Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Outras Questões de Semântica — FGV 2026

PortuguêsOutras Questões de Semântica
Código
fg156104
Banca
FGV
Órgão
Pref SJC
Ano
2026
Cargo
Prof II ( )

CIDADE DE DEUS

 

Barracos de caixas de tomate, madeiras de lei, carnaúba, pinho-de-riga, caibros cobertos, em geral, por telhas de zinco ou folhas de compensados. Fogueiras servindo de fogão para fazer o mocotó, a feijoada, o cozido, o vatapá, mas, na maioria das vezes, para fazer aquele arroz de terceira grudado, angu duro ou muito ralo, aqueles carurus catados no mato, mal lavados, ou simplesmente nada. Apenas olhares carcomidos pela fome, em frente aos barracos, num desespero absoluto e que por ser absoluto é calado. Sem fogueira para esquentar ou iluminar como o sol, que se estendia por caminhos muitas vezes sem sentido algum para os que não soltavam pipas, não brincavam de pique-pega e não se escondiam num pique-esconde.

 

Os abismos têm várias faces e encantam, atraem para o seu seio como as histórias em quadrinhos que chegavam ao morro compradas nas feiras da Maia Lacerda e do Rio Comprido, baratas como a tripa de porco que sobrava na casa do compadre maneiro que nem sempre era compadre de batismo. Era apenas o adjetivo, usado como substantivo, sinônimo de uma boa amizade, de um relacionamento que era tecido por favores, empréstimos impagáveis e consideração até na hora da morte.

 

São as pessoas nesse desespero absoluto que a polícia procura, espanca com seus cassetetes possíveis e sua razão impossível, fazendo com que elas, com seus olhares carcomidos pela fome, achem plausíveis os feitos e os passos de Zé Pequeno e de sua quadrilha pelos becos que, por terem só uma entrada, se tornam becos sem saídas, e achem, também, corriqueira essa visão de meia cara na quina do último barraco de cada beco de crianças negras ou filhas de nordestinos, de peito sem proteção, pé no chão, shorts rasgados e olhar já cabreiro até para o próprio amigo, que, por sua vez, se tornava inimigo na disputa de um pedaço de sebo de boi achado no lixo e que aumentaria o volume da sopa, de um sanduíche quase perfeito nas imediações de uma lanchonete, de uma pipa voada, ou de um ganso dado numa partida de bola de gude.

(LINS, Paulo. Cidade de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.)

Leia o texto a seguir.     Por meio de um texto em que predomina a tipologia descritiva, o capítulo inicial da obra Cidade de Deus, de Paulo Lins, apresenta, ao leitor, a ambientação da famosa favela homônima ao título do livro.   Das opções a seguir, marque aquela em que se apresentam dois substantivos que, por si sós e por seu contexto de uso, contribuem para que o leitor tome contato com a precariedade do ambiente.
  1. Abarracos e becos.
  2. Bfome e pipas.
  3. Cfome e pessoas.
  4. Dbarracos e sanduíche.
  5. Esanduíche e becos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — barracos e becos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substantivos que revelam a precariedade em Cidade de Deus

Gabarito: letra A. A questão pede dois substantivos que, por si sós e por seu contexto de uso, contribuam para o leitor tomar contato com a precariedade do ambiente. A alternativa A é a única em que ambos os substantivos — "barracos" e "becos" — carregam, no próprio texto, uma carga semântica de pobreza e degradação: os barracos são descritos como feitos de "caixas de tomate" e "folhas de compensados", e os becos, por terem "só uma entrada", tornam-se "becos sem saídas", num ambiente de desespero e violência.

O comando: o que a banca pede

A questão não pergunta qual substantivo é mais frequente no texto, nem qual é o tema central. Ela pede que se identifiquem dois substantivos que, pelo seu sentido e pelo contexto em que aparecem, transmitam a ideia de precariedade. Isso é uma questão de semântica contextual: o valor expressivo de uma palavra depende do uso que o autor faz dela. A palavra "barraco", por exemplo, já tem um sentido pejorativo em relação a "casa"; mas é o contexto — "barracos de caixas de tomate" — que reforça a precariedade. O mesmo ocorre com "beco": um beco é uma passagem estreita, mas é o contexto — "becos sem saídas" — que o associa à armadilha e à exclusão.

