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Questão de Português — Questões Variadas de Classe de Palavras — FGV 2023

PortuguêsQuestões Variadas de Classe de Palavras
Código
fg160191
Banca
FGV
Órgão
TJ SE
Ano
2023
Cargo
AJ ( )

Células-tronco podem ser o segredo da origem e evolução de seres multicelulares

[fragmento; adaptado]

Por Bruno Vaiano

 

Ernst Haeckel era estudante de medicina, filho de um conselheiro da corte prussiana, e “provavelmente o homem mais bonito que eu já havia visto”, escreveu um de seus alunos. Ele e sua prima de primeiro grau, Anna, eram apaixonados desde a adolescência – o que, longe de ser um problema, era o sonho de todo clã aristocrático da Europa no século 19: Darwin, por exemplo, se casou com sua prima, e o irmão dela, com a irmã de Darwin. A ideia era manter a herança na família e preservar o poder dos sobrenomes.

 

Haeckel era o partidão perfeito, não fosse um problema: sua semelhança com Darwin não parava no casamento endogâmico. Ele também queria ser naturalista. O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico. Para convencer a família de que conseguiria sustentar sua prima-noiva, ele saiu em turnê pelo sul da Europa, estudando animais marinhos nas praias e desenhando-os em minúcias.

 

Deu certo. Haeckel escreveu best-sellers, virou professor universitário e suas ilustrações foram uma sensação. Com a grana no bolso, casou-se com Anna. Um ano e meio depois, aos 29 anos, ela morreu (talvez de febre tifoide, mas não houve diagnóstico). Deprê e niilista, ele abandonou a fé religiosa e abraçou de vez a evolução por seleção natural. Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies.

 

Nem todos os insights de Haeckel estavam certos. Mas, dentre suas hipóteses de arrepiar os cabelos da Igreja, uma, em particular, sobrevive na biologia: nós (e todos os animais da Terra) somos netos do Bob Esponja.

 

Questões porosas

As esponjas são tubos de células que se apoiam em rochas, no fundo do mar. A água entra pelas paredes desses cilindros, que filtram os nutrientes e deixam o resto sair pela abertura no topo. [...]

 

Em 1874, Haeckel percebeu que as células filtradoras de comida das esponjas, os coanócitos, têm exatamente a mesma arquitetura de micróbios aquáticos chamados coanoflagelados. Eles são criaturinhas microscópicas inofensivas e onipresentes nas águas da Terra [...].

Pertencem ao reino Protista, aquele em que os biólogos põem as coisas que eles não sabem direito o que são (rs). Um saco de gatos taxonômico. Protistas não são fungos, animais nem plantas. Mas suas células têm estruturas complexas que esses seres vivos grandões também apresentam – como um núcleo para guardar o DNA, e usinas de geração de energia chamadas mitocôndrias. [...]

 

Existem protistas multicelulares, visíveis a olho nu, como as algas (pois é, elas não são plantas). Mas muitos, como as amebas e protozoários, são feitos de uma célula só. É o caso dos coanoflagelados. Vistos no microscópio, eles têm a forma de uma bola em cima de um cone. Como a silhueta de um buraco de fechadura, ou de um peão de xadrez. A bola é a célula em si, onde fica o DNA e o resto do maquinário biológico. Já o cone é formado por 30 ou 40 microvilosidades, filamentos que parecem tentáculos de uma água-viva. Do centro desse cone, emerge um filamento maior, chamado flagelo, parecido com o que equipa os espermatozoides – e com a mesma função: nadar. O conjunto da obra fica assim: ~>O

 

É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula, como ocorre com o espermatozoide. Mas a verdade é que ele nada ao contrário, com o cone e o rabinho para frente. Como um avião com hélice no nariz: O<~

 

O coanoflagelado se move assim porque as microvilosidades atuam como “boca”: vão captando bactérias e pequenas partículas de material orgânico que pairam na água.

