Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FGV 2026
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Código
fg156164
Banca
FGV
Órgão
TJ SC
Ano
2026
Cargo
TJ Aux ( )
“Minha mãe só implorava e suplicava por misericórdia, porque já tinha ouvido falar de traficantes de pessoas, mas esses brutamontes não ouviam. Eram como o acadêmico africano meio zumbi de quem falei. Talvez fosse isso, de fato, quem ele era naquela época. Enfim, aí os caras pegaram e arrastaram a gente até a casa do meu tio, e ele apareceu. Minha mãe tentou se prostrar diante dele, como era costume em nosso país, mas estava tão amarrada que caiu de lado. Um dos lados do rosto dela ficou cheio de terra e seus joelhos estavam esfolados. Agora eu sei que ela nunca foi amada, porque nunca foi vista de verdade, a não ser pelos filhos, que a amavam. (...)”
WALKER, Alice. O templo dos meus familiares. Rio de Janeiro: José Olympio, 2024. p. 80-81.
Leia o fragmento a seguir, retirado do romance “O templo dos meus familiares”, de Alice Walker. No fragmento apresentado, observam-se marcas de oralidade. Considerando esse aspecto, assinale a afirmativa que analisa corretamente o papel dessas marcas no texto.
AAs marcas de oralidade evidenciam desvios da norma típicos dos textos falados, o que compromete a clareza e a organização das ideias no texto escrito.
BA oralidade se manifesta por meio de estruturas sintáticas simples, indicando limitação expressiva do narrador na construção do relato.
CO uso de marcas de oralidade aproxima o texto da linguagem coloquial, contribuindo para a construção de um relato mais espontâneo e expressivo.
DA presença de expressões coloquiais interfere na progressão temática, desviando propositalmente o foco narrativo para elementos secundários.
EAs marcas de oralidade caracterizam o texto como um diálogo direto entre personagens, estruturado por turnos de fala.
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GabaritoC — O uso de marcas de oralidade aproxima o texto da linguagem coloquial, contribuindo para a construção de um relato mais espontâneo e expressivo.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Marcas de oralidade no fragmento de Alice Walker
Gabarito: letra C. As marcas de oralidade no fragmento aproximam o texto da linguagem coloquial e contribuem para um relato mais espontâneo e expressivo — é exatamente o que a alternativa C afirma. O trecho traz expressões típicas da fala, como "Enfim, aí os caras pegaram e arrastaram a gente", que reproduzem o fluxo natural de quem narra uma experiência traumática, sem o polimento da norma culta escrita. A banca pede que se analise o papel dessas marcas, e a única leitura que o texto sustenta é a de que elas criam proximidade com o leitor e dão verossimilhança à voz narrativa.
O comando da questão
O enunciado pede que o candidato analise corretamente o papel das marcas de oralidade no fragmento. Isso é diferente de simplesmente identificá-las: é preciso avaliar o efeito de sentido que elas produzem. A questão não pergunta se há oralidade (isso é dado), mas para que ela serve no texto. Esse tipo de comando exige que se pense na função expressiva do recurso, não em um julgamento normativo sobre "certo" ou "errado".
O texto e o papel da oralidade
O fragmento narra uma cena de violência e desespero: a mãe da narradora é arrastada por traficantes de pessoas. A linguagem é marcadamente coloquial — "só implorava e suplicava", "esses brutamontes não ouviam", "aí os caras pegaram e arrastaram a gente", "Enfim". Essas escolhas não são acidentais: elas simulam a fala de quem viveu a situação, criando um efeito de testemunho direto. A oralidade aqui não é um defeito, mas um recurso estilístico que aproxima o leitor da experiência narrada, tornando o relato mais vívido e emocional.
"Enfim, aí os caras pegaram e arrastaram a gente até a casa do meu tio, e ele apareceu."
A expressão "aí" e a estrutura "pegaram e arrastaram" são típicas da narrativa oral espontânea. Elas reproduzem o ritmo da fala e dão a impressão de que a narradora está contando a história ao vivo, com as hesitações e ênfases naturais de quem relembra um trauma. É isso que a alternativa C captura: a oralidade aproxima o texto da linguagem coloquial e contribui para um relato mais espontâneo e expressivo.
