Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156097
Banca
FGV
Órgão
Pref SJC
Ano
2026
Cargo
Prof II ( )
Bola de meia, bola de gude
Marcelo Barreto
Gosto de ver futebol de criança. E não estou falando dos campeonatos, que atingem faixas etárias cada vez menores — outro dia, conheci um atleta do sub-7 de um grande time do Rio. É pelada mesmo, raiz. Pode ser na rua, na praia, com bola de plástico (no meu tempo se chamava Dente de Leite) ou chinelos no lugar das traves e aquela discussão sobre chutes altos: entrou, não entrou. Passo por uma e meu olhar é hipnotizado. Os melhores momentos são os primeiros, antes de cair na armadilha da racionalização e começar a procurar o craque ou ver como os times se organizam. Segundos — minutos, às vezes — dedicados ao prazer de acompanhar o fluxo dos movimentos, sempre na direção do ataque. (...)
Parar para ver pelada de criança explica de que lado estou. Até consigo entender que há beleza na arte de se defender. Mas odeio zero a zero (e acho errado dar um ponto a cada time quando ele acontece; como pontuar sem botar a bola na rede?). Sou desses: não precisa ser de placa, eu quero ver gol. Por mim, toda bola na mão dentro da área seria pênalti e impedimentos só seriam marcados em casos extremos.
(...) A bola não entra por acaso, diz o título de um livro. Ok, mas também não pode entrar só por mérito. Treinadores e jogadores costumam atribuir os gols que sofrem a dois fatores: falta de atenção ou erro de posicionamento. Pois vivam os desatentos e os mal posicionados! (...)
(http://infoglobo.pressreader.com/o-globo/20190512 acesso em 20.10.25
Leia o texto a seguir.
A crônica de Marcelo Barreto, publicada em 2019 no jornal O Globo, constrói-se em torno da defesa de um ponto de vista.
Nesse sentido, assinale a opção em que melhor se interpreta, no contexto da crônica, a frase final que aparece no fragmento selecionado nesta questão: “Pois vivam os desatentos e os mal posicionados!”.
AA aparente contradição da frase associa-se à defesa apaixonada do chamado “futebol de criança”.
BAo comemorar a desatenção, Barreto defende o futebol amador em detrimento do profissional.
CO verbo “vivam” adquire duplo sentido, contribuindo para a defesa da opinião do cronista.
DBarreto inicia a frase com o conectivo “pois” a fim de indicar, enfaticamente, a conclusão de seu texto.
EA frase é emblemática porque valoriza os responsáveis por marcar o gol em uma partida de futebol.
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GabaritoA — A aparente contradição da frase associa-se à defesa apaixonada do chamado “futebol de criança”.
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Interpretação da frase final da crônica de Marcelo Barreto
Gabarito: letra A. A frase “Pois vivam os desatentos e os mal posicionados!” é a conclusão irônica do cronista, que celebra justamente aqueles que, por falhas técnicas, proporcionam os gols — e, com isso, o espetáculo que ele tanto aprecia. A aparente contradição (elogiar quem erra) está diretamente ligada à defesa apaixonada do “futebol de criança”, que ele descreve como puro prazer do movimento e do ataque, sem a racionalização tática do futebol profissional.
O comando pede que se interprete a frase final no contexto da crônica, ou seja, não basta ler a frase isoladamente; é preciso conectá-la à tese que o autor defende ao longo do texto. A crônica é um texto dissertativo-argumentativo em que Marcelo Barreto assume um ponto de vista: ele prefere o futebol como espetáculo, com gols, a um futebol tático e defensivo. A frase final é a culminância irônica dessa defesa.
O texto se constrói em torno de uma oposição clara: de um lado, o “futebol de criança” — a pelada raiz, o prazer de ver o fluxo dos movimentos em direção ao ataque; de outro, a racionalização do futebol profissional, que valoriza a defesa e o zero a zero. O autor declara: “Até consigo entender que há beleza na arte de se defender. Mas odeio zero a zero”. Essa é a tese central: o gol é o que importa, e tudo que favorece o gol é bem-vindo.