O texto: a ambientação da precariedade

O texto de Paulo Lins é uma descrição da favela Cidade de Deus. O autor enumera elementos que constroem a imagem de um ambiente degradado: os barracos feitos de materiais improvisados, a fome, o desespero calado, a violência policial. A tese implícita é a de que a precariedade material e social gera um ciclo de violência e desesperança. Para responder à questão, é preciso localizar os substantivos que, no contexto, são os símbolos dessa precariedade.

A técnica: o valor expressivo do substantivo no contexto

A armadilha central desta questão é a extrapolação: o candidato pode escolher palavras que, isoladamente, parecem remeter à pobreza (como "fome"), mas que não são, no texto, os elementos que descrevem o ambiente de forma tão direta quanto "barracos" e "becos". A palavra "fome" é uma consequência da precariedade, não um elemento do ambiente em si. Já "barracos" e "becos" são elementos físicos do ambiente que, pelo contexto, são descritos como precários. A questão pede substantivos que "contribuam para que o leitor tome contato com a precariedade do ambiente" — ou seja, que descrevam o ambiente de forma a revelar sua precariedade.

"Barracos de caixas de tomate, madeiras de lei, carnaúba, pinho-de-riga, caibros cobertos, em geral, por telhas de zinco ou folhas de compensados."

Aqui, "barracos" é o núcleo do sintagma que descreve a habitação precária. O contexto imediato — "de caixas de tomate" — reforça a ideia de improviso e pobreza.

"fazendo com que elas, com seus olhares carcomidos pela fome, achem plausíveis os feitos e os passos de Zé Pequeno e de sua quadrilha pelos becos que, por terem só uma entrada, se tornam becos sem saídas"

Aqui, "becos" é o espaço por onde circula a quadrilha, e o contexto — "por terem só uma entrada, se tornam becos sem saídas" — os associa à armadilha, à falta de escape, à precariedade da vida na favela.

Análise das alternativas

1Descrevem o ambiente
Barracos (improvisados)
Becos (sem saída)
2Consequência/estado (não descrevem)
Fome
Pessoas
3Contraste/desejo (não descrevem)
Sanduíche
Pipas
Substantivos que revelam precariedade
LEVELsoulevel.com.br
Substantivos que revelam precariedade: Descrevem o ambiente (Barracos (improvisados), Becos (sem saída)); Consequência/estado (não descrevem) (Fome, Pessoas); Contraste/desejo (não descrevem) (Sanduíche, Pipas)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Barracos" e "becos" são os dois substantivos que, por si sós e por seu contexto de uso, melhor transmitem a precariedade do ambiente. O texto descreve os barracos como construções improvisadas e os becos como espaços sem saída, ambos símbolos da exclusão e da pobreza. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Fome" e "pipas". A "fome" é uma consequência da precariedade, mas não é um elemento do ambiente em si; é um estado das pessoas. Já "pipas" é um elemento de lazer infantil, que aparece no texto como algo que as crianças não fazem: "não soltavam pipas". A alternativa tangencia o tema, mas não apresenta dois substantivos que descrevam o ambiente precário.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Fome" e "pessoas". A "fome" é um estado, e "pessoas" é um termo genérico que não descreve o ambiente. A alternativa extrapola ao considerar que qualquer palavra associada à pobreza serve, mas o comando pede substantivos que descrevam o ambiente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Barracos" e "sanduíche". "Barracos" é correto, mas "sanduíche" aparece no texto como um elemento de desejo, não de descrição do ambiente: "um sanduíche quase perfeito nas imediações de uma lanchonete". O sanduíche é um objeto de desejo, não um elemento que descreve a precariedade. A alternativa é incompleta e tangencia o tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Sanduíche" e "becos". "Becos" é correto, mas "sanduíche" não descreve o ambiente precário; é um objeto de desejo. A alternativa troca o conceito: o sanduíche é um elemento de contraste (o que falta), não de descrição do ambiente.

Conclusão

A questão exige que se identifiquem os substantivos que descrevem o ambiente de forma a revelar sua precariedade. "Barracos" e "becos" são os únicos que, no contexto, cumprem esse papel. As demais alternativas ou usam palavras que são consequências da precariedade (fome), ou elementos de contraste (sanduíche, pipas), ou termos genéricos (pessoas).

PEGA ESSA DICA!

Ao responder questões sobre o valor expressivo de palavras, pergunte-se: "essa palavra descreve o ambiente/tema, ou é uma consequência dele?" Substantivos que descrevem o ambiente são mais diretos do que aqueles que expressam estados ou desejos.

Gabarito: letra A

Link permanente: /questoes/fg156104