“Ninguém sabe. Mas tem teorias, e cada linguista acredita em uma. Sim, tem gangues de linguistas e elas brigam sobre esse assunto (a verdade não é bem assim, mas eu gosto de falar em gangues de linguistas porque faz parecer que a faculdade de Letras foi mais animada do que ela de fato era). A primeira gangue defende que a função primordial da linguagem era apelativa. O macaco queria pedir algo. “Pega ali aquela banana?”. Ou seja, a linguagem nasce na segunda pessoa: pega. Faz. Sai. Volta. Nessa teoria, o ser humano é um macaco preguiçoso. Mas outros linguistas defendem que a função primordial da língua é a expressiva. A linguagem nasce da vontade do macaco de falar o que tá sentindo. “Que vontade de comer uma banana”. Ou seja, ela nasce na primeira pessoa. Eu. Nessa teoria, o ser humano é um macaco carente. Mas outros linguistas dizem que não é uma coisa nem outra. Ela é referencial. Para eles, a fala nasce na terceira pessoa: “Eles tão brigando por causa da banana”. Nessa teoria, o ser humano é sobretudo um fofoqueiro. Ele fala porque não consegue segurar o ímpeto de comentar a vida alheia. Mas tem uma quarta teoria, que é a minha preferida. A função primordial da língua não é nem apelativa nem expressiva nem referencial: ela é fática. Fático é tudo aquilo que a gente diz só pra fazer barulho. Tudo aquilo que não significa nada além de Tô aqui. Alô. Som. Testando. Fala. Podecrer. Tamo junto. É. Ô! Ihh. Ãrrã. Complicado. É cada uma que me aparece. Não repara a bagunça. Calor, né? E esse tempo que não firma? A gente vai se falando. Pra essa gangue, a principal função da linguagem é preencher o silêncio insuportável da existência.”
(DUVIVIER, Gregório. O céu da Língua. Rio de Janeiro, Paddock, 2025.p. 23-24.)
Leia o texto a seguir: A pontuação pode servir como recurso expressivo em um texto e, mesmo sua ausência, pode manifestar intenções discursivas. Considerando isso, assinale a afirmativa em que se comenta adequadamente a presença ou a ausência de sinais de pontuação no texto de Gregório Duvivier em análise nesta questão.
AO uso de frases mais curtas marcadas pelo ponto final, nas duas primeiras linhas do texto, revela a necessidade do narrador em expor sua opinião.
BA presença dos parênteses, nas linhas 3-5, funciona como pausa na linha de raciocínio a fim de revelar um comentário do narrador.
CO uso das aspas, nas linhas 7-8, 12-13 e 16-17, ocorre para dar voz a um personagem que, nesse caso, assume o contorno de protagonista.
DA ausência de vírgulas na enumeração presente na linha 21 traduz a desimportância dada pelo narrador aos itens enumerados.
EA ausência de aspas nas frases-exemplo que aparecem entre as linhas 24 e 27 funciona como uma forma de diminuir sua importância dada a raridade de seus usos.
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GabaritoB — A presença dos parênteses, nas linhas 3-5, funciona como pausa na linha de raciocínio a fim de revelar um comentário do narrador.
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Pontuação como recurso expressivo no texto de Gregório Duvivier
Gabarito: letra B. A alternativa correta é a B, pois os parênteses, nas linhas 3-5, isolam um comentário do narrador que interrompe a linha de raciocínio principal, funcionando como uma pausa explicativa. O trecho "(a verdade não é bem assim, mas eu gosto de falar em gangues de linguistas porque faz parecer que a faculdade de Letras foi mais animada do que ela de fato era)" é um parêntese que traz uma observação pessoal do autor, desviando-se momentaneamente do assunto central para um comentário metalinguístico e bem-humorado.
O comando da questão pede que se comente adequadamente a presença ou ausência de sinais de pontuação, considerando seu valor expressivo. Isso significa que não basta identificar o sinal; é preciso avaliar se a função atribuída a ele no texto está correta. A questão mistura conhecimento de pontuação com interpretação de texto, pois cada alternativa propõe uma leitura do efeito de sentido produzido pelo uso (ou não) de um sinal.
O texto de Duvivier é uma crônica argumentativa sobre as teorias da origem da linguagem. O autor apresenta quatro "gangues" de linguistas (apelativa, expressiva, referencial e fática) e, ao final, declara sua preferência pela função fática. O tom é coloquial, irônico e bem-humorado, o que se reflete na pontuação: frases curtas, parênteses com comentários pessoais, aspas para destacar exemplos e a ausência de vírgulas em enumerações para criar um efeito de acúmulo e informalidade.
