Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FGV 2026
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Código
fg156108
Banca
FGV
Órgão
Pref SJC
Ano
2026
Cargo
Prof II ( )
A pesca do dourado
“Quando chegamos na barranca do Mogi, andadas oito léguas de cabriolante forde, era madrugada franca. O rio fumava no inverninho delicioso. Vento, nada. E a névoa do rio meio que arroxeava, guardando na brancura as cores do sol futuro.
Estivemos por ali, esquentando no foguinho caipira que é o cobertor da nossa gente. Estivemos por ali, esfregando as mãos, tomando café, preparando as varas. Eu, como não tinha esperança mesmo de pescar nenhum dourado, fui pescar iscas no ceveiro. Nove bastavam, me falaram.
E a rodada principiou.”
Há um conjunto de características da linguagem empregada nesse texto.
Observe com atenção o início de uma crônica de Mário de Andrade. Assinale a característica apontada que mostra um exemplo adequado.
AEmprego incoerente de forma diminutivas: “o rio fumava no inverninho delicioso.”
BDesrespeito à norma culta da língua portuguesa: “Quando chegamos na barranca do Mogi”.
CUtilização equivocada da pontuação: “Vento, nada”.
DOrdem inadequada de frases: “Nova bastavam, me falaram.”
EUso exclusivo da linguagem lógica: “esquentando no foguinho caipira que é o cobertor da nossa gente”.
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GabaritoB — Desrespeito à norma culta da língua portuguesa: “Quando chegamos na barranca do Mogi”.
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A pesca do dourado — norma culta e linguagem literária
Gabarito: letra B. A alternativa correta é a B, pois o trecho “Quando chegamos na barranca do Mogi” apresenta um desvio da norma culta — o verbo “chegar”, no sentido de atingir um lugar, rege a preposição “a” (chegar a algum lugar), e não “em”. A forma culta seria “Quando chegamos à barranca do Mogi”. Essa é a única alternativa que aponta, com exemplo adequado, uma característica realmente presente no texto.
O comando pede que você identifique, entre as características listadas, aquela que mostra um exemplo adequado — ou seja, a alternativa em que a afirmação sobre a linguagem do texto é verdadeira e o exemplo citado comprova essa afirmação. Não se trata de interpretar o sentido do texto, mas de analisar a linguagem empregada pelo autor, reconhecendo um fenômeno linguístico (desvio de regência, uso de diminutivo, pontuação, ordem das palavras, linguagem figurada) e verificando se o exemplo dado realmente o ilustra.
O texto é uma crônica de Mário de Andrade, marcada por uma linguagem coloquial e literária, com marcas de oralidade e expressões regionais. O autor não busca a norma culta rígida, mas sim uma expressão viva e próxima da fala popular. É nesse contexto que devemos avaliar cada alternativa: o que é um desvio da norma culta, o que é um recurso expressivo intencional e o que é um erro de análise.
A técnica para resolver é simples: teste cada alternativa perguntando se o exemplo citado realmente corresponde à característica apontada. A alternativa B é a única em que a característica (desrespeito à norma culta) é real e o exemplo (chegar na barranca) é um caso clássico de regência verbal inadequada segundo a norma padrão. As demais alternativas ou apontam características que não existem no texto, ou citam exemplos que não as comprovam.
Linguagem do texto
1Recurso expressivo (intencional)
Diminutivo afetivo ("inverninho")
Vírgula estilística ("Vento, nada")
Inversão ("Nove bastavam, me falaram")
Metáfora ("foguinho caipira... cobertor")
2Desvio da norma culta
Regência: "chegar na" → "chegar à"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que há “emprego incoerente de formas diminutivas” no trecho “o rio fumava no inverninho delicioso”. O erro está em chamar o uso de “inverninho” de incoerente. O diminutivo aqui tem valor afetivo e expressivo, típico da linguagem literária e coloquial, e não há incoerência alguma: o autor usa o diminutivo para transmitir a ideia de um frio suave, agradável, típico do inverno na região. O emprego é coerente com o tom do texto. A alternativa extrapola ao atribuir um defeito (incoerência) a um recurso expressivo intencional.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa aponta “desrespeito à norma culta da língua portuguesa” e cita o trecho “Quando chegamos na barranca do Mogi”. O exemplo é perfeito: o verbo “chegar” exige a preposição “a” quando indica destino, e não a preposição “em”. A forma culta seria “chegamos à barranca”. O uso de “na” (em + a) é um desvio de regência muito comum na fala coloquial, e o texto de Mário de Andrade, propositalmente, registra essa linguagem popular. A característica apontada é real e o exemplo a comprova.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que há “utilização equivocada da pontuação” no trecho “Vento, nada”. O erro está em chamar a pontuação de equivocada. A vírgula em “Vento, nada” é um recurso estilístico que cria uma pausa expressiva, enfatizando a ausência de vento. Não há erro de pontuação; há um uso intencional e expressivo da vírgula, comum na literatura. A alternativa contradiz o texto ao tratar como erro o que é um recurso de estilo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que há “ordem inadequada de frases” no trecho “Nove bastavam, me falaram”. O erro está em chamar a ordem de inadequada. A ordem “Nove bastavam, me falaram” é uma inversão estilística (o objeto “nove” foi anteposto ao verbo “bastavam”, e a oração “me falaram” foi posposta), recurso comum na língua falada e na literatura para dar ênfase. Não há inadequação; há uma ordem expressiva. A alternativa extrapola ao tratar como erro o que é um recurso de estilo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que há “uso exclusivo da linguagem lógica” no trecho “esquentando no foguinho caipira que é o cobertor da nossa gente”. O erro é duplo. Primeiro, o trecho é um exemplo de linguagem figurada (metáfora: o fogo é comparado a um cobertor), e não de linguagem lógica. Segundo, a palavra “exclusivo” é um absoluto que não se sustenta: o texto não usa exclusivamente linguagem lógica, muito pelo contrário. A alternativa contradiz o texto ao chamar de lógico o que é claramente figurado e restringe indevidamente o alcance com o termo “exclusivo”.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre recurso expressivo (diminutivo afetivo, vírgula estilística, inversão, metáfora) e erro de linguagem. A única alternativa que aponta um verdadeiro desvio da norma culta é a B, com o clássico caso de regência do verbo “chegar”.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar a linguagem de um texto literário, desconfie de alternativas que chamam de “erro” ou “inadequação” o que pode ser um recurso expressivo intencional. Verifique sempre se o exemplo citado realmente comprova a característica apontada.