Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FGV 2026

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
fg156152
Banca
FGV
Órgão
TJ SC
Ano
2026
Cargo
Ana ( )

Vendo-a comer, não entendo os motivos de termos nos separado, agora é tudo tão nebuloso que me perco buscando razões, só que não teve razão alguma. Na época, parecia a coisa certa a fazer... Pergunto a ela o que fiz conosco. Ela larga os talheres no prato. Faz barulho. Atingi algum limite. Me encara por um momento escolhendo as palavras, enquanto passa a língua sob o lábio, tirando alguma coisa dos dentes agora perfeitos, corrigidos pelo aparelho, que não está mais lá, dá uma tragada no cigarro, que morria equilibrado no tampo da mesa, e o recoloca no mesmo lugar com o mesmo cuidado… quase caindo, desafiando os limites, desafiando o equilíbrio - eu sou aquela quase-guimba de cigarro que quase apagava.

SIQUEIRA, Mauro. Pequenas colisões. Rio de Janeiro: Bando, 2025. p.177.

Leia o texto a seguir.     No fragmento apresentado, observa-se a presença de diferentes tipologias textuais articuladas na construção do sentido.   Considerando essa relação, assinale a afirmativa que analisa corretamente o papel do potencial descritivo no texto.
  1. AO texto apresenta predomínio descritivo, com foco na caracterização da personagem, em detrimento do desenvolvimento das ações e da reflexão do narrador.
  2. BO potencial descritivo manifesta-se na caracterização de estados emocionais, assumindo papel central na construção do texto em relação à narração dos acontecimentos.
  3. CA descrição aparece em momentos específicos do texto, produzindo pausas na sequência narrativa e direcionando a atenção para aspectos pontuais da cena.
  4. DO texto apresenta predominância narrativa, mas incorpora sequências descritivas que contribuem para a construção da subjetividade do narrador.
  5. EA descrição acompanha a progressão do texto, conferindo detalhamento às cenas, sem se relacionar diretamente com o conflito central apresentado.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — O texto apresenta predominância narrativa, mas incorpora sequências descritivas que contribuem para a construção da subjetividade do narrador.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tipologia textual: narração e descrição articuladas

Gabarito: letra D. O fragmento tem predominância narrativa — narra-se uma cena de reencontro, com ações e reflexões do narrador —, mas incorpora sequências descritivas que constroem a subjetividade, como se vê na passagem final: "eu sou aquela quase-guimba de cigarro que quase apagava". A descrição aqui não é mero detalhe: ela projeta o estado emocional do narrador sobre o objeto descrito.

O comando

A questão pede que você analise o papel do potencial descritivo no texto, considerando a articulação entre tipologias. Não se trata de identificar qual tipo predomina em abstrato, mas de avaliar a função que a descrição exerce dentro da narrativa. O verbo "analisa" indica que a resposta exige interpretação do efeito de sentido, não apenas reconhecimento de marcas textuais.

O texto

O fragmento é um trecho de narrativa em primeira pessoa: o narrador observa a ex-personagem comer, relembra a separação e descreve seus gestos. A tese (se é que cabe o termo) é a perplexidade do narrador diante do fim da relação. Os argumentos são as ações e reações da personagem — largar os talheres, encará-lo, acender o cigarro. A descrição aparece em detalhes como "passa a língua sob o lábio", "dentes agora perfeitos, corrigidos pelo aparelho" e "cigarro, que morria equilibrado no tampo da mesa". Esses trechos não apenas caracterizam a cena: eles carregam a subjetividade do narrador, que se identifica com o cigarro prestes a apagar.

A técnica que decide

A tipologia textual é definida pela intenção predominante do autor, não pela forma isolada. O texto é narrativo porque há progressão temporal e ações: "Ela larga os talheres no prato", "Me encara por um momento", "dá uma tragada no cigarro". A descrição surge como pausa para caracterizar a cena e os gestos, mas sua função é subjetiva: o narrador projeta seu estado emocional nos objetos descritos. A alternativa D capta exatamente essa articulação: predominância narrativa + sequências descritivas a serviço da subjetividade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta atrair o candidato para a alternativa C, que parece correta ao dizer que a descrição "produz pausas na sequência narrativa". Mas ela restringe o papel da descrição a um mero detalhamento pontual, ignorando sua função central de construir a subjetividade do narrador — que é o que a letra D afirma.

1Narração
Progressão temporal
Ações encadeadas
Reflexão do narrador
2Descrição
Pausa na narrativa
Caracterização da cena
Projeção da subjetividade
3Articulação
Predomínio narrativo
Descrição a serviço da subjetividade
Tipologias textuais
LEVELsoulevel.com.br
Tipologias textuais: Narração (Progressão temporal, Ações encadeadas, Reflexão do narrador); Descrição (Pausa na narrativa, Caracterização da cena, Projeção da subjetividade); Articulação (Predomínio narrativo, Descrição a serviço da subjetividade)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que há predomínio descritivo e que a caracterização da personagem se dá em detrimento das ações e da reflexão. O texto, porém, é claramente narrativo: há ações encadeadas ("Ela larga os talheres", "Me encara", "dá uma tragada") e reflexão do narrador ("não entendo os motivos de termos nos separado"). A descrição é subsidiária, não predominante. Erro: contradiz o texto — inverte a hierarquia entre narração e descrição.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Diz que o potencial descritivo se manifesta na caracterização de estados emocionais e assume papel central em relação à narração. Embora a descrição tenha carga subjetiva, ela não é central: o texto é narrado em primeira pessoa com foco nas ações e na reflexão. A descrição serve à narrativa, não a substitui. Erro: generalização — superestima o papel da descrição, transformando-a em elemento principal quando ela é coadjuvante.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que a descrição aparece em momentos específicos, produzindo pausas e direcionando a atenção para aspectos pontuais. Isso é parcialmente verdadeiro, mas incompleto: a descrição não é apenas um detalhe pontual; ela constrói a subjetividade do narrador, como na metáfora final "eu sou aquela quase-guimba de cigarro que quase apagava". A alternativa ignora essa função subjetiva, reduzindo a descrição a um recurso de pausa. Erro: afirmação incompleta — capta um aspecto, mas omite o essencial.

Alternativa D — ✅ Correta

Esta é a única que capta a articulação correta: o texto tem predominância narrativa (ações e reflexão do narrador) e incorpora sequências descritivas que contribuem para a construção da subjetividade. A passagem final prova isso:

"eu sou aquela quase-guimba de cigarro que quase apagava"

O narrador se identifica com o cigarro prestes a apagar — a descrição do cigarro é, na verdade, uma projeção do seu estado emocional. A descrição não é mero detalhe; ela materializa a subjetividade do narrador. Correta: sustentada integralmente pelo texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Diz que a descrição acompanha a progressão do texto, conferindo detalhamento, sem se relacionar diretamente com o conflito central. Isso é falso: a descrição do cigarro está diretamente ligada ao conflito emocional do narrador — a separação e a sensação de estar "quase apagando". A descrição não é neutra; ela expressa o conflito. Erro: contradiz o texto — nega a relação entre descrição e conflito que o texto estabelece.

Conclusão: a chave da questão é perceber que a descrição, embora apareça em trechos pontuais, tem função subjetiva — ela projeta o estado emocional do narrador. A letra D é a única que reconhece tanto a predominância narrativa quanto o papel subjetivo da descrição. Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/fg156152