Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg156157
Banca
FGV
Órgão
TJ SC
Ano
2026
Cargo
Ana ( )
Anoitece.
Seis pessoas: três adultos, três crianças. Os adultos: faixa dos vinte anos. As crianças: a mais nova com menos de seis meses, o mais velho com pouco mais de três anos. Pai, mãe, tio, duas meninas, um menino.
O dia: 18. O mês: maio. O ano: 1927. O local: cais do porto da Praça Mauá. O estado: Rio de Janeiro. O país: Brasil.
Muitos anos depois, já bem velho, o pai gostava de rememorar, de repetir insistindo: a primeira palavra que aprendi em português, que me foi diretamente dirigida, que gravei: luz. Nur.
Cala. Pensa. Concentra-se. Se esforça. Se perde para se achar. Ativada, a memória recua. Busca resgatar o passado. Retirá-lo do mais fundo do tempo. Devassar o escuro abismo. Tornar hoje o ontem.
MIGUEL, Salim. Nur na escuridão [recurso eletrônico]. Florianópolis: Editora da UFSC, 2025, p. 15-16.
Leia, a seguir, o trecho inicial do conto “Luz”, do escritor Salim Miguel. Nesse trecho do conto, observa-se uma construção textual marcada por frases curtas e estruturas fragmentadas. Considerando esse aspecto, assinale a afirmativa que analisa corretamente o efeito de sentido produzido por essa escolha estilística.
AA fragmentação mostra que o narrador tem dificuldade para organizar suas ideias.
BAs frases curtas fazem o texto parecer técnico, como se apresentasse dados objetivos.
CA repetição de estruturas torna o texto cansativo e sem progressão.
DA construção em frases curtas reduz a presença de sentimentos no texto.
EA fragmentação cria ritmo mais lento, capaz de representar as lembranças do narrador.
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GabaritoE — A fragmentação cria ritmo mais lento, capaz de representar as lembranças do narrador.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Efeito de sentido das frases curtas no conto "Luz"
Gabarito: letra E. A fragmentação em frases curtas cria um ritmo mais lento, que representa as lembranças do narrador — como se lê no trecho final: "Ativada, a memória recua. Busca resgatar o passado. Retirá-lo do mais fundo do tempo. Devassar o escuro abismo. Tornar hoje o ontem." A alternativa E é a única que ancora o efeito estilístico no conteúdo do texto (a memória), enquanto as demais ou extrapolam, ou contradizem o que está escrito.
O comando
A questão pede que você analise o efeito de sentido produzido pela escolha estilística (frases curtas e estruturas fragmentadas). Isso é uma questão de interpretação — não basta localizar uma informação explícita; é preciso deduzir o que a forma do texto comunica. O comando já entrega a pista: "construção textual marcada por frases curtas e estruturas fragmentadas". Seu trabalho é ver o que essa forma faz com o sentido.
O texto
O trecho narra a chegada de uma família ao Brasil, em 1927, e a lembrança do pai, já velho, da primeira palavra em português: "luz". O texto alterna dados objetivos (data, local, pessoas) com fragmentos subjetivos — a memória, o esforço de recordar. O último parágrafo é decisivo:
"Cala. Pensa. Concentra-se. Se esforça. Se perde para se achar. Ativada, a memória recua. Busca resgatar o passado. Retirá-lo do mais fundo do tempo. Devassar o escuro abismo. Tornar hoje o ontem."
Aqui, as frases curtas mimetizam o processo de recordar: cada frase é um passo, um esforço, um movimento lento e gradual da memória. O ritmo não é acelerado — é pausado, reflexivo, como quem cava o passado. É exatamente isso que a alternativa E captura.
A técnica que decide
A armadilha central desta questão é a extrapolação: a banca oferece alternativas que acrescentam juízos que o texto não autoriza. Veja o padrão:
A diz que o narrador "tem dificuldade para organizar suas ideias" — isso é uma opinião negativa que não está no texto. A fragmentação é estilística, não um defeito do narrador.
B diz que o texto "parece técnico" — mas o texto é literário e subjetivo, cheio de emoção e memória. Não há objetividade técnica.
C diz que o texto é "cansativo e sem progressão" — o texto tem progressão: vai da chegada à lembrança da palavra "luz".
D diz que a fragmentação "reduz a presença de sentimentos" — o texto é carregado de afeto (a lembrança do pai, a palavra "luz").
A única que não acrescenta nada de fora é a E: ela descreve o efeito com base no que o texto mostra — o ritmo lento e a representação da memória.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não diz que o narrador tem dificuldade de organizar ideias. A fragmentação é uma escolha estilística do autor, não uma incapacidade do narrador. O trecho "Cala. Pensa. Concentra-se." mostra esforço deliberado, não desorganização.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto é literário e subjetivo, com forte carga emocional (a lembrança da primeira palavra, o esforço de recordar). Não há nada de "técnico" ou "objetivo" — os dados (data, local) são contextualização narrativa, não um relatório.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto tem progressão: começa com a chegada, passa pela descrição das pessoas, e culmina na lembrança da palavra "luz". As frases curtas avançam a narrativa, não a estagnam. A repetição de estruturas cria ênfase, não cansaço.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto é repleto de sentimentos: a memória afetiva do pai, o esforço emocional de recordar. A fragmentação intensifica a emoção, não a reduz. O trecho "Se perde para se achar" é profundamente subjetivo.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A fragmentação cria ritmo mais lento, capaz de representar as lembranças do narrador. O texto prova isso no último parágrafo:
"Ativada, a memória recua. Busca resgatar o passado. Retirá-lo do mais fundo do tempo. Devassar o escuro abismo. Tornar hoje o ontem."
Cada frase curta é um passo da memória — lento, gradual, como quem escava o passado. O ritmo pausado mimetiza o processo de recordar. A alternativa E é a única que não acrescenta nada de fora e se ancora no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você extrapolar — atribuir ao texto uma opinião negativa (dificuldade, cansaço) ou técnica (objetividade) que não existe. A correta é a que descreve o efeito sem julgar.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de efeito de sentido, pergunte: "o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?" A resposta certa sempre mora no texto.