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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156086
Banca
FGV
Órgão
ALERO
Ano
2026
Cargo
Ass Leg ( )

'Quer adressar?', me perguntou a moça

 

De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o etarismo a meu favor, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.

 

O cenário era a loja de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que – como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui – a ficha caiu:

 

“Eu posso adressar o produto?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.

 

A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões e – como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas – tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação – exibindo às vezes uma mesóclise de polainas – e já no parágrafo seguinte caio de boca – com o piercing no lábio inferior – no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

 

A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial – e me fiz up to date:

 

“Sim, por favor, adressa, sim”.

 

(Trecho adaptado da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em “O Globo”.)

ATENÇÃO: O texto a seguir se refere à próxima questão.

   

Assinale a frase, retirada do texto, que apresenta intertextualidade com outra frase conhecida, considerada como um ditado popular.

  1. ANada a ver com os rigores de um professor de português.
  2. B(...) pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.
  3. C(...) como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui.
  4. DO target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.
  5. EA moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.
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GabaritoD — O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Intertextualidade com ditado popular

Gabarito: letra D. A única frase que retoma um ditado popular é a D: "O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado". A expressão "meter a língua onde não se foi chamado" é uma variação do ditado popular "não meta o nariz onde não é chamado" (ou "não se meta onde não é chamado"). O texto adapta esse ditado, trocando "nariz" por "língua", o que configura intertextualidade — um diálogo com uma frase conhecida da cultura popular.

O comando pede que você identifique a frase que apresenta intertextualidade com outra frase conhecida, considerada como um ditado popular. Isso é uma questão de compreensão (localizar a informação) e de conhecimento de mundo (reconhecer o ditado). A banca não exige que você decore o ditado, mas que perceba a referência a ele.

O texto é uma crônica sobre a vendedora que usa o estrangeirismo "adressar". O autor brinca com a língua, misturando registros. No trecho da alternativa D, ele diz que seu objetivo não é "preparar o leitor para a nota mil do Enem", mas "meter a língua onde não se foi chamado". Essa última expressão é claramente uma adaptação do ditado popular "não meta o nariz onde não é chamado", que significa "não se intrometer em assunto alheio". O autor substitui "nariz" por "língua" — uma troca intencional, já que o texto fala de língua (idioma) e de "meter a língua" (falar, opinar).

A intertextualidade é o diálogo entre textos, e o ditado popular é uma frase de domínio público, de origem anônima, que expressa um conselho ou uma verdade popular. Quando um autor retoma um ditado, adaptando-o ou citando-o, ele estabelece uma intertextualidade. No caso, a adaptação é evidente: o ditado original fala em "meter o nariz", e o autor fala em "meter a língua". Essa troca é o que caracteriza a intertextualidade, pois o leitor reconhece a referência ao ditado original.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar intertextualidade com ditado popular, pergunte-se: "essa frase me lembra algum ditado conhecido?" Se sim, e se a frase do texto adapta ou cita esse ditado, há intertextualidade. Fique atento a trocas de palavras que mantêm a estrutura do ditado original.

1O que é
Diálogo entre textos
Retomada de frase conhecida
2Como identificar
Lembra um ditado?
Adapta ou cita o ditado?
3Exemplo (gabarito)
"Meter a língua onde não se foi chamado"
Origem: "não meta o nariz onde não é chamado"
Troca: nariz → língua
Intertextualidade com ditado popular
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Intertextualidade com ditado popular: O que é (Diálogo entre textos, Retomada de frase conhecida); Como identificar (Lembra um ditado?, Adapta ou cita o ditado?); Exemplo (gabarito) ("Meter a língua onde não se foi chamado", Origem: "não meta o nariz onde não é chamado", Troca: nariz → língua)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Nada a ver com os rigores de um professor de português." Essa frase não retoma nenhum ditado popular. Ela apenas expressa uma opinião do autor sobre seu estilo de escrita, sem qualquer referência a uma frase conhecida. Erro: fora do escopo — não há intertextualidade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"(...) pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse." Essa frase descreve uma ação do autor, sem qualquer referência a um ditado popular. É uma frase comum, sem intertextualidade. Erro: fora do escopo — não há intertextualidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"(...) como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui." Essa frase faz referência a uma época (tempo do orelhão), mas não a um ditado popular. É uma referência cultural, não uma intertextualidade com ditado. Erro: troca de conceito — confunde referência cultural com intertextualidade.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado." A expressão "meter a língua onde não se foi chamado" é uma adaptação do ditado popular "não meta o nariz onde não é chamado". O autor troca "nariz" por "língua", criando uma intertextualidade clara. Correta — retoma um ditado popular.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping." Essa frase descreve a intenção da vendedora, sem qualquer referência a um ditado popular. É uma observação do autor, sem intertextualidade. Erro: fora do escopo — não há intertextualidade.

Conclusão: A intertextualidade com ditado popular está presente apenas na alternativa D, que adapta o ditado "não meta o nariz onde não é chamado" para "meter a língua onde não se foi chamado". As demais alternativas não apresentam qualquer referência a ditados populares.

Gabarito: letra D

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