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Questão de Português — Linguagem Formal e Informal — FGV 2023

PortuguêsLinguagem Formal e Informal
Código
fg160240
Banca
FGV
Órgão
Pref SP
Ano
2023
Cargo
Prof ( )

Como ensinar a ler

 

Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. Eu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; a levaria a uma livraria para que ela visse, nos livros de arte, jardins de outras partes do mundo. Aí, seduzida pela beleza dos jardins, ela me pediria para ensinar-lhe as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.

 

Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem de vir antes.

 

Se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas. Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias.

 

É muito simples. O mundo de cada pessoa é muito pequeno. Os livros são a porta para um mundo grande. Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. Lemos a estória de um grande amor e experimentamos as alegrias e dores de um grande amor. Lemos estórias de batalhas e nos tornamos guerreiros de espada na mão, sem os perigos das batalhas de verdade. Viajamos para o passado e nos tornamos contemporâneos dos dinossauros. Viajamos para o futuro e nos transportamos para mundos que não existem ainda. Lemos as biografias de pessoas extraordinárias que lutaram por causas bonitas e nos tornamos seus companheiros de lutas. Lendo, fazemos turismo sem sair do lugar. E isso é muito bom.

 

ALVES, Rubem, Ostra feliz não faz pérola. Ed. Planeta do Brasil Ltda. São Paulo. 2021.

Texto

   

Entre as opções a seguir, assinale aquela que mostra uma modificação inadequada da língua culta para a linguagem informal.

  1. ASe eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começaria com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar. / Se eu fosse ensinar a uma criança a arte da jardinagem, não começava com as lições das pás, enxadas e tesouras de podar.
  2. BEu a levaria a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes; / Eu levaria ela a passear por parques e jardins, mostraria flores e árvores, falaria sobre suas maravilhosas simetrias e perfumes.
  3. COuviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música. / A gente ouviria junto as melodias mais gostosas e lhe falaria sobre os instrumentos que fazem a música.
  4. D(...) ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. / ... ela mesma a mim pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.
  5. EPela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas passam a ser nossas. / Pela leitura vivemos experiências que não foram nossas e então elas viram nossas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — (...) ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. / ... ela mesma a mim pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Modificação inadequada da língua culta para a informal

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que não representa uma passagem legítima da língua culta para a informal, pois a modificação proposta — "ela mesma a mim pediria" — é artificial e não coloquial: em vez de aproximar o texto da fala espontânea, ela o torna mais rebuscado e até estranho. As demais alternativas (A, B, C e E) fazem modificações que, de fato, aproximam o texto da linguagem informal, ainda que algumas apresentem desvios da norma culta.

O comando pede que se assinale a opção que mostra uma modificação inadequada da língua culta para a informal. Isso significa que devemos avaliar cada par de frases: a primeira é a versão culta (presente no texto-base), e a segunda é a suposta versão informal. A questão não pede a versão informal "correta" segundo a norma culta, mas sim aquela que não cumpre o papel de tornar o texto informal — ou seja, que falha como tentativa de coloquialização.

O texto-base de Rubem Alves é escrito em língua culta, com construções como "Eu a levaria", "lhe falaria", "ela mesma me pediria que lhe ensinasse". A tarefa é identificar qual reescrita não representa uma informalização adequada.

A técnica central é: a informalização deve aproximar a fala cotidiana, usando construções comuns na oralidade (como "a gente", "ela", "virar" no sentido de "tornar-se"). Uma modificação que afasta da fala — tornando o texto mais artificial, pomposo ou gramaticalmente estranho — é inadequada. A alternativa D faz exatamente isso: troca o pronome oblíquo átono "me" (natural e coloquial) pela forma enfática "a mim", que é típica de ênfase formal ou de fala artificial, não de informalidade genuína.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre "informal" e "errado segundo a norma culta". Muitos candidatos marcam a alternativa B ("Eu levaria ela") por ser um desvio da norma, mas a questão pede a modificação inadequada — e "Eu levaria ela" é exatamente o tipo de construção que se usa na fala informal. A inadequada é a D, que não é informal, é apenas artificial.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A modificação de "não começaria" para "não começava" é uma informalização adequada. Na fala cotidiana, é comum usar o pretérito imperfeito do indicativo no lugar do futuro do pretérito em construções hipotéticas, como em "se eu fosse você, não fazia isso". Essa é uma característica da linguagem informal brasileira. Portanto, a modificação é adequada.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A modificação de "Eu a levaria" para "Eu levaria ela" é uma informalização adequada. Na norma culta, o pronome oblíquo átono "a" é obrigatório como objeto direto; na fala informal, é comum usar o pronome reto "ela" nessa função. É um desvio da norma, mas é exatamente o que caracteriza a linguagem informal. Portanto, a modificação é adequada.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A modificação de "Ouviríamos" para "A gente ouviria" é uma informalização adequada. A expressão "a gente" é amplamente usada na fala coloquial como substituta de "nós", e a concordância verbal correspondente ("a gente ouviria") é típica da informalidade. Portanto, a modificação é adequada.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A modificação de "ela mesma me pediria" para "ela mesma a mim pediria" é inadequada. A forma "me pediria" é natural e coloquial; a forma "a mim pediria" é artificial, enfática e típica de registro formal ou de fala teatral, não de informalidade. Em vez de aproximar o texto da fala espontânea, ela o torna mais rebuscado. Portanto, é a modificação inadequada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A modificação de "passam a ser nossas" para "viram nossas" é uma informalização adequada. O verbo "virar" no sentido de "tornar-se" é coloquial e muito usado na fala cotidiana. Portanto, a modificação é adequada.

Conclusão: a questão pede a modificação inadequada — ou seja, aquela que não representa uma informalização genuína. A alternativa D é a única que falha nesse papel, pois "a mim pediria" é artificial e formal, não coloquial. As demais (A, B, C e E) são informalizações adequadas, ainda que algumas apresentem desvios da norma culta.

Gabarito: letra D

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