A técnica para resolver esta questão é ancorar cada alternativa no texto, verificando se a função atribuída ao sinal de pontuação corresponde ao que realmente ocorre. A pegadinha central é a extrapolação: várias alternativas atribuem intenções ou efeitos que não são sustentados pelo texto, como a ideia de que a ausência de vírgulas indica "desimportância" ou que a ausência de aspas "diminui a importância" das frases. O texto não autoriza essas leituras; elas são inferências sem base textual.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação — atribui efeitos de sentido (como "desimportância" ou "diminuição de importância") que não estão no texto. A alternativa correta é a única que descreve com precisão a função real do sinal, sem acrescentar interpretações não autorizadas.
Pontuação expressiva: Parênteses (Isolam comentário do narrador, Pausa explicativa); Aspas (Destacam exemplos de fala, Não dão voz a personagem); Frases curtas (ponto final) (Constatam fato, Não expõem opinião); Ausência de vírgulas (Efeito de acúmulo, Ritmo acelerado); Ausência de aspas (Integram exemplos ao fluxo, Não indicam raridade)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O uso de frases curtas nas duas primeiras linhas ("Ninguém sabe. Mas tem teorias, e cada linguista acredita em uma.") não revela "a necessidade do narrador em expor sua opinião". O texto apenas constata um fato (a existência de teorias) e não há, nesse trecho, uma opinião pessoal do narrador. A opinião do autor só aparece mais adiante, quando ele declara sua preferência pela função fática ("Mas tem uma quarta teoria, que é a minha preferida."). A alternativa extrapola ao atribuir uma intenção (expor opinião) que não está presente nas duas primeiras linhas.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta. Os parênteses nas linhas 3-5 isolam o comentário do narrador: "(a verdade não é bem assim, mas eu gosto de falar em gangues de linguistas porque faz parecer que a faculdade de Letras foi mais animada do que ela de fato era)". Esse trecho é uma interrupção na linha de raciocínio principal (a apresentação das teorias) para inserir uma observação pessoal e bem-humorada do autor. A função dos parênteses é exatamente essa: isolar um comentário acessório, uma pausa explicativa, sem comprometer a estrutura da frase principal. O texto confirma: o autor interrompe a explicação para fazer um comentário metalinguístico sobre sua própria escolha de palavras.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O uso das aspas nas linhas 7-8, 12-13 e 16-17 ocorre para destacar exemplos de fala ("Pega ali aquela banana?", "Que vontade de comer uma banana", "Eles tão brigando por causa da banana"), não para "dar voz a um personagem que assume o contorno de protagonista". As aspas marcam a citação de exemplos hipotéticos usados para ilustrar cada teoria, não a fala de um personagem. A alternativa extrapola ao criar a figura de um "protagonista" que não existe no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A ausência de vírgulas na enumeração da linha 21 ("Alô. Som. Testando. Fala. Podecrer. Tamo junto. É. Ô! Ihh. Ãrrã. Complicado.") não traduz "desimportância dada pelo narrador aos itens enumerados". Na verdade, a ausência de vírgulas (e o uso de pontos finais) cria um efeito de acúmulo e ritmo acelerado, reforçando a ideia de que são expressões fáticas, ditas "só pra fazer barulho". A alternativa extrapola ao atribuir um juízo de valor ("desimportância") que não está no texto. O efeito é de enumeração de exemplos, não de hierarquização de importância.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A ausência de aspas nas frases-exemplo entre as linhas 24 e 27 ("Não repara a bagunça. Calor, né? E esse tempo que não firma? A gente vai se falando.") não funciona como "forma de diminuir sua importância dada a raridade de seus usos". Essas frases são exemplos de expressões fáticas, e a ausência de aspas não indica raridade ou diminuição de importância. A alternativa extrapola ao inventar uma justificativa ("raridade de seus usos") que não tem base no texto. A ausência de aspas pode ser uma escolha estilística para integrar os exemplos ao fluxo do texto, mas o texto não fornece elementos para afirmar que isso diminui sua importância.
Conclusão: a questão exige que se avalie a função expressiva da pontuação no texto. A alternativa B é a única que descreve com precisão o efeito dos parênteses: uma pausa para um comentário do narrador. As demais alternativas extrapolam ao atribuir intenções e efeitos que não estão ancorados no texto. Ao resolver questões de pontuação com valor expressivo, pergunte-se: "o texto autoriza essa leitura?" — se a resposta exigir acrescentar algo de fora, a alternativa está errada.