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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FGV 2026

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
fg156061
Banca
FGV
Órgão
IBGE
Ano
2026
Cargo
Sup C Qual ( )

Maria

 

Maria estava parada há mais de meia hora no ponto de ônibus. Estava cansada de esperar. Se a distância fosse menor, teria ido a pé. Era preciso mesmo ir se acostumando com a caminhada. Os ônibus estavam aumentando tanto! Além do cansaço, a sacola estava pesada. No dia anterior, no domingo, havia tido festa na casa da patroa. Ela levava para casa os restos. O osso do pernil e as frutas que tinham enfeitado a mesa. Ganhara as frutas e uma gorjeta. O osso a patroa ia jogar fora. Estava feliz, apesar do cansaço. A gorjeta chegara numa hora boa. Os dois filhos menores estavam muito gripados. Precisava comprar xarope e aquele remedinho de desentupir o nariz. Daria para comprar também uma lata de Toddy. As frutas estavam ótimas e havia melão. As crianças nunca tinham comido melão. Será que os meninos gostavam de melão?

 

A palma de uma de suas mãos doía. Tinha sofrido um corte, bem no meio, enquanto cortava o pernil para a patroa. Que coisa! Faca-laser corta até a vida!

 

Quando o ônibus apontou lá na esquina, Maria abaixou o corpo, pegando a sacola que estava no chão entre as suas pernas. O ônibus não estava cheio, havia lugares. Ela poderia descansar um pouco, cochilar até a hora da descida. Ao entrar, um homem levantou lá de trás, do último banco, fazendo um sinal para o trocador. Passou em silêncio, pagando a passagem dele e de Maria. Ela reconheceu o homem. Quanto tempo, que saudades! Como era difícil continuar a vida sem ele. Maria sentou-se na frente. O homem assentou-se ao lado dela. Ela se lembrou do passado. Do homem deitado com ela. Da vida dos dois no barraco. Dos primeiros enjoos. Da barriga enorme que todos diziam gêmeos, e da alegria dele. Que bom! Nasceu! Era um menino! E haveria de se tornar um homem. Maria viu, sem olhar, que era o pai do seu filho. Ele continuava o mesmo. Bonito, grande, o olhar assustado não se fixando em nada e em ninguém. Sentiu uma mágoa imensa. Por que não podia ser de outra forma? Por que não podiam ser felizes? E o menino, Maria? Como vai o menino? Cochichou o homem. Sabe que sinto falta de vocês? Tenho um buraco no peito, tamanha a saudade! Tou sozinho! Não arrumei, não quis mais ninguém. Você já teve outros... outros filhos? A mulher baixou os olhos como que pedindo perdão. É. Ela teve mais dois filhos, mas não tinha ninguém também! Homens também? Eles haveriam de ter outra vida. Com eles tudo haveria de ser diferente. Maria, não te esqueci! Tá tudo aqui no buraco do peito...

 

EVARISTO, Conceição. Olhos D’água (adaptado). Rio de Janeiro: Pallas/Fundação Biblioteca Nacional, 2016.

ATENÇÃO: o texto a seguir refere-se a próxima questão.

   

Assinale a opção que indica corretamente o gênero do texto, bem como sua justificativa.

  1. AFábula, uma vez que traz uma reflexão filosófica a partir de um tema cotidiano.
  2. BBiografia, já que apresenta aspectos da vida de um personagem real.
  3. CEditorial, pois revela aspectos sociais a partir de um ponto de vista.
  4. DEnsaio, tendo em vista a predominância de um tom confessional no texto.
  5. EConto, considerando a condensação de uma história com poucos personagens.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Conto, considerando a condensação de uma história com poucos personagens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Gênero textual: conto

Gabarito: letra E. O texto de Conceição Evaristo é um conto, gênero narrativo caracterizado pela condensação de uma história com poucos personagens, como se lê na alternativa E. A justificativa está na própria estrutura do texto: há uma narrativa curta centrada em Maria, com poucos personagens (Maria, o homem, os filhos), um enredo com sequência de acontecimentos (a espera no ponto, o reencontro no ônibus) e verbos no pretérito ("estava", "havia tido", "reconheceu"), marcas típicas do texto narrativo.

