Questão de Direito Penal — Jurisprudência dos Tribunais Superiores sobre Penas — FGV 2023
Direito Penal›Jurisprudência dos Tribunais Superiores sobre Penas
Código
fg158592
Banca
FGV
Órgão
OAB
Ano
2023
Cargo
NAC UNI
João completou 20 anos e foi colocado em liberdade, após cumprir 3 anos de internação por medida socioeducativa em razão da prática de atos infracionais análogos a estupro e furto, conforme sentença proferida pelo Juizado da Infância e da Juventude de sua Comarca.
Ao ser solto da unidade de internação, foi preso em flagrante pela prática do crime de roubo, sendo que João nunca respondeu por outros crimes.
Para os fins deste novo processo, assinale a afirmativa correta.
AJoão é primário e com bons antecedentes, ante a inaptidão de atos infracionais serem utilizados como circunstâncias judiciais ou induzir reincidência.
BJoão é reincidente e com maus antecedentes, ante a pluralidade de infrações pretéritas, anteriores aos delitos de roubo.
CJoão é tecnicamente primário, porém, com maus antecedentes, sendo este único efeito possível gerado pela aplicação de medidas socioeducativas.
DJoão é reincidente ou com maus antecedentes, pois não é possível que a reincidência seja também considerada circunstância judicial, ainda que se tratem de condenações distintas.
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GabaritoA — João é primário e com bons antecedentes, ante a inaptidão de atos infracionais serem utilizados como circunstâncias judiciais ou induzir reincidência.
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Reincidência e maus antecedentes: o efeito das medidas socioeducativas
Gabarito: letra A. João é primário e com bons antecedentes, pois as medidas socioeducativas aplicadas em razão de atos infracionais praticados na adolescência não geram reincidência nem configuram maus antecedentes para o direito penal do adulto — a condenação criminal anterior, com trânsito em julgado, é requisito para ambos os institutos (CP, art. 63). A alternativa correta espelha exatamente essa regra.
O ponto central da questão é a distinção entre ato infracional e crime. O ato infracional é a conduta descrita como crime ou contravenção penal, mas praticada por pessoa menor de 18 anos (ECA, art. 103). Para o adolescente, a resposta estatal não é a pena, mas a medida socioeducativa — que tem natureza jurídica distinta da pena criminal, sendo orientada pela doutrina da proteção integral e pela finalidade pedagógica. Por isso, a medida socioeducativa não é condenação criminal e não pode produzir os efeitos penais que a condenação produz.
A reincidência (CP, art. 63) exige que o agente cometa novo crime depois de transitar em julgado a sentença que o tenha condenado por crime anterior. Como a medida socioeducativa não é sentença penal condenatória, ela jamais poderá gerar reincidência. Já os maus antecedentes (CP, art. 59) referem-se à existência de condenações criminais anteriores transitadas em julgado que não geram reincidência (por exemplo, por ter decorrido o prazo depurador de 5 anos do art. 64, I). A jurisprudência do STJ é firme no sentido de que atos infracionais não podem ser usados como maus antecedentes, pois o adolescente não é tecnicamente condenado — ele recebe uma medida de caráter socioeducativo.
Na prática, imagine que João tivesse sido condenado por um crime de furto aos 19 anos, com sentença transitada em julgado, e agora respondesse por roubo. Aí sim ele seria reincidente (se dentro do prazo de 5 anos) ou teria maus antecedentes (se fora do prazo). Mas como a internação foi por atos infracionais, na adolescência, o histórico de João é limpo para o direito penal: ele é primário e tem bons antecedentes. A banca explora exatamente a confusão entre o adolescente infrator e o adulto condenado — são regimes jurídicos incomunicáveis para esses fins.
Guarde a fronteira decisiva: ato infracional (medida socioeducativa) ≠ crime (pena). É nela que as alternativas se dividem.
Efeitos penais de atos infracionais: Ato infracional (ECA) (Medida socioeducativa, Não é condenação criminal); Reincidência (art. 63) (Exige condenação criminal anterior, Ato infracional não gera); Maus antecedentes (art. 59) (Exige condenação criminal anterior, Ato infracional não gera); Consequência (Primário, Bons antecedentes)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
João é primário porque nunca sofreu condenação criminal transitada em julgado — a internação por atos infracionais não é condenação penal. E tem bons antecedentes porque os atos infracionais não podem ser utilizados como circunstâncias judiciais desfavoráveis (maus antecedentes) nem para configurar reincidência. A alternativa está correta ao afirmar a "inaptidão de atos infracionais serem utilizados como circunstâncias judiciais ou induzir reincidência".
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que João é reincidente e tem maus antecedentes. Erro duplo: a reincidência exige condenação criminal anterior transitada em julgado (CP, art. 63), o que não existe no caso; e os maus antecedentes também pressupõem condenação criminal anterior, não medida socioeducativa. A pluralidade de atos infracionais não equivale a pluralidade de condenações criminais.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diz que João é "tecnicamente primário, porém com maus antecedentes". O erro está em afirmar que a medida socioeducativa gera maus antecedentes. A jurisprudência do STJ é pacífica: atos infracionais não configuram maus antecedentes. João é primário e tem bons antecedentes — não há efeito negativo algum decorrente da internação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que João é reincidente ou tem maus antecedentes. Repete o mesmo erro das anteriores: não há condenação criminal anterior, logo não há reincidência nem maus antecedentes. A parte final da alternativa, sobre a impossibilidade de a reincidência ser também circunstância judicial, é uma regra correta (Súmula 241 do STJ), mas não se aplica ao caso, pois João não é reincidente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer o candidato confundir o adolescente infrator com o adulto condenado. A medida socioeducativa não é pena — ela não gera reincidência, não configura maus antecedentes e não pode ser usada como circunstância judicial desfavorável. Quem cai na pegadinha marca as alternativas B, C ou D, que tratam o histórico infracional como se fosse criminal. Fique atento: o que decide é a natureza da sanção aplicada (socioeducativa × penal), não a gravidade do ato praticado.
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre reincidência e maus antecedentes, monte mentalmente o quadro: reincidência = condenação criminal anterior transitada em julgado + novo crime dentro do prazo de 5 anos do art. 64, I; maus antecedentes = condenação criminal anterior transitada em julgado que não gera reincidência (fora do prazo). Medida socioeducativa, contravenção penal (para reincidência) e crime militar próprio ou político não contam para nenhum dos dois. Se a alternativa mencionar ato infracional, ela está errada — salvo se disser que ele não gera efeitos penais.