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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2023

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg160255
Banca
FGV
Órgão
Pref RJ
Ano
2023
Cargo
TCI (CGM RJ)

Como sabemos que o aquecimento global é real?

 

Por Carlos Tosi

 

“A primeira coisa a dizer a respeito disso é que a ciência básica por trás do mecanismo do aquecimento global – ou mudança climática, para quem quiser a versão mais sofisticada do problema – é bem simples, direta, nada controversa e está estabelecida há séculos.

 

O fato de que a atmosfera terrestre aprisiona energia solar já havia sido deduzido por Joseph Fourier há quase 200 anos. Svante Arrhenius já estabeleceu que os principais responsáveis por esse processo são o CO2 e o vapor d'água, há mais de 100.

 

Não existe, aliás, nenhuma controvérsia quanto à capacidade do dióxido de carbono de capturar calor: ela é levada em conta, por exemplo, no design de mísseis termoguiados, aqueles que perseguem o avião acrobático do herói nos filmes de ação.

 

Some-se a esses fatos bem estabelecidos apenas mais um, também nada polêmico – o de que a queima de petróleo, carvão e outros hidrocarbonetos produz CO2 – e temos uma cadeia de premissas que leva a deduções lógicas que não requerem nenhum ‘Xeroque Rolmes’: o CO2 impede que a Terra devolva ao espaço o calor recebido do Sol. Quanto mais CO2, mais calor fica aprisionado. Quanto mais petróleo usamos, mais CO2 emitimos. Usamos bastante petróleo. Logo, estamos esquentando o planeta.

 

Claro que, em se tratando de ciências físicas, cadeias dedutivas não bastam: é preciso confrontá-las com observações e experimentos. Afinal, mesmo que o encadeamento lógico, construído a partir das premissas conhecidas, seja perfeito, sempre é possível que a natureza tenha deixado alguma premissa oculta pelo caminho.

 

No caso do aquecimento global causado por atividade humana, é verdade que, pelo menos até os anos 70 do século passado, muitos cientistas especulavam se o efeito não seria autolimitante: talvez outras formas de poluição emitidas junto com o CO2 fizessem ‘sombra’ na Terra e reduzissem a radiação solar incidente (o mesmo princípio, ainda que numa escala bem menos dramática, do Inverno Nuclear). Ou talvez o aumento na evaporação de água produzisse mais nuvens e essas nuvens, sendo brancas, refletissem a luz do Sol de volta ao espaço.

 

Mas hoje sabemos que essas válvulas de escape e controle, com que imaginávamos poder contar, 40 anos atrás, simplesmente não funcionam. Mesmo a cobertura de nuvens pode, na verdade, acelerar o aquecimento.

 

Observações e experimentos conduzidos nas últimas décadas mostraram que o efeito estufa não é autolimitante e, sim, autoacelerante! Não só o ganho em nuvens e sujeira falha em equilibrar o aumento de temperatura, como a perda do gelo (branco, refletor de luz solar) nos oceanos expõe a água (escura), e o aquecimento dos solos congelados libera metano, outro gás do efeito estufa.

 

Também não faz sentido negar que o planeta esteja aquecendo. Há medições científicas do conteúdo de calor aprisionado nos oceanos e na superfície terrestre, e elas mostram clara elevação. As temperaturas globais também têm aumentado, e são as maiores, pelo menos, dos últimos mil anos. Um argumento ingênuo contra essa constatação é o de que ainda ocorrem invernos rigorosos. Mas, da mesma forma que um eventual dia frio no verão não nega o fato de que esta é uma estação, no geral, mais quente que as demais, eventuais períodos de frio intenso não desfazem a tendência geral, de longo prazo, de aquecimento do globo terrestre.

 

Pode-se argumentar, ainda, que o clima global responde a outros fatores – cientistas chamam-nos de ‘forçantes’ – para além da concentração de gases emitidos pela atividade industrial humana, como a intensidade do brilho do Sol. É verdade. A questão, portanto, é determinar quais as forçantes que predominam dentro do cenário atual.

