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Questão de Português — Denotação e Conotação — FGV 2023

PortuguêsDenotação e Conotação
Código
fg160189
Banca
FGV
Órgão
TJ SE
Ano
2023
Cargo
AJ ( )

Células-tronco podem ser o segredo da origem e evolução de seres multicelulares

[fragmento; adaptado]

Por Bruno Vaiano

 

Ernst Haeckel era estudante de medicina, filho de um conselheiro da corte prussiana, e “provavelmente o homem mais bonito que eu já havia visto”, escreveu um de seus alunos. Ele e sua prima de primeiro grau, Anna, eram apaixonados desde a adolescência – o que, longe de ser um problema, era o sonho de todo clã aristocrático da Europa no século 19: Darwin, por exemplo, se casou com sua prima, e o irmão dela, com a irmã de Darwin. A ideia era manter a herança na família e preservar o poder dos sobrenomes.

 

Haeckel era o partidão perfeito, não fosse um problema: sua semelhança com Darwin não parava no casamento endogâmico. Ele também queria ser naturalista. O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico. Para convencer a família de que conseguiria sustentar sua prima-noiva, ele saiu em turnê pelo sul da Europa, estudando animais marinhos nas praias e desenhando-os em minúcias.

 

Deu certo. Haeckel escreveu best-sellers, virou professor universitário e suas ilustrações foram uma sensação. Com a grana no bolso, casou-se com Anna. Um ano e meio depois, aos 29 anos, ela morreu (talvez de febre tifoide, mas não houve diagnóstico). Deprê e niilista, ele abandonou a fé religiosa e abraçou de vez a evolução por seleção natural. Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies.

 

Nem todos os insights de Haeckel estavam certos. Mas, dentre suas hipóteses de arrepiar os cabelos da Igreja, uma, em particular, sobrevive na biologia:a nós (e todos os animais da Terra) somos netos do Bob Esponja.b

 

Questões porosas

As esponjas são tubos de células que se apoiam em rochas, no fundo do mar. A água entra pelas paredes desses cilindros, que filtram os nutrientes e deixam o resto sair pela abertura no topo. [...]

 

Em 1874, Haeckel percebeu que as células filtradoras de comida das esponjas, os coanócitos, têm exatamente a mesma arquitetura de micróbios aquáticos chamados coanoflagelados. Eles são criaturinhas microscópicas inofensivas e onipresentes nas águas da Terra [...].

Pertencem ao reino Protista, aquele em que os biólogos põem as coisas que eles não sabem direito o que são (rs). Um saco de gatos taxonômico. Protistas não são fungos, animais nem plantas. Mas suas células têm estruturas complexas que esses seres vivos grandões também apresentam – como um núcleo para guardar o DNA, e usinas de geração de energia chamadas mitocôndriasc. [...]

 

Existem protistas multicelulares, visíveis a olho nu, como as algas (pois é, elas não são plantas). Mas muitos, como as amebas e protozoários, são feitos de uma célula só. É o caso dos coanoflagelados. Vistos no microscópio, eles têm a forma de uma bola em cima de um cone. Como a silhueta de um buraco de fechadura, ou de um peão de xadrez. A bola é a célula em si, onde fica o DNA e o resto do maquinário biológico. Já o cone é formado por 30 ou 40 microvilosidades, filamentos que parecem tentáculos de uma água-viva. Do centro desse cone, emerge um filamento maior, chamado flagelo, parecido com o que equipa os espermatozoides – e com a mesma função: nadar. O conjunto da obra fica assim: ~>O

 

É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula,d como ocorre com o espermatozoide. Mas a verdade é que ele nada ao contrário, com o cone e o rabinho para frente. Como um avião com hélice no nariz: O<~

 

O coanoflagelado se move assim porque as microvilosidades atuam como “boca”: vão captando bactérias e pequenas partículas de material orgânico que pairam na água.