A frase final aparece depois de o autor criticar a explicação comum de que gols sofridos se devem a “falta de atenção ou erro de posicionamento”. Em vez de lamentar esses erros, ele os celebra: “Pois vivam os desatentos e os mal posicionados!”. A ironia está em elogiar justamente os defeitos que, no futebol profissional, são vistos como falhas a serem corrigidas, mas que, na visão do cronista, são os responsáveis por tornar o jogo mais emocionante e cheio de gols.
A alternativa A captura exatamente essa relação: a frase é uma aparente contradição (elogiar quem erra) que se explica pela defesa do futebol de criança, onde o que importa é o ataque e o gol, não a perfeição tática. As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou interpretam a frase de forma literal, ou atribuem ao cronista intenções que ele não expressa.
Frase final: "Pois vivam os desatentos e os mal posicionados!"; Contexto da crônica (Tese: gol é o espetáculo, Oposição: futebol de criança × racionalização tática); Recurso: ironia (Elogia quem erra (sofre o gol), Erros geram gols → emoção); Interpretação correta (A) (Defesa apaixonada do "futebol de criança")
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que a “aparente contradição da frase associa-se à defesa apaixonada do chamado ‘futebol de criança’”. Isso está perfeitamente ancorado no texto. O cronista abre o texto declarando: “Gosto de ver futebol de criança”, e descreve a pelada como um prazer puro, anterior à racionalização: “Os melhores momentos são os primeiros, antes de cair na armadilha da racionalização”. A frase final celebra os erros que geram gols, o que é coerente com essa defesa do futebol como espetáculo de ataque, típico do futebol de criança, em que não há a preocupação tática de não sofrer gols. A aparente contradição — elogiar quem erra — é a ironia que sustenta a tese.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz que “Barreto defende o futebol amador em detrimento do profissional”. Isso é uma extrapolação. O texto não estabelece uma oposição entre futebol amador e profissional; a oposição é entre o prazer do ataque e do gol (representado pelo futebol de criança) e a racionalização tática (que pode existir em qualquer nível). O cronista não diz que o futebol profissional é ruim, apenas critica o excesso de racionalização que leva ao zero a zero. A alternativa introduz uma dicotomia que não está no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que “o verbo ‘vivam’ adquire duplo sentido”. Isso é uma troca de conceito. No contexto, “vivam” tem sentido de “que vivam”, ou seja, uma saudação ou celebração, como em “viva!”. Não há duplo sentido (ambiguidade) no verbo; o que há é ironia na situação. A alternativa tenta transformar um recurso estilístico (a ironia) em um recurso semântico (ambiguidade), o que não se sustenta no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz que “Barreto inicia a frase com o conectivo ‘pois’ a fim de indicar, enfaticamente, a conclusão de seu texto”. Isso é uma interpretação parcial e equivocada. O “pois” aqui tem valor conclusivo, sim, mas a alternativa reduz a interpretação da frase a uma questão de conectivo, ignorando o conteúdo irônico e a defesa do futebol de criança. Além disso, o “pois” não é o elemento central da frase; o que importa é o que ele introduz: a celebração dos desatentos. A alternativa não explica o sentido da frase, apenas descreve um mecanismo sintático, o que não responde ao comando de interpretar a frase no contexto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que “a frase é emblemática porque valoriza os responsáveis por marcar o gol em uma partida de futebol”. Isso é uma contradição com o texto. A frase celebra os “desatentos e mal posicionados”, ou seja, os que sofrem o gol, não os que marcam. O cronista valoriza o gol em si, mas a frase final é uma homenagem irônica aos que, por seus erros, permitem que o gol aconteça. A alternativa inverte o referente da frase, atribuindo a ela um sentido que o texto não autoriza.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a leitura literal da frase, tentando fazer o candidato acreditar que “vivam” é um elogio aos que marcam gols (alternativa E) ou que há ambiguidade no verbo (alternativa C). A chave é perceber a ironia: o cronista elogia justamente os que erram, porque são esses erros que geram os gols que ele tanto aprecia.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, sempre relacione a frase destacada à tese central do texto. A frase final de uma crônica argumentativa quase sempre sintetiza ou ironiza o ponto de vista defendido. Pergunte-se: “o que o autor quer dizer com isso, considerando tudo o que ele defendeu antes?”.
Gabarito: letra A. A frase final é a celebração irônica dos erros que geram gols, diretamente ligada à defesa apaixonada do futebol de criança, onde o que importa é o ataque e o espetáculo, não a perfeição tática.