Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FGV 2026
Português›Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fg156155
Banca
FGV
Órgão
TJ SC
Ano
2026
Cargo
Ana ( )
Sentimento que não espairo; pois eu mesmo nem acerto com o mote disso ― o que queria e o que não queria, estória sem final. O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre no meio da tristeza! Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito ― por coragem. Será? Era o que eu às vezes achava. Ao clarear do dia.
ROSA, João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. São Paulo: Cia das Letras. 2019. p. 293.
Leia o fragmento de texto a seguir. No fragmento apresentado, o uso de diferentes sinais de pontuação contribui para a construção de sentidos e para a expressão da subjetividade do narrador. Considerando esse aspecto, assinale a afirmativa que analisa corretamente o papel desses recursos no texto.
AO uso do ponto e vírgula estabelece relações de subordinação entre as orações, organizando o texto de forma hierarquizada.
BOs dois-pontos introduzem explicações e enumerações, contribuindo para o encadeamento reflexivo das ideias do narrador.
CO travessão é empregado para indicar mudança de interlocutor, caracterizando o texto como diálogo direto.
DOs pontos finais fragmentam o texto em períodos independentes, sem relação com o ritmo ou com a construção de sentido.
EO ponto de interrogação é utilizado para organizar sintaticamente o texto, sem interferir na expressividade da linguagem.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoB — Os dois-pontos introduzem explicações e enumerações, contribuindo para o encadeamento reflexivo das ideias do narrador.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Pontuação e subjetividade no fragmento de Grande Sertão: Veredas
Gabarito: letra B. A alternativa correta é a B, pois os dois-pontos, no fragmento, introduzem uma explicação e uma enumeração que dão continuidade ao fluxo reflexivo do narrador. Como se lê no trecho:
"O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta."
Os dois-pontos anunciam o esclarecimento da afirmação anterior ("a vida é assim"), enumerando as alternâncias que caracterizam a vida. Esse recurso é típico do discurso reflexivo e subjetivo de Riobaldo, que busca traduzir, em ritmo e pausas, o movimento contraditório da existência.
O comando da questão
O enunciado pede que se analise o papel dos sinais de pontuação na construção de sentidos e na expressão da subjetividade do narrador. Não se trata de uma questão de gramática pura (decorar regras), mas de interpretação do efeito de sentido que a pontuação produz no texto. A banca quer que o candidato relacione cada sinal à sua função no contexto específico do fragmento, e não apenas à regra geral isolada.
O texto e o movimento argumentativo
O fragmento é uma reflexão existencial de Riobaldo, narrador de Grande Sertão: Veredas. O tema é a imprevisibilidade da vida e a necessidade de coragem para enfrentá-la. O movimento do texto é circular: o narrador parte de uma constatação ("O correr da vida embrulha tudo"), desenvolve-a com exemplos rítmicos ("esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa..."), e conclui com uma indagação filosófica ("Será?"). A pontuação acompanha esse fluxo: os dois-pontos abrem a explicação; as vírgulas criam o ritmo binário das oposições; o travessão isola uma reflexão intercalada; o ponto de interrogação encerra com a dúvida. Tudo isso materializa a subjetividade do narrador, que pensa em voz alta, hesita, se corrige.
A técnica que decide a questão
A chave é saber a função discursiva de cada sinal, testando-a no texto:
Dois-pontos: introduzem explicação, enumeração, citação ou fala. No fragmento, introduzem a explicação/enumeração do que é "a vida assim".
Ponto e vírgula: separa orações coordenadas, especialmente as longas ou que já contêm vírgulas. No texto, não há ponto e vírgula — há apenas vírgulas e ponto final.
Travessão: pode indicar mudança de interlocutor (em diálogos) ou isolar termos intercalados. No fragmento, o travessão isola a expressão "de propósito", um adjunto adverbial deslocado, e não marca diálogo.
Ponto final: encerra períodos, mas não os torna "independentes" no sentido de romper a coesão; ao contrário, contribui para o ritmo e para a construção do sentido.
Ponto de interrogação: indica pergunta direta e, no texto, expressa a dúvida existencial do narrador — é altamente expressivo, não mero organizador sintático.
Análise das alternativas
Pontuação no fragmento: Dois-pontos (Introduzem explicação/enumeração, Encadeamento reflexivo); Vírgulas (Ritmo binário das oposições); Travessão (Isola expressão intercalada, Não marca diálogo); Ponto final (Organiza o ritmo, Não rompe a coesão); Ponto de interrogação (Expressa dúvida existencial, Não é mero organizador sintático)
Alternativa A — ❌ Incorreta
"O uso do ponto e vírgula estabelece relações de subordinação entre as orações, organizando o texto de forma hierarquizada."
Erro: contradiz o texto e a gramática. No fragmento não há ponto e vírgula. Além disso, o ponto e vírgula, quando usado, separa orações coordenadas (relação de coordenação, não de subordinação). A alternativa atribui ao sinal uma função que ele não exerce nem no texto nem na norma culta.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Os dois-pontos introduzem explicações e enumerações, contribuindo para o encadeamento reflexivo das ideias do narrador."
Correta. No trecho "a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta", os dois-pontos anunciam a explicação da expressão "a vida é assim" e enumeram as oposições que a definem. Esse encadeamento é reflexivo: o narrador pensa em voz alta, organizando suas ideias por meio da pontuação. A alternativa capta exatamente o efeito de sentido.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"O travessão é empregado para indicar mudança de interlocutor, caracterizando o texto como diálogo direto."
Erro: contradiz o texto. O travessão no fragmento aparece em "de propósito ― por coragem", isolando uma expressão intercalada (função de destaque/isolamento), e não marca mudança de interlocutor. O texto é um monólogo interior, não um diálogo. A alternativa confunde as duas funções do travessão.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Os pontos finais fragmentam o texto em períodos independentes, sem relação com o ritmo ou com a construção de sentido."
Erro: contradiz o texto. Os pontos finais não tornam os períodos "independentes" no sentido de romper a coesão; ao contrário, eles organizam o ritmo e contribuem para a construção do sentido. O fragmento é coeso: cada período dá continuidade ao pensamento do narrador. A alternativa nega exatamente o que o texto demonstra.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"O ponto de interrogação é utilizado para organizar sintaticamente o texto, sem interferir na expressividade da linguagem."
Erro: contradiz o texto. O ponto de interrogação em "Será?" é altamente expressivo: materializa a dúvida existencial do narrador, fechando a reflexão com uma pergunta retórica. Não é um mero organizador sintático; é um recurso de subjetividade. A alternativa inverte o papel do sinal.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a função normativa dos sinais (regra geral) e a função discursiva no texto. A alternativa C, por exemplo, usa a regra do travessão em diálogo, mas o texto não é um diálogo. A alternativa E nega a expressividade do ponto de interrogação, que é justamente o seu papel aqui.
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de pontuação em texto, localize cada sinal no fragmento e pergunte: "que efeito ele produz aqui?". Não responda pela regra decorada; responda pelo efeito de sentido que o sinal cria no contexto.
Conclusão: a pontuação, no fragmento, é um recurso expressivo que traduz o fluxo de consciência do narrador. Os dois-pontos abrem a explicação/enumeração; as vírgulas criam o ritmo binário; o travessão isola uma reflexão; o ponto de interrogação encerra com dúvida. A única alternativa que analisa corretamente esse papel é a B.