 

Acontece que a atividade solar tem estado em declínio desde os anos 80, e ainda assim as temperaturas seguem subindo. Variações periódicas na órbita da Terra também deveriam estar nos encaminhando para um período de resfriamento e, a despeito disso, as temperaturas seguem subindo.

 

Um trabalho exaustivo de avaliação e teste da hipótese de que diferentes forçantes climáticas poderiam explicar o cenário atual deixa, como principal responsável pelo aquecimento, o acúmulo de CO2 gerado por atividade humana na atmosfera nos últimos 200 anos.

 

A saída que resta para quem insiste em negar esses fatos é apostar em alguma espécie de ilusão coletiva ou conspiração envolvendo praticamente todos os cientistas –mais de 90%, na verdade – que têm o estudo do clima e de suas variações de longo prazo como principal foco de pesquisa.

 

Dada a forma como a atividade científica é conduzida, com a rotina de críticas duras por parte de colegas e competidores, a constante reanálise de dados e a exigência de revisão dos resultados pelos pares, a ocorrência de um fenômeno assim é algo bem próximo do inconcebível.

 

Esse apelo desesperado à ilusão ou à conspiração é comum em círculos pseudocientíficos – criacionistas usam-no para explicar a exclusão de suas crenças do currículo das ciências e homeopatas, acuados, também começam a se valer dele – mas não deveria ter lugar no debate sério sobre o que a melhor ciência disponível realmente diz.”

 

Disponível em: https://revistaquestaodeciencia.com.br/questionador-questionado/2018/12/09/como-sabemos-que-o-aquecimento-global-e-real-e-causado-por-nos
Acesso em: 04/01/2023

Texto

   

A concessão é uma estratégia argumentativa caracterizada por dois movimentos retóricos: inicialmente (movimento 1), o enunciador parece conceder razão ao seu oponente; em seguida (movimento 2), o enunciador refuta a tese desse mesmo oponente.


No que se refere ao texto, é correto afirmar que esses dois movimentos estão presentes, nessa ordem, no seguinte par de parágrafos:

  1. A1 e 2;
  2. B4 e 5;
  3. C6 e 7;
  4. D10 e 11;
  5. E14 e 15.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — 10 e 11;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Estratégia argumentativa da concessão: identificando os dois movimentos

Gabarito: letra D. A concessão, como definida no enunciado, exige dois movimentos em sequência: primeiro o enunciador parece concordar com o oponente (movimento 1); depois ele refuta a tese desse oponente (movimento 2). Esse par está nos parágrafos 10 e 11: o parágrafo 10 concede que outras forçantes climáticas existem e podem influenciar o clima; o parágrafo 11 refuta essa possibilidade ao mostrar que, mesmo com o declínio da atividade solar e variações orbitais, as temperaturas seguem subindo. Como se lê no parágrafo 10: "Pode-se argumentar, ainda, que o clima global responde a outros fatores – cientistas chamam-nos de 'forçantes' – para além da concentração de gases emitidos pela atividade industrial humana, como a intensidade do brilho do Sol. É verdade." E no parágrafo 11: "Acontece que a atividade solar tem estado em declínio desde os anos 80, e ainda assim as temperaturas seguem subindo."

O comando: o que a questão pede

A questão não pergunta sobre o conteúdo do texto em si, mas sobre a estratégia argumentativa empregada. O enunciado define concessão como um movimento duplo: (1) conceder razão ao oponente e (2) refutar a tese dele. A tarefa é localizar, entre os pares de parágrafos oferecidos, aquele em que essa sequência ocorre nessa ordem. Isso exige interpretação — não basta achar uma informação explícita; é preciso reconhecer a função retórica de cada parágrafo.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto defende a tese de que o aquecimento global é real e causado pela atividade humana. Para isso, o autor antecipa e responde a objeções. A concessão é uma dessas estratégias: ele admite parcialmente um argumento contrário para, em seguida, mostrar que ele não invalida a tese. Os parágrafos 10 e 11 formam exatamente esse par: o 10 concede que existem outras forçantes climáticas (como o brilho do Sol); o 11 refuta essa possibilidade ao mostrar que, apesar do declínio solar e das variações orbitais, as temperaturas continuam subindo.

