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Questão de Português — Pronomes Relativos — FGV 2023

PortuguêsPronomes Relativos
Código
fg160197
Banca
FGV
Órgão
TJ SE
Ano
2023
Cargo
AJ ( )

Células-tronco podem ser o segredo da origem e evolução de seres multicelulares

[fragmento; adaptado]

Por Bruno Vaiano

 

Ernst Haeckel era estudante de medicina, filho de um conselheiro da corte prussiana, e “provavelmente o homem mais bonito que eu já havia visto”, escreveu um de seus alunos. Ele e sua prima de primeiro grau, Anna, eram apaixonados desde a adolescência – o que, longe de ser um problema, era o sonho de todo clã aristocrático da Europa no século 19: Darwin, por exemplo, se casou com sua prima, e o irmão dela, com a irmã de Darwin. A ideia era manter a herança na família e preservar o poder dos sobrenomes.

 

Haeckel era o partidão perfeito, não fosse um problema: sua semelhança com Darwin não parava no casamento endogâmico. Ele também queria ser naturalista. O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico. Para convencer a família de que conseguiria sustentar sua prima-noiva, ele saiu em turnê pelo sul da Europa, estudando animais marinhos nas praias e desenhando-os em minúcias.

 

Deu certo. Haeckel escreveu best-sellers, virou professor universitário e suas ilustrações foram uma sensação. Com a grana no bolso, casou-se com Anna. Um ano e meio depois, aos 29 anos, ela morreu (talvez de febre tifoide, mas não houve diagnóstico). Deprê e niilista, ele abandonou a fé religiosa e abraçou de vez a evolução por seleção natural. Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies.

 

Nem todos os insights de Haeckel estavam certos. Mas, dentre suas hipóteses de arrepiar os cabelos da Igreja, uma, em particular, sobrevive na biologia: nós (e todos os animais da Terra) somos netos do Bob Esponja.

 

Questões porosas

As esponjas são tubos de células que se apoiam em rochas, no fundo do mar. A água entra pelas paredes desses cilindros, que filtram os nutrientes e deixam o resto sair pela abertura no topo. [...]

 

Em 1874, Haeckel percebeu que as células filtradoras de comida das esponjas, os coanócitos, têm exatamente a mesma arquitetura de micróbios aquáticos chamados coanoflagelados. Eles são criaturinhas microscópicas inofensivas e onipresentes nas águas da Terra [...].

Pertencem ao reino Protista, aquele em que os biólogos põem as coisas que eles não sabem direito o que são (rs). Um saco de gatos taxonômico. Protistas não são fungos, animais nem plantas. Mas suas células têm estruturas complexas que esses seres vivos grandões também apresentam – como um núcleo para guardar o DNA, e usinas de geração de energia chamadas mitocôndrias. [...]

 

Existem protistas multicelulares, visíveis a olho nu, como as algas (pois é, elas não são plantas). Mas muitos, como as amebas e protozoários, são feitos de uma célula só. É o caso dos coanoflagelados. Vistos no microscópio, eles têm a forma de uma bola em cima de um cone. Como a silhueta de um buraco de fechadura, ou de um peão de xadrez. A bola é a célula em si, onde fica o DNA e o resto do maquinário biológico. Já o cone é formado por 30 ou 40 microvilosidades, filamentos que parecem tentáculos de uma água-viva. Do centro desse cone, emerge um filamento maior, chamado flagelo, parecido com o que equipa os espermatozoides – e com a mesma função: nadar. O conjunto da obra fica assim: ~>O

 

É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula, como ocorre com o espermatozoide. Mas a verdade é que ele nada ao contrário, com o cone e o rabinho para frente. Como um avião com hélice no nariz: O<~

 

O coanoflagelado se move assim porque as microvilosidades atuam como “boca”: vão captando bactérias e pequenas partículas de material orgânico que pairam na água.

