Questão de Português — Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem — FGV 2026
Português›Elementos da Comunicação e Funções da Linguagem
Código
fg156082
Banca
FGV
Órgão
ALERO
Ano
2026
Cargo
Ass Leg ( )
'Quer adressar?', me perguntou a moça
De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o etarismo a meu favor, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.
O cenário era a loja de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que – como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui – a ficha caiu:
“Eu posso adressar o produto?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.
A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões e – como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas – tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação – exibindo às vezes uma mesóclise de polainas – e já no parágrafo seguinte caio de boca – com o piercing no lábio inferior – no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.
A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial – e me fiz up to date:
“Sim, por favor, adressa, sim”.
(Trecho adaptado da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em “O Globo”.)
ATENÇÃO: O texto a seguir se refere à próxima questão.
Na crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, a função predominante é
Ametalinguística.
Breferencial.
Cemotiva.
Dapelativa.
Epoética.
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GabaritoA — metalinguística.
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Função predominante na crônica de Joaquim Ferreira dos Santos
Gabarito: letra A. A função predominante é a metalinguística, pois o texto usa a própria língua como tema central, refletindo sobre o uso de um estrangeirismo (“adressar”) e sobre a relação do cronista com a linguagem. Isso se comprova em passagens como “A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista” e “A ideia aqui é mexer com a língua”, em que o código (a língua portuguesa) é o objeto do discurso.
O comando: identificar a função predominante
A questão pede que você reconheça qual elemento da comunicação é posto em relevo no texto. Não se trata de uma pergunta de compreensão literal, mas de análise metalinguística: você precisa identificar a intenção comunicativa dominante do autor. Para isso, é essencial dominar as seis funções da linguagem (emotiva, referencial, apelativa, poética, fática e metalinguística) e saber que um texto pode apresentar várias, mas uma predomina.
O texto: uma crônica sobre a língua
O cronista narra um episódio em que uma vendedora usa o verbo “adressar” (em vez de “entregar” ou “enviar”) e ele, inicialmente, não entende. A partir daí, o texto não é sobre a compra em si, mas sobre a língua: o autor comenta o estrangeirismo, a mistura de registros (“A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia”), e declara explicitamente seu projeto de escrita: “A ideia aqui é mexer com a língua”. O foco não está no emissor (função emotiva), nem no receptor (apelativa), nem no assunto externo (referencial), nem na forma estética (poética), mas no próprio código — a língua portuguesa —, o que caracteriza a função metalinguística.
A técnica: o elemento em relevo decide a função
A função metalinguística ocorre quando a mensagem volta-se para o código, ou seja, quando a língua fala sobre si mesma. No texto, isso é explícito:
“A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões”
O autor não está apenas usando a língua para narrar um fato; ele está discutindo o uso da língua, comentando o estrangeirismo “adressar”, o “barbarismo ouvido na esquina” e sua própria relação com o idioma. Essa reflexão sobre o código é a marca central da metalinguagem.
Análise das alternativas
Funções da linguagem: Emotiva (Foco no emissor, Expressa sentimentos); Referencial (Foco no contexto, Linguagem objetiva); Apelativa (Foco no receptor, Persuade); Poética (Foco na forma, Valoriza recursos expressivos); Fática (Foco no canal, Mantém a comunicação); Metalinguística (Foco no código, Língua fala da língua)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A função metalinguística é a predominante porque o texto toma a língua como objeto de reflexão. O cronista não apenas relata o episódio, mas comenta o uso do verbo “adressar”, a mistura de registros e seu próprio estilo: “A ideia aqui é mexer com a língua”. A língua portuguesa é, ao mesmo tempo, o meio e o tema do texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A função referencial centra-se no contexto/assunto externo, com linguagem objetiva e informativa. Embora o texto narre um fato (a conversa na loja), o foco não está na informação objetiva sobre a compra, mas na reflexão sobre a linguagem. O texto não busca transmitir dados imparciais; ele é subjetivo e crítico em relação ao uso do idioma. Erro: troca de conceito — confunde o assunto (a compra) com o elemento em relevo (a língua).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A função emotiva centra-se no emissor, expressando sentimentos e opiniões pessoais. O texto tem marcas de subjetividade (1ª pessoa, opiniões), mas isso é coadjuvante: o autor não está desabafando sobre si, e sim discutindo a língua. A emoção aparece, mas não é o elemento que estrutura o texto. Erro: generalização — toma um traço presente (subjetividade) como se fosse o dominante.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A função apelativa (conativa) visa influenciar o receptor, com verbos no imperativo e vocativos. O texto não tenta convencer o leitor a fazer algo; não há apelo direto. A única fala com verbo no imperativo é a do cronista respondendo à vendedora (“adressa, sim”), mas isso é parte da narrativa, não a intenção do texto. Erro: fora do escopo — a função apelativa não é o objetivo do cronista.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A função poética valoriza a forma da mensagem, com uso criativo de recursos expressivos. O texto tem um estilo elaborado, com metáforas (“roçar na de Luís de Camões”, “como o tamanduá esticando a dele”), mas a forma não é o fim em si: o objetivo é falar sobre a língua, não criar um objeto estético autônomo. A poeticidade é um recurso a serviço da metalinguagem. Erro: troca de conceito — confunde estilo elaborado com função poética predominante.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre estilo elaborado (que sugere função poética) e tema sobre a língua (que define a metalinguística). O texto é bem escrito, mas o que o estrutura é a reflexão sobre o código.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a função predominante, pergunte: “qual elemento da comunicação está em destaque?”. Se o texto fala sobre a língua, é metalinguística; se fala sobre o mundo, é referencial; se foca no eu, é emotiva; se busca persuadir, é apelativa; se valoriza a forma, é poética.
Gabarito: letra A. A função metalinguística é a única que explica a intenção central do cronista: usar a língua para refletir sobre a própria língua.