Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156105
Banca
FGV
Órgão
Pref SJC
Ano
2026
Cargo
Prof II ( )
“Nós nunca mentimos. Quando mentimos, é para o bem de vocês. Verdade. Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho. Se fôssemos sinceros e disséssemos que não tínhamos feito a lição de casa e por isso não podíamos enfrentar a professora a mãe teria uma grande decepção. Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter. Melhor um doente do que um vagabundo. E se ela não acreditasse, e nos mandasse ir à escola de qualquer jeito, ainda tínhamos um trunfo sentimental. “Então vou ter que inventar uma história para a professora”, querendo dizer vou ter que mentir para outra mulher como se ela fosse você. “Está bem, fica em casa estudando!” E ficávamos em casa, fazendo tudo menos estudar, dando-lhe todas as razões para dizer que não nos aguentava mais, que é outra coisa que mãe também adora.”
(VERÍSSIMO, Luís Fernando. As mentiras que os homens contam. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015)
Leia o trecho inicial do prefácio do livro “As mentiras que os homens contam”, de Luís Fernando Veríssimo:
Quanto aos elementos apresentados no prefácio do livro para justificar as razões pelas quais os homens mentem, Veríssimo parece querer defender que, para os homens, a mentira é uma condição que está relacionada às regras sociais de modo
Asubjetivo.
Bnatural.
Copressor.
Dcovarde.
Efacultativo.
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GabaritoB — natural.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A mentira como condição natural nas regras sociais
Gabarito: letra B. Veríssimo defende que, para os homens, a mentira é uma condição natural, pois está relacionada às regras sociais — ou seja, é um comportamento tão incorporado ao convívio que se torna automático, quase instintivo. O texto sustenta isso ao apresentar a mentira como algo que se aprende desde a infância e se pratica sem culpa, como se fosse a única saída possível diante das expectativas sociais. A passagem decisiva é:
"Começa na infância, quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha, bem aqui, e não pode ir à aula sob pena de morrer no caminho."
Aqui, a mentira não é apresentada como uma escolha consciente e excepcional, mas como um reflexo condicionado — algo que "começa na infância" e se repete como padrão. O autor não diz que os homens mentem porque são covardes, nem porque são oprimidos, nem porque é facultativo; ele mostra a mentira como um comportamento naturalizado pelas regras sociais, que ensinam desde cedo que a verdade pode ser inconveniente.
O comando: interpretação, não compreensão
O enunciado pede que se identifique a tese do autor: "Veríssimo parece querer defender que, para os homens, a mentira é uma condição que está relacionada às regras sociais de modo...". Isso é uma questão de interpretação — não se trata de localizar uma informação explícita, mas de inferir a posição do autor a partir das pistas do texto. A palavra-chave é "parece querer defender", que sinaliza que devemos captar a intenção argumentativa do cronista.
O texto: a ironia como disfarce da tese
O texto é um prefácio irônico. Veríssimo finge justificar as mentiras masculinas com argumentos "nobres" — poupar a mãe, evitar decepção — mas o tom irônico revela que ele está, na verdade, criticando essa naturalização. A ironia está em frases como:
"Assim, lhe dávamos a alegria de se preocupar conosco, que é a coisa que mãe mais gosta, e a poupávamos de descobrir a nossa falta de caráter."
O autor chama a mentira de "falta de caráter" — mas logo em seguida a apresenta como algo que se faz "para o bem" da mãe. Essa contradição aparente é a chave: a mentira é tão naturalizada que até a "falta de caráter" é justificada como um gesto de amor. A tese, portanto, é que a mentira é uma condição natural imposta pelas regras sociais — não uma escolha livre, nem uma fraqueza moral, mas um comportamento que a sociedade torna automático.
A técnica: distinguir "natural" de "facultativo" e "opressor"
A alternativa correta é B (natural) porque o texto mostra a mentira como algo que não é uma escolha consciente — ela "começa na infância" e se repete como um reflexo. As demais alternativas falham por diferentes razões:
A (subjetivo): a mentira não é apresentada como algo que depende da opinião ou sentimento individual; ela é uma resposta a uma regra social objetiva.
C (opressor): o texto não diz que os homens são oprimidos pelas regras sociais; ao contrário, eles usam a mentira para se adaptar a elas.
D (covarde): o autor não julga a mentira como covardia; ele a apresenta como um comportamento naturalizado, sem condenação moral explícita.
E (facultativo): a mentira não é opcional; o texto mostra que ela é obrigatória diante das regras sociais — "se fôssemos sinceros... a mãe teria uma grande decepção".
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: troca de conceito. A alternativa diz que a mentira é "subjetiva", ou seja, dependeria da interpretação pessoal de cada um. Mas o texto mostra a mentira como uma resposta padronizada às regras sociais: "Começa na infância" — não é uma escolha individual, mas um comportamento aprendido e repetido. A subjetividade implicaria uma decisão pessoal, o que o texto não sustenta.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa correta. O texto apresenta a mentira como algo natural, que "começa na infância" e se torna um reflexo automático diante das regras sociais. A passagem "quando a gente diz para a mãe que está sentindo uma coisa estranha" mostra que a mentira é tão comum que nem é percebida como mentira — é apenas a forma natural de lidar com a expectativa materna. A tese do autor é exatamente essa: a mentira é uma condição natural imposta pelas regras sociais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. A alternativa sugere que a mentira é "opressora", ou seja, que as regras sociais oprimem os homens. Mas o texto não diz isso. Pelo contrário, os homens usam a mentira para se adaptar às regras, não para se libertar delas. Não há nenhuma passagem que indique opressão; há apenas a descrição de um comportamento naturalizado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: opinião embutida. A alternativa atribui ao autor um juízo de valor — que a mentira é "covarde" — que ele não externa. O texto não condena a mentira como covardia; ele a apresenta com ironia, mas sem julgamento moral explícito. A palavra "covarde" é uma interpretação pessoal do candidato, não uma ideia do texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. A alternativa diz que a mentira é "facultativa", ou seja, que os homens podem escolher mentir ou não. Mas o texto mostra o contrário: a mentira é obrigatória diante das regras sociais. A passagem "se fôssemos sinceros... a mãe teria uma grande decepção" indica que a sinceridade não é uma opção viável — a mentira é a única saída natural.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta atrair o candidato para "facultativo" (E), pois parece lógico que mentir é uma escolha. Mas o texto mostra que a mentira é naturalizada — não é uma escolha, é um reflexo social.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de interpretação, pergunte-se: "o texto autoriza esta alternativa, ou exige acrescentar algo de fora?". A alternativa correta é a única que se sustenta inteiramente no texto, sem extrapolação.