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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FGV 2023

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
fg160262
Banca
FGV
Órgão
Pref RJ
Ano
2023
Cargo
TCI (CGM RJ)

O jornalismo de opinião pode perpetuar negacionismos? (adaptado)


Por Matheus Cervo

 

“No dia 9 de agosto de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) emitiu um dos mais completos e conclusivos relatórios sobre a grave crise ecológica e planetária que enfrentamos. O documento tem mais de 3 mil páginas, que foram escritas por aproximadamente 200 cientistas oriundos de 60 países diferentes a partir de anos de pesquisa sobre o tema, citando mais de 14 mil estudos que dão base às conclusões feitas.

 

Após apenas um mês de emissão do relatório, o jornal Zero Hora (ZH) publicou um infeliz artigo de opinião de Flávio Juarez Feijó chamado ‘Aquecimento Natural’. Apesar de ser geólogo e ser mestre em geociências, Flávio foi abraçado pelo jornal da capital gaúcha por suas opiniões descabidas, que não possuem nenhum embasamento científico.

 

Nesse artigo aprovado por ZH, ele ousou dizer que o relatório do IPCC é alarmista e que tem como meta o impedimento do crescimento de países subdesenvolvidos como o Brasil. Como supostos argumentos científicos, afirma que as mudanças climáticas atuais fazem parte de um ciclo natural da terra e que não é necessário reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Ainda, opina que as metas de carbono zero fariam a sociedade voltar a andar a cavalo e que a agricultura do nosso país voltaria a ser movida por arados a boi.

 

Em letras miúdas quase imperceptíveis ao(à) leitor(a), o jornal ZH escreve no rodapé da página do artigo: ‘Os textos não representam a opinião do Grupo RBS’. Contudo, essa não é a primeira vez que ZH abraça as opiniões de Flávio, já que publicou outro texto do geólogo em 2018 chamado ‘Descarbonizar não é preciso’. Neste texto, sem nenhuma referência científica, diz que o derretimento das geleiras não acrescentaria uma ‘gota no oceano’, que o gelo da Antártica está protegido e que o nível do mar não irá subir. Ainda assim, não se contém e diz que, caso várias áreas do planeta derretam devido ao ‘aquecimento natural’, deve-se aproveitar as ‘benesses’ do contexto e criar novas rotas de navegação e vastas áreas de agricultura (!).

 

Não é preciso dizer mais nada para afirmar que escolhas editoriais como essa são perigosas e devem ser apontadas como tal. Pequenas notas em rodapé não devem justificar a falta de responsabilidade de veículos de comunicação para com a pauta do colapso climático. É importante dizer que essas escolhas estão sendo feitas por muitos jornais brasileiros, como Folha de São Paulo, que publicou um péssimo texto de Leandro Narloch chamado ‘Negacionistas e aceitacionistas se equivalem na reação histérica contra quem questiona seus dogmas’. A publicação foi feita apenas 8 dias depois da emissão do relatório do IPCC e apenas 3 dias após manifestação do ombudsman da Folha contra o mesmo colunista.

 

Esse pronunciamento do ombudsman só ocorreu devido à grande polêmica que os diversos textos negacionistas de Narloch causaram na opinião pública através das redes sociais. Por isso, devemos nos manter alerta às decisões editoriais como as de Zero Hora e nos manifestar criticamente para que o jornalismo brasileiro não aja como se o colapso climático fosse questão de opinião.”

 

Disponível em: https://jornalismoemeioambiente.com/2021/09/13/o-jornalismo-de-opiniao-pode-perpetuar-negacionismos-%ef%bf%bc/

Acesso em: 04/01/2023

Texto

   

“Por isso, devemos nos manter alerta às decisões editoriais como as de Zero Hora e nos manifestar criticamente para que o jornalismo brasileiro não aja como se o colapso climático fosse questão de opinião.” (6º parágrafo, último período)


O texto é predominantemente argumentativo (no que se refere ao seu modo de organização discursiva) e desempenha majoritariamente as funções referencial e emotiva (no que se refere ao seu propósito comunicativo).


Seu último período, no entanto, subverte esse padrão, na medida em que evidencia uma predominância:

  1. Ado modo narrativo e da função metalinguística;
  2. Bdo modo descritivo e da função fática;
  3. Cdo modo injuntivo e da função conativa;
  4. Ddo modo argumentativo e da função poética;
  5. Edo modo expositivo e da função fática.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — do modo injuntivo e da função conativa;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Modo injuntivo e função conativa no trecho final

Gabarito: letra C. O último período do texto subverte o padrão argumentativo ao assumir predominância do modo injuntivo e da função conativa, pois o autor deixa de apenas defender uma tese e passa a orientar diretamente o leitor com verbos no imperativo: "devemos nos manter alerta" e "nos manifestar criticamente". A passagem que ancora essa leitura é:

"Por isso, devemos nos manter alerta às decisões editoriais como as de Zero Hora e nos manifestar criticamente para que o jornalismo brasileiro não aja como se o colapso climático fosse questão de opinião."

A função conativa (ou apelativa) é aquela que busca influenciar o comportamento do interlocutor, e o modo injuntivo é o tipo textual que prescreve ações, dá instruções ou conselhos. No trecho, o autor não apenas informa ou argumenta: ele convoca o leitor a agir, o que caracteriza exatamente essa mudança de propósito.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique qual modo de organização discursiva e qual função da linguagem passam a predominar no último período, em contraste com o restante do texto, que é argumentativo e centrado nas funções referencial e emotiva. A palavra-chave é "subverte": você deve perceber que o autor muda de estratégia no fechamento, deixando de apenas expor e defender ideias para convocar o leitor a uma ação.

O texto e o movimento argumentativo

O texto como um todo é um artigo de opinião que critica a publicação de textos negacionistas sobre mudanças climáticas em jornais como Zero Hora e Folha de S. Paulo. O autor apresenta fatos (o relatório do IPCC), critica os artigos e, ao final, conclui com um apelo à ação: manter-se alerta e manifestar-se criticamente. Esse apelo é o que caracteriza a função conativa — o foco no receptor, tentando persuadi-lo a fazer algo — e o modo injuntivo, que é típico de textos que orientam, aconselham ou prescrevem.

A técnica que decide

Para resolver, você precisa dominar duas classificações:

  1. Modos de organização discursiva: narrativo (conta fatos), descritivo (caracteriza), expositivo (informa), argumentativo (defende tese) e injuntivo (orienta, prescreve).

  2. Funções da linguagem: referencial (informar), emotiva (expressar emoções do emissor), conativa (persuadir o receptor), fática (testar o canal), metalinguística (falar do próprio código) e poética (valorizar a mensagem).

No trecho final, os verbos "devemos" e "manifestar" são marcas claras de injunção: o autor não está apenas dizendo o que pensa, mas dizendo o que o leitor deve fazer. Isso é função conativa, pois o objetivo é influenciar o comportamento do interlocutor.

Análise das alternativas

Critério

Modo de organização discursiva

Função da linguagem

Padrão do texto (predominante)

Argumentativo

Referencial e emotiva

Último período (subversão)

Injuntivo

Conativa

Marca linguística no trecho

Verbos no imperativo ("devemos", "manifestar")

Foco no interlocutor, convocação à ação

Modos de organização discursiva
  • 1Narrativo
    • conta fatos
  • 2Descritivo
    • caracteriza
  • 3Expositivo
    • informa
  • 4Argumentativo
    • defende tese
  • 5Injuntivo
    • orienta, prescreve
  • 6Funções da linguagem
    • Referencial
      • informar
    • Emotiva
      • expressar emoções
    • Conativa
      • persuadir o receptor
    • Fática
      • testar o canal
    • Metalinguística
      • falar do código
    • Poética
      • valorizar a mensagem
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Modo narrativo e função metalinguística. O trecho não conta uma história (não há enredo, personagens, tempo narrativo) e não fala sobre a própria linguagem. A função metalinguística ocorreria se o texto explicasse o significado de uma palavra ou discutisse o código. Aqui, o autor convoca à ação, não explica o código. Erro: troca de conceitos — confunde injunção com narração e conativa com metalinguística.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Modo descritivo e função fática. Não há caracterização de pessoas, objetos ou ambientes; o trecho é uma exortação, não uma descrição. A função fática é a que testa o canal de comunicação (ex.: "alô", "está me ouvindo?"), o que não ocorre aqui. Erro: troca de conceitos — confunde injunção com descrição e conativa com fática.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Modo injuntivo e função conativa. Como visto, o trecho orienta o leitor a agir ("devemos nos manter alerta", "nos manifestar criticamente"), o que é a essência do modo injuntivo. A função conativa é exatamente a que busca persuadir o interlocutor a adotar um comportamento, e é isso que o autor faz ao convocar o leitor. A passagem citada no início comprova essa leitura.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Modo argumentativo e função poética. O trecho não é predominantemente argumentativo — ele é uma conclusão apelativa, não uma defesa de tese com argumentos. A função poética valoriza a mensagem em si (uso estético da linguagem, figuras, ritmo), o que não é o foco aqui. Erro: contradiz o texto — o trecho subverte o argumentativo, não o mantém