 

A sacada de Haeckel foi que uma esponja-do-mar funciona como uma colônia de coanoflagelados, que se uniram em uma muralha para aumentar a área de captação de comida. A diferença é que eles abanam coletivamente seus flagelos – lembre-se, os “rabinhos” – para sugar a água para dentro da esponja, e não para se mover. Um é Maomé indo à montanha, o outro atrai a montanha para Maomé. Os coanócitos das esponjas atuais seriam herdeiros de coanoflagelados. Protistas em carreira solo que se juntaram para formar o primeiro animal, o ancestral comum de toda a fauna da Terra.

 

Vale esclarecer algo: isso não quer dizer que nossos ancestrais sejam os mesmos coanoflagelados que hoje nadam pelados em Santos. Eles eram, isso sim, um protista pré-histórico, que existiu há uns 700 milhões de anos, muito parecido tanto com os coanoflagelados quanto com as células das esponjas – e cuja linhagem se bifurcou para dar origem a ambos. [...]

 

Carambolas

A hipótese esponjosa de Haeckel permaneceu incólume, por 140 anos, como nossa melhor explicação para a origem dos animais. Até que apareceram as carambolas do mar – nome popular dos ctenóforos, bichos aquáticos translúcidos e gelatinosos, que lembram águas-vivas com forma de bola de rugby. Em 2017, um estudo comparativo de genomas identificou as carambolas, e não as esponjas, na raiz da irradiação dos animais. E essa conclusão tem respaldo no registro fóssil: no sul da China, há um fóssil de carambola de 631 milhões de anos na formação geológica de Doushantuo – uma data que corresponde à época mais aceita para a origem dos seres multicelulares.

 

Nem uma coisa nem outra são suficientes para tirar o trono pioneiro das esponjas. Afinal, sempre dá para encontrar um fóssilmais antigo – neste exato momento, uma potencial esponja de 890 milhões de anos está gerando debate entre paleontólogos. O registro geológico não é uma foto perfeita da realidade, principalmente quando estamos tratando de animais moles, que geralmente se decompõem sem deixar rastro. Além disso, análises filogenéticas estão sujeitas a alguma incerteza: métodos e pesquisadores diferentes extraem conclusões distintas dos mesmos DNAs.

 

Seja como for, essas duas descobertas reacendem o debate. E afora as carambolas, há um outro front de pesquisa que desafia as ideias de Haeckel: a investigação de protistas ainda mais estranhos que os coanoflagelados, que alternam entre estágios de vida uni e multicelulares.

 

Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia

/celulas-troncopodem- ser-o-segredo-da-origem-e-evolucao-de-seresmulticelulares/

Texto 1 –

 

“Carambolas” (Texto 1, Título do 3º bloco)

 

Na passagem acima, que corresponde ao título do terceiro bloco do texto 1, é possível atribuir à palavra “carambolas” dois significados. Por essa razão, esse título é ambíguo, o que acentua sua expressividade.

 

Os dois significados possíveis para a palavra “carambolas” na passagem acima estão associados a duas classes gramaticais distintas. São elas:

  1. Aadvérbio e conjunção;
  2. Bsubstantivo e interjeição;
  3. Cadjetivo e preposição;
  4. Dpronome indefinido e modalizador;
  5. Epalavra denotativa e pronome pessoal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — substantivo e interjeição;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Ambiguidade e classes gramaticais: o duplo sentido de "carambolas"

Gabarito: letra B. A palavra "carambolas" no título do terceiro bloco pode ser lida como substantivo (o animal marinho, os ctenóforos) e como interjeição (a exclamação de espanto, equivalente a "caramba!"). A ambiguidade está exatamente aí: o leitor pode interpretar o título como uma referência ao animal ou como uma expressão de surpresa, e cada leitura exige uma classe gramatical distinta.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique as duas classes gramaticais que a palavra "carambolas" pode assumir no título, considerando a ambiguidade — ou seja, os dois sentidos possíveis. Isso não é uma questão de interpretação de texto pura, mas de morfologia aplicada ao contexto: você precisa reconhecer que uma mesma palavra pode pertencer a classes diferentes conforme o sentido que assume. A banca não quer que você diga o que o título "significa", mas sim que classe gramatical cada significado exige.

O texto e a ambiguidade

No texto, "carambolas" aparece como título do terceiro bloco, que trata dos ctenóforos:

"A hipótese esponjosa de Haeckel permaneceu incólume, por 140 anos, como nossa melhor explicação para a origem dos animais. Até que apareceram as carambolas do mar – nome popular dos ctenóforos, bichos aquáticos translúcidos e gelatinosos, que lembram águas-vivas com forma de bola de rugby."

Aqui, "carambolas" é claramente um substantivo — nomeia o animal. Mas o título isolado, "Carambolas", também pode ser lido como uma interjeição de espanto, como em "Caramba!". Essa dupla leitura é o que gera a ambiguidade e a expressividade apontada pelo enunciado.

A técnica que decide

A chave é reconhecer que a ambiguidade aqui não é apenas semântica (dois sentidos), mas também morfológica (duas classes). Quando uma palavra pode ser lida de duas formas, cada leitura impõe uma classe gramatical. No caso:

  • Substantivo: nomeia o ser (os ctenóforos).

  • Interjeição: expressa emoção (espanto, surpresa).

A banca explora exatamente essa dualidade. As demais alternativas falham porque propõem classes que não se sustentam em nenhuma das leituras possíveis do título.

"Carambolas" (título)
  • 1Leitura 1: substantivo
    • Nomeia o animal (ctenóforos)
  • 2Leitura 2: interjeição
    • Exclamação de espanto ("caramba!")
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Advérbio e conjunção. Não há leitura possível em que "carambolas" funcione como advérbio (modifica verbo, adjetivo ou outro advérbio) ou como conjunção (liga orações). A palavra, no título, ou nomeia o animal ou expressa espanto — nunca modifica ou conecta. A alternativa extrapola ao inventar classes que não têm base no contexto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Substantivo e interjeição. Como visto, "carambolas" pode ser lida como substantivo (o animal marinho, os ctenóforos) ou como interjeição (exclamação de espanto, equivalente a "caramba!"). A ambiguidade morfológica é exatamente essa: cada leitura impõe uma classe distinta. É a única alternativa que corresponde aos dois sentidos possíveis do título.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Adjetivo e preposição. "Carambolas" não caracteriza nenhum substantivo (não é adjetivo) e não estabelece relação de subordinação (não é preposição). A alternativa contradiz o texto ao atribuir classes que não se aplicam ao termo em nenhuma das leituras.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Pronome indefinido e modalizador. "Carambolas" não substitui nem acompanha um substantivo de forma indefinida (não é pronome indefinido) e não expressa uma atitude do falante em relação ao conteúdo (não é modalizador). A alternativa tangencia o tema ao trazer classes que não têm relação com o uso da palavra no título.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Palavra denotativa e pronome pessoal. "Carambolas" não é uma palavra denotativa (como "aliás", "inclusive") e não substitui um nome como pronome pessoal (eu, tu, ele). A alternativa extrapola ao propor classes que não se sustentam no contexto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre ambiguidade semântica e morfológica. O candidato pode reconhecer os dois sentidos, mas errar ao associar cada sentido à classe gramatical correta. A chave é testar cada leitura: "carambolas" como animal = substantivo; "carambolas!" como espanto = interjeição.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar uma palavra ambígua, pergunte-se: "que classe gramatical cada sentido exige?". Se um sentido nomeia um ser, é substantivo; se expressa emoção, é interjeição. Teste sempre as duas leituras antes de marcar.

Gabarito: letra B. A palavra "carambolas" é ambígua porque pode ser lida como substantivo (o animal) ou como interjeição (espanto), e cada leitura impõe uma classe gramatical distinta.

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