O comando

A questão pede que se identifique o gênero textual e a justificativa correta. Gênero textual é a forma concreta e funcional que um texto assume em situações comunicativas (conto, crônica, editorial, biografia, etc.), diferente de tipologia textual, que classifica a estrutura interna (narração, descrição, dissertação). Aqui, a banca quer que o candidato reconheça o gênero a partir das características predominantes do texto.

O texto

O texto narra um episódio da vida de Maria: a espera no ponto de ônibus, o cansaço, a sacola com restos da festa, o reencontro com o pai de seu filho. Há personagens (Maria, o homem, os filhos), tempo (a espera, o passado), espaço (o ponto de ônibus) e enredo (a sequência de fatos até o reencontro). A presença de verbos no pretérito ("estava", "havia tido", "reconheceu", "sentou-se") e a progressão temporal são marcas inequívocas da narração. O texto é curto, com poucos personagens e um único episódio central — exatamente o que define o gênero conto.

A técnica

Para resolver, pergunte: qual é a intenção predominante do autor? O texto conta uma história (narra), não argumenta (não defende tese), não descreve (não há pausa para caracterização estática), não instrui (não dá ordens). Dentro dos gêneros narrativos, o conto se distingue por ser uma narrativa curta, com poucos personagens e um conflito central, ao contrário do romance (longo, muitos personagens) ou da crônica (relato do cotidiano com tom mais leve e próximo do jornalismo).

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta atrair o candidato com gêneros que têm um traço superficial do texto (reflexão, aspectos sociais, tom confessional), mas que não correspondem à estrutura predominante. A alternativa E é a única que nomeia o gênero correto e a justificativa adequada.

Gêneros textuais
  • 1Narrativos (contam história)
    • Conto
      • Curto
      • Poucos personagens
      • Um conflito central
    • Crônica
    • Romance
    • Fábula
      • Personagens animais
      • Moral explícita
    • Biografia
      • Vida real
      • Dados verificáveis
  • 2Dissertativos (expõem ideias)
    • Ensaio
    • Editorial
      • Opinião institucional
      • Tema atual
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Fábula é um gênero narrativo com personagens animais ou seres inanimados que transmitem uma moral explícita. O texto de Evaristo tem personagens humanos (Maria, o homem) e não apresenta moral explícita. A alternativa extrapola ao atribuir uma "reflexão filosófica" que não é o objetivo central do texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Biografia é a narração da vida de uma pessoa real, com dados verificáveis. O texto é ficcional (é um conto literário) e não tem compromisso com a veracidade dos fatos. A alternativa contradiz o texto, pois o classifica como relato real quando se trata de uma narrativa literária.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Editorial é um gênero jornalístico que expressa a opinião institucional de um veículo sobre um tema atual. O texto não é jornalístico, não defende uma tese e não tem caráter opinativo. A alternativa tangencia o tema ao mencionar "aspectos sociais", que aparecem no texto, mas não definem o gênero.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Ensaio é um texto dissertativo que expõe ideias e reflexões de forma subjetiva. O texto é narrativo, não dissertativo. O "tom confessional" mencionado é um traço do discurso indireto livre (os pensamentos de Maria aparecem sem aspas), mas isso não transforma o texto em ensaio. A alternativa troca o conceito de gênero (ensaio) por uma característica estilística (tom confessional).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conto é um gênero narrativo curto, com poucos personagens, um conflito central e desfecho. O texto de Evaristo apresenta exatamente isso: a história de Maria, com poucos personagens (Maria, o homem, os filhos), um episódio central (o reencontro no ônibus) e uma narrativa condensada. A justificativa "condensação de uma história com poucos personagens" é precisa e encontra respaldo no texto.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o gênero, pergunte: qual é a função social do texto? Contar uma história (conto, crônica, romance), opinar (editorial, artigo), informar (notícia, reportagem), instruir (manual, receita). A função predominante define o gênero.

Gabarito: letra E.

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