A técnica que decide: reconhecer a estrutura concessiva

A concessão é marcada por conectivos como "embora", "apesar de", "ainda que", mas também pode ser construída sem eles, pela sequência lógica entre parágrafos. No par 10-11, o movimento 1 é sinalizado por "É verdade" (concessão explícita) e o movimento 2 por "Acontece que" (refutação). Essa estrutura é típica de textos argumentativos: o autor concede para depois contrapor, fortalecendo sua posição.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre "conceder razão" e "apresentar objeção" sem refutação. Nos parágrafos 6 e 7, por exemplo, há uma objeção (a hipótese de autolimitação) e sua refutação, mas a ordem é invertida: primeiro se apresenta a objeção, depois se refuta. Já nos parágrafos 10 e 11, a ordem é exatamente a pedida: primeiro concede, depois refuta.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar concessão, procure por marcadores como "é verdade", "admite-se", "embora", "apesar de" (movimento 1) e por conectivos de oposição como "mas", "porém", "contudo", "acontece que" (movimento 2). A ordem é crucial: a concessão vem antes da refutação.

Análise das alternativas

  1. 1Conceder razão ao oponente
  2. 2Refutar a tese do oponente
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Os parágrafos 1 e 2 apresentam a ciência básica do aquecimento global, sem qualquer movimento de concessão ou refutação. O parágrafo 1 afirma que a ciência é "bem simples, direta, nada controversa"; o parágrafo 2 menciona descobertas históricas (Fourier, Arrhenius). Não há concessão a um oponente nem refutação. Erro: tangenciar — fala do tema, mas não da estratégia pedida.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Os parágrafos 4 e 5 apresentam a cadeia dedutiva e a necessidade de confrontá-la com observações. O parágrafo 4 conclui "Logo, estamos esquentando o planeta"; o parágrafo 5 ressalva que "cadeias dedutivas não bastam". Há uma ressalva, mas não uma concessão a um oponente seguida de refutação. Erro: troca de conceito — confunde ressalva metodológica com concessão argumentativa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Os parágrafos 6 e 7 apresentam uma objeção (a hipótese de autolimitação) e sua refutação. O parágrafo 6 diz "muitos cientistas especulavam se o efeito não seria autolimitante"; o parágrafo 7 refuta: "hoje sabemos que essas válvulas de escape e controle... simplesmente não funcionam". Aqui há refutação, mas não há concessão prévia — o autor não concede razão ao oponente; apenas apresenta a objeção para refutá-la. A ordem é: objeção → refutação, não concessão → refutação. Erro: contradiz a definição — falta o movimento 1.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Os parágrafos 10 e 11 apresentam exatamente os dois movimentos na ordem pedida. O parágrafo 10 concede: "Pode-se argumentar, ainda, que o clima global responde a outros fatores... É verdade." O parágrafo 11 refuta: "Acontece que a atividade solar tem estado em declínio desde os anos 80, e ainda assim as temperaturas seguem subindo." A concessão é explícita ("É verdade") e a refutação é introduzida por "Acontece que", mostrando que as forçantes naturais não explicam o aquecimento atual. Correta — é a única que cumpre a definição do enunciado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Os parágrafos 14 e 15 tratam da conspiração científica e da pseudociência. O parágrafo 14 menciona "ilusão coletiva ou conspiração"; o parágrafo 15 argumenta que isso é "inconcebível" pela forma como a ciência é conduzida. Não há concessão a um oponente; há apenas uma crítica. Erro: tangenciar — aborda a refutação de uma tese, mas sem o movimento de concessão.

Conclusão: a concessão exige dois movimentos: conceder (movimento 1) e refutar (movimento 2). Apenas os parágrafos 10 e 11 apresentam essa sequência completa, com "É verdade" (concessão) e "Acontece que" (refutação). As demais alternativas ou não apresentam concessão, ou apresentam objeção sem concessão prévia, ou tangenciam o tema.

Gabarito: letra D

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