Numa descrição, nunca são registrados todos os dados da realidade descrita, mas somente aqueles que mostram algum interesse textual. Veja, por exemplo, o seguinte caso:
O chefe de uma empresa, vira-se para o secretário e diz: – Por favor, dê um pulo ao meu carro, no estacionamento, e pegue o livro que esqueci no banco de trás; é um carro alemão, importado e novo, cinza, com a capota preta.
Assinale a opção que identifica o maior interesse textual dos adjetivos sublinhados nesse pequeno texto.
AO adjetivo “alemão” pretende valorizar a segurança do carro.
BO adjetivo “importado” desvaloriza a indústria nacional de automóveis.
CO adjetivo “novo” indica o alto preço do veículo.
DOs adjetivos “cinza” e “com a capota preta” mostram marcas diferenciadoras dos demais veículos.
ETodos os adjetivos foram empregados para dar valor social e econômico a seu proprietário.
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GabaritoD — Os adjetivos “cinza” e “com a capota preta” mostram marcas diferenciadoras dos demais veículos.
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A função dos adjetivos na descrição: identificar, não opinar
Gabarito: letra D. A questão pede o maior interesse textual dos adjetivos sublinhados no contexto de uma descrição. A alternativa correta é a D, pois os adjetivos “cinza” e “com a capota preta” têm função identificadora: servem para diferenciar o carro dos demais veículos no estacionamento, como se lê no trecho: “é um carro alemão, importado e novo, cinza, com a capota preta”. Os demais adjetivos (alemão, importado, novo) também caracterizam, mas o interesse textual central é a distinção — e são as marcas visuais (cor, capota) que cumprem esse papel de forma mais direta.
O comando: o que a banca quer
O enunciado afirma que, numa descrição, “nunca são registrados todos os dados da realidade descrita, mas somente aqueles que mostram algum interesse textual”. A pergunta é: qual o maior interesse textual dos adjetivos sublinhados? Ou seja, não se pergunta o que cada adjetivo significa isoladamente, mas para que eles foram usados no contexto: qual a finalidade comunicativa de cada um. Isso muda a resolução: não basta classificar o adjetivo como objetivo ou subjetivo; é preciso avaliar o efeito de sentido que ele produz na situação descrita.
O texto: a situação e o papel dos adjetivos
O chefe pede ao secretário que busque um livro no carro. Para que o secretário encontre o carro certo, o chefe o descreve: “é um carro alemão, importado e novo, cinza, com a capota preta”. Todos os adjetivos contribuem para identificar o veículo, mas há uma gradação: “alemão”, “importado” e “novo” são características que podem ser comuns a vários carros (muitos carros são alemães, importados e novos). Já “cinza” e “com a capota preta” são marcas visuais específicas que permitem distinguir aquele carro dos demais no estacionamento. É por isso que a alternativa D fala em “marcas diferenciadoras dos demais veículos”: são os traços que singularizam o objeto naquele contexto.
A técnica: adjetivo de observação vs. adjetivo de opinião
A FGV costuma classificar os adjetivos quanto à visão do observador. Há três tipos:
Adjetivo de opinião: expressa juízo de valor, subjetivo (ex.: “carro bonito”, “carro excelente”).
Adjetivo de inferência: baseado em conhecimento prévio, relação (ex.: “carro alemão” — infere-se a origem).
No texto, “cinza” e “com a capota preta” são claramente adjetivos de observação: indicam propriedades físicas, neutras, que não dependem de opinião. Eles têm valor restritivo: restringem o conjunto de carros possíveis, ajudando a identificar exatamente qual é o do chefe. Já “alemão”, “importado” e “novo” também são objetivos (relacionais ou de estado), mas não são tão específicos quanto a cor e a capota.
A armadilha da banca
A banca explora a tendência de atribuir valor social ou opinativo a adjetivos que, no contexto, têm função meramente identificadora. As alternativas A, B, C e E tentam fazer isso: “alemão” valoriza segurança, “importado” desvaloriza a indústria nacional, “novo” indica alto preço, e todos dão valor social ao proprietário. Nada disso está no texto — são extrapolações que acrescentam informações de fora. O texto não diz que o chefe quer impressionar, nem que o carro é seguro ou caro. A única leitura sustentada é a de que os adjetivos servem para diferenciar o carro.
Análise das alternativas
Adjetivos na descrição
1Função
Identificar (objetivo)
Opinar (subjetivo)
2Tipos
Observação (cor, capota)
Relação (origem, estado)
Inferência (conhecimento prévio)
3No texto
"Cinza" e "capota preta"
Marcas diferenciadoras
Valor restritivo
"Alemão", "importado", "novo"
Características comuns
Não singularizam
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona segurança. O adjetivo “alemão” indica apenas a origem do carro (adjetivo de relação), não uma qualidade como segurança. Atribuir a ele a intenção de “valorizar a segurança” é acrescentar uma informação que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O adjetivo “importado” apenas informa que o carro não foi fabricado no país. Não há qualquer juízo sobre a indústria nacional. A ideia de “desvalorizar” é uma opinião que o texto não expressa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. “Novo” indica estado (recente, não usado), não preço. O texto não fala em valor monetário. Inferir “alto preço” é uma dedução sem base textual.
Alternativa D — ✅ Correta
Fundamento: No trecho “é um carro alemão, importado e novo, cinza, com a capota preta”, os adjetivos “cinza” e “com a capota preta” são características visuais específicas que permitem distinguir aquele carro dos demais no estacionamento. Eles têm valor restritivo e objetivo, funcionando como marcas diferenciadoras. É exatamente o que a alternativa afirma.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: generalização indevida. A alternativa afirma que todos os adjetivos foram empregados para dar valor social e econômico ao proprietário. Isso é uma extrapolação: o texto não sugere qualquer intenção de ostentação. Além disso, generaliza para todos os adjetivos, quando a função principal é identificar o carro, não valorizar o dono.
Conclusão
A questão ensina que, em textos descritivos, os adjetivos podem ter valor objetivo (caracterizar, identificar) ou subjetivo (opinar). A banca cobra a percepção de que, no contexto, os adjetivos “cinza” e “com a capota preta” têm a função de diferenciar o objeto, não de expressar opinião ou valor social. Ao resolver, pergunte-se: o texto autoriza essa interpretação, ou estou acrescentando algo de fora? A resposta correta é a que se sustenta integralmente no texto.