 

A sacada de Haeckel foi que uma esponja-do-mar funciona como uma colônia de coanoflagelados, que se uniram em uma muralha para aumentar a área de captação de comida. A diferença é que eles abanam coletivamente seus flagelos – lembre-se, os “rabinhos” – para sugar a água para dentro da esponja, e não para se mover. Um é Maomé indo à montanha, o outro atrai a montanha para Maomé. Os coanócitos das esponjas atuais seriam herdeiros de coanoflagelados. Protistas em carreira solo que se juntaram para formar o primeiro animal, o ancestral comum de toda a fauna da Terra.

 

Vale esclarecer algo: isso não quer dizer que nossos ancestrais sejam os mesmos coanoflagelados que hoje nadam pelados em Santos. Eles eram, isso sim, um protista pré-histórico, que existiu há uns 700 milhões de anos, muito parecido tanto com os coanoflagelados quanto com as células das esponjas – e cuja linhagem se bifurcou para dar origem a ambos. [...]

 

Carambolas

A hipótese esponjosa de Haeckel permaneceu incólume, por 140 anos, como nossa melhor explicação para a origem dos animais. Até que apareceram as carambolas do mar – nome popular dos ctenóforos, bichos aquáticos translúcidos e gelatinosos, que lembram águas-vivas com forma de bola de rugby. Em 2017, um estudo comparativo de genomas identificou as carambolas, e não as esponjas, na raiz da irradiação dos animais. E essa conclusão tem respaldo no registro fóssil: no sul da China, há um fóssil de carambola de 631 milhões de anos na formação geológica de Doushantuo – uma data que corresponde à época mais aceita para a origem dos seres multicelulares.

 

Nem uma coisa nem outra são suficientes para tirar o trono pioneiro das esponjas. Afinal, sempre dá para encontrar um fóssilmais antigo – neste exato momento, uma potencial esponja de 890 milhões de anos está gerando debate entre paleontólogos. O registro geológico não é uma foto perfeita da realidade, principalmente quando estamos tratando de animais moles, que geralmente se decompõem sem deixar rastro. Além disso, análises filogenéticas estão sujeitas a alguma incerteza: métodos e pesquisadores diferentes extraem conclusões distintas dos mesmos DNAs.

 

Seja como for, essas duas descobertas reacendem o debate. E afora as carambolas, há um outro front de pesquisa que desafia as ideias de Haeckel: a investigação de protistas ainda mais estranhos que os coanoflagelados, que alternam entre estágios de vida uni e multicelulares.

 

Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia

/celulas-troncopodem- ser-o-segredo-da-origem-e-evolucao-de-seresmulticelulares/

Texto 1

 

“Protistas em carreira solo que se juntaram para formar o primeiro animal [...]” (Texto 1, 11º parágrafo)

 

As alternativas a seguir são propostas de reescritura da passagem acima. O único caso em que NÃO se verifica erro quanto ao emprego do pronome relativo é:

  1. AProtistas em carreira solo cuja a união levou ao surgimento do primeiro animal;
  2. BProtistas em carreira solo cuja união formou-se o primeiro animal;
  3. CProtistas em carreira solo cuja união resultou na formação do primeiro animal;
  4. DProtistas em carreira solo que a união acarretou o surgimento do primeiro animal;
  5. EProtistas em carreira solo cuja união dependeu a formação do primeiro animal.
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GabaritoC — Protistas em carreira solo cuja união resultou na formação do primeiro animal;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Pronome relativo "cujo" e a regência: reescritura sem erro

Gabarito: letra C. A única reescritura correta é a que emprega "cuja união" com verbo que rege a preposição adequada: "resultou na formação" — pois "resultar em" exige a preposição "em", que se funde com o artigo "a" (união) em "na". As demais alternativas erram ao usar "cujo" com verbo que não pede a preposição "de" (ou ao empregar artigo após o pronome), como se vê na análise de cada uma.

A questão testa dois pontos centrais do pronome relativo "cujo": (1) ele é pronome adjetivo e não admite artigo após si — "cuja a união" é erro; (2) ele equivale a "do qual / da qual / de quem", e o verbo da oração adjetiva deve reger a preposição "de" (ou outra, se o verbo pedir), que já está embutida no pronome. A banca, então, monta reescrituras que parecem equivalentes, mas quebram a regência ou a estrutura.

O comando pede a reescritura sem erro quanto ao emprego do pronome relativo. Isso significa que devemos testar cada opção como se fosse uma oração adjetiva restritiva introduzida por "cujo", verificando: (a) se há artigo indevido após o pronome; (b) se o verbo da oração aceita a regência que o "cujo" impõe (posse + preposição "de"); (c) se a estrutura sintática está íntegra.

A técnica é simples: troque "cujo" por "do qual" e veja se a frase fica correta. Se o verbo pedir outra preposição (como "em", "com", "para"), o "cujo" deve vir preposicionado ("em cuja", "com cuja"), o que não ocorre em nenhuma das alternativas — todas usam "cuja" sem preposição, então o verbo precisa reger "de".

PEGA ESSA DICA!

Ao testar reescrituras com "cujo", substitua mentalmente por "do qual" e confira se a preposição "de" é a exigida pelo verbo. Se o verbo pedir "em" ou "com", a forma correta seria "em cuja" / "com cuja" — o que não aparece nas opções.

Critério

A

B

C (gabarito)

D

E

Artigo após "cujo"

❌ "cuja a"

Regência do verbo

❌ "levar a" ≠ "de"

❌ "formar-se" ≠ "de"

✅ "resultar em"

❌ "que" sem posse

❌ "depender de" (faltou "de")

Estrutura possessiva

Alternativa A — ❌ Incorreta

"cuja a união" — erro clássico: artigo após o pronome relativo. "Cujo" é pronome adjetivo e já carrega a ideia de posse; não se escreve "cuja a", "cujos os". O correto seria "cuja união". Além disso, o verbo "levou" pede a preposição "a" (levar a algo), não "de" — então a regência também falha: o certo seria "a cuja união levou".

Alternativa B — ❌ Incorreta

"cuja união formou-se o primeiro animal" — aqui o verbo "formar-se" não rege a preposição "de". A estrutura "cuja união formou-se" daria a entender que a união formou algo, mas o sujeito é "o primeiro animal" (que se formou). A regência correta seria "de cuja união se formou o primeiro animal" — com a preposição "de" antes do pronome, o que não ocorre.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"cuja união resultou na formação do primeiro animal" — o verbo "resultar" rege a preposição "em" (resultar em algo). A frase "cuja união resultou na formação" está correta: "cuja" indica posse (a união dos protistas), e o verbo "resultar em" exige "em", que se contrai com o artigo "a" (formação) em "na". Não há artigo após "cuja", e a regência está perfeita. Note que a preposição "em" não precisa vir antes do pronome, pois "cujo" só exige preposição quando o verbo pede "de" — aqui, o "em" é do verbo "resultar", não do pronome.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"que a união acarretou o surgimento" — o pronome relativo "que" não pode ser usado com valor possessivo. "Que" retoma o antecedente, mas não estabelece relação de posse; para isso, seria necessário "cuja" ou "da qual". A frase "protistas em carreira solo que a união acarretou" fica sem sentido: o "que" não se liga corretamente a "união".

Alternativa E — ❌ Incorreta

"cuja união dependeu a formação" — o verbo "depender" rege a preposição "de" (depender de algo). A forma correta seria "de cuja união dependeu a formação do primeiro animal". Sem a preposição "de" antes de "cuja", a regência está quebrada — o pronome já embute o "de", mas aqui ele precisaria vir explícito antes do pronome, o que não ocorre.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a regência do verbo e a estrutura do "cujo". Em B e E, o verbo pede preposição que não está presente; em A, há artigo indevido; em D, troca-se "cujo" por "que", perdendo a posse. A única que respeita a regência do verbo ("resultar em") é a C.

Gabarito: letra C.

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