamente o conteúdo do texto, inventando um tema que não está presente. A crítica central permanece a desigualdade social.

Conclusão: a crítica presente no texto é a desigualdade social e seus desdobramentos, como se comprova pela condição de Maria e pelos elementos que a cercam. As demais alternativas apresentam sintomas ou contextos dessa desigualdade, mas não a crítica principal. Ao resolver questões de interpretação, identifique o tema central e a tese do autor, e desconfie de alternativas que focam em detalhes periféricos.

Gabarito: letra A

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