 

A sacada de Haeckel foi que uma esponja-do-mar funciona como uma colônia de coanoflagelados, que se uniram em uma muralha para aumentar a área de captação de comidae. A diferença é que eles abanam coletivamente seus flagelos – lembre-se, os “rabinhos” – para sugar a água para dentro da esponja, e não para se mover. Um é Maomé indo à montanha, o outro atrai a montanha para Maomé. Os coanócitos das esponjas atuais seriam herdeiros de coanoflagelados. Protistas em carreira solo que se juntaram para formar o primeiro animal, o ancestral comum de toda a fauna da Terra.

 

Vale esclarecer algo: isso não quer dizer que nossos ancestrais sejam os mesmos coanoflagelados que hoje nadam pelados em Santos. Eles eram, isso sim, um protista pré-histórico, que existiu há uns 700 milhões de anos, muito parecido tanto com os coanoflagelados quanto com as células das esponjas – e cuja linhagem se bifurcou para dar origem a ambos. [...]

 

Carambolas

A hipótese esponjosa de Haeckel permaneceu incólume, por 140 anos, como nossa melhor explicação para a origem dos animais. Até que apareceram as carambolas do mar – nome popular dos ctenóforos, bichos aquáticos translúcidos e gelatinosos, que lembram águas-vivas com forma de bola de rugby. Em 2017, um estudo comparativo de genomas identificou as carambolas, e não as esponjas, na raiz da irradiação dos animais. E essa conclusão tem respaldo no registro fóssil: no sul da China, há um fóssil de carambola de 631 milhões de anos na formação geológica de Doushantuo – uma data que corresponde à época mais aceita para a origem dos seres multicelulares.

 

Nem uma coisa nem outra são suficientes para tirar o trono pioneiro das esponjas. Afinal, sempre dá para encontrar um fóssilmais antigo – neste exato momento, uma potencial esponja de 890 milhões de anos está gerando debate entre paleontólogos. O registro geológico não é uma foto perfeita da realidade, principalmente quando estamos tratando de animais moles, que geralmente se decompõem sem deixar rastro. Além disso, análises filogenéticas estão sujeitas a alguma incerteza: métodos e pesquisadores diferentes extraem conclusões distintas dos mesmos DNAs.

 

Seja como for, essas duas descobertas reacendem o debate. E afora as carambolas, há um outro front de pesquisa que desafia as ideias de Haeckel: a investigação de protistas ainda mais estranhos que os coanoflagelados, que alternam entre estágios de vida uni e multicelulares.

 

Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia

/celulas-troncopodem- ser-o-segredo-da-origem-e-evolucao-de-seresmulticelulares/

Texto 1 –

 

O texto 1 é uma reportagem de divulgação científica. Uma consequência desse fato na superfície textual é a presença abundante de linguagem conotativa, cuja função é tornar um assunto potencialmente difícil mais palatável para o leitor. A única alternativa em que a palavra sublinhada NÃO tem sentido conotativo é:

  1. A“Mas, dentre suas hipóteses de arrepiar os cabelos da Igreja, uma, em particular, sobrevive na biologia” (Texto 1, 4º parágrafo);
  2. B“nós (e todos os animais da Terra) somos netos do Bob Esponja.” (Texto 1, 4º parágrafo);
  3. C“como um núcleo para guardar o DNA, e usinas de geração de energia chamadas mitocôndrias.” (Texto 1, 7º parágrafo);
  4. D“É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula” (Texto 1, 9º parágrafo);
  5. E“que se uniram em uma muralha para aumentar a área de captação de comida.” (Texto 1, 11º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — “É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula” (Texto 1, 9º parágrafo);

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Denotação e conotação: a palavra que mantém o sentido literal

Gabarito: letra D. A única alternativa em que a palavra sublinhada NÃO tem sentido conotativo é a D, pois "rabinho" é empregado em seu sentido literal — o texto explica que o flagelo do coanoflagelado é um filamento que "parece" um rabinho, mas a palavra é usada para designar a estrutura real, não uma metáfora. Como se lê no 9º parágrafo: "É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula". As demais alternativas usam palavras em sentido figurado (metafórico), como "arrepiar os cabelos", "netos", "usinas" e "muralha".

O comando: identificar a exceção

A questão pede a alternativa em que a palavra sublinhada NÃO tem sentido conotativo. Isso significa que devemos procurar a única ocorrência em que a palavra é usada em seu sentido denotativo — ou seja, literal, próprio, dicionarizado. As outras quatro devem apresentar sentido conotativo (figurado, metafórico). A banca quer que você distinga os dois usos no contexto do texto.

O texto: divulgação científica com linguagem figurada

O texto é uma reportagem de divulgação científica sobre a origem dos animais multicelulares. Para tornar o assunto acessível, o autor usa metáforas e comparações — por exemplo, chama os coanoflagelados de "netos do Bob Esponja" e compara a esponja a uma "muralha". Essas escolhas são conotativas. A questão explora exatamente esse recurso: você deve identificar qual palavra, apesar do contexto figurado, mantém seu sentido literal.

A técnica: denotação × conotação

Denotação é o sentido literal, objetivo, que independe do contexto. Conotação é o sentido figurado, que depende do contexto e cria imagens. Para resolver, pergunte: "a palavra está sendo usada no seu sentido de dicionário ou em um sentido criado pelo autor?"

  • A) "arrepiar os cabelos" — sentido figurado: hipóteses não têm cabelos; a expressão significa "causar espanto". Conotativa.

  • B) "netos do Bob Esponja" — sentido figurado: não somos literalmente netos; é uma metáfora para "descendentes evolutivos". Conotativa.

  • C) "usinas de geração de energia" — sentido figurado: mitocôndrias não são usinas; a comparação é metafórica. Conotativa.

  • D) "rabinho" — sentido literal: o texto descreve o flagelo como um filamento que "parece" um rabinho, mas a palavra é usada para nomear a estrutura real. Denotativa.

  • E) "muralha" — sentido figurado: a esponja não é uma muralha; a comparação é metafórica. Conotativa.

Análise das alternativas

Sentido da palavra
  • 1Denotação (literal)
    • "rabinho" (flagelo real)
  • 2Conotação (figurado)
    • "arrepiar os cabelos" (espanto)
    • "netos do Bob Esponja" (descendência)
    • "usinas de energia" (mitocôndrias)
    • "muralha" (proteção)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A expressão "arrepiar os cabelos" é conotativa: hipóteses não têm cabelos para arrepiar. O sentido é figurado — "causar espanto, indignação". A banca usa essa expressão para testar se você reconhece a metáfora.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Netos do Bob Esponja" é conotativa: não somos literalmente netos de um personagem de desenho. É uma metáfora para "descendentes evolutivos das esponjas". O texto brinca com a ideia de ancestralidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Usinas de geração de energia" é conotativa: mitocôndrias não são usinas; a comparação é metafórica para "estruturas que produzem energia". O sentido é figurado.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Rabinho" é usado em sentido denotativo: o texto descreve o flagelo como um filamento que "parece" um rabinho, mas a palavra é empregada para nomear a estrutura real. No 9º parágrafo, o autor diz: "É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula". A palavra "rabinho" aqui é uma descrição literal da forma do flagelo, não uma metáfora. Por isso, é a única alternativa sem conotação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Muralha" é conotativa: a esponja não é uma muralha; a comparação é metafórica para "estrutura que protege e aumenta a área de captação". O sentido é figurado.

Conclusão

A questão testa a distinção entre denotação (sentido literal) e conotação (sentido figurado). A única palavra usada em sentido literal é "rabinho" (D), pois nomeia diretamente o flagelo. As demais são metáforas. Gabarito: letra D.

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