A técnica para resolver
A armadilha central desta questão é o preconceito linguístico: muitas alternativas tratam a oralidade como "erro" ou "limitação". A banca quer que o candidato entenda que, em um texto literário, a linguagem coloquial é uma escolha estilística legítima, não um desvio. Para acertar, é preciso:
Identificar as marcas de oralidade no texto ("aí", "os caras", "pegaram e", "Enfim").
Perguntar qual é o efeito dessas marcas — elas aproximam o leitor, dão verossimilhança, criam espontaneidade.
Descartar qualquer alternativa que julgue a oralidade como negativa ("compromete", "limitação", "desvio").
Marcas de oralidade
1O que são
Expressões típicas da fala ("aí", "os caras")
Estruturas sintáticas simples
2Papel no texto
Aproximam da linguagem coloquial
Relato espontâneo e expressivo
Verossimilhança à voz narrativa
3Armadilha da banca
Preconceito linguístico (tratar como erro)
"Compromete", "limitação", "desvio"
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"As marcas de oralidade evidenciam desvios da norma típicos dos textos falados, o que compromete a clareza e a organização das ideias no texto escrito."
Erro: opinião embutida / contradiz o texto. A alternativa parte de um preconceito linguístico — trata a oralidade como "desvio" que "compromete" o texto. No entanto, o fragmento é perfeitamente claro e organizado; a oralidade não atrapalha a compreensão, pelo contrário, reforça a expressividade. O texto não dá nenhum indício de que a linguagem coloquial prejudica a narrativa. A banca quer que o candidato perceba que a oralidade é um recurso, não um defeito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"A oralidade se manifesta por meio de estruturas sintáticas simples, indicando limitação expressiva do narrador na construção do relato."
Erro: opinião embutida / extrapolação. É verdade que há estruturas sintáticas simples ("aí os caras pegaram e arrastaram a gente"), mas a alternativa acrescenta um juízo de valor que o texto não sustenta: a de que isso indica "limitação expressiva". Pelo contrário, a simplicidade é uma escolha estilística que dá força ao relato. A narradora não é limitada; ela usa a linguagem coloquial para criar um efeito de autenticidade. A alternativa extrapola ao transformar uma característica estilística em uma deficiência.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"O uso de marcas de oralidade aproxima o texto da linguagem coloquial, contribuindo para a construção de um relato mais espontâneo e expressivo."
Correta. Esta é a única alternativa que analisa o papel das marcas de oralidade sem julgamento negativo. O texto usa expressões como "aí", "os caras", "Enfim" para simular a fala e criar um efeito de espontaneidade. O relato ganha em expressividade porque o leitor sente que está ouvindo a narradora contar sua história diretamente. A alternativa C é uma paráfrase fiel do efeito que a oralidade produz no fragmento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"A presença de expressões coloquiais interfere na progressão temática, desviando propositalmente o foco narrativo para elementos secundários."
Erro: contradiz o texto / extrapolação. A alternativa afirma que a oralidade "desvia propositalmente o foco narrativo para elementos secundários". No entanto, o fragmento é coeso e focado: todas as informações giram em torno do sequestro e do sofrimento da mãe. Não há desvio de foco; as expressões coloquiais reforçam o tema central, não o enfraquecem. A alternativa inventa uma intenção ("propositalmente") que o texto não autoriza.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"As marcas de oralidade caracterizam o texto como um diálogo direto entre personagens, estruturado por turnos de fala."
Erro: contradiz o texto / tangencia o tema. O fragmento é uma narração em primeira pessoa, não um diálogo. Não há turnos de fala, nem dois personagens conversando. A oralidade aqui é da narradora, que conta a história, não de personagens em interação. A alternativa confunde a oralidade da narrativa com a estrutura de um diálogo — são coisas diferentes. O texto é um relato, não uma conversa.
Fechamento
A regra de ouro para questões sobre oralidade é: nunca trate a linguagem coloquial como erro. Em textos literários, a oralidade é um recurso expressivo que aproxima o leitor da voz narrativa. Ao analisar o papel das marcas de oralidade, pergunte: "que efeito elas produzem?" — e não "elas estão certas ou erradas?". A alternativa C é a única que responde a essa pergunta de forma positiva e fiel ao texto.
PEGA ESSA DICA!
Desconfie de alternativas que usam palavras como "compromete", "limitação", "desvio" — elas quase sempre carregam um preconceito linguístico que a banca quer que você evite. A oralidade em um texto literário é escolha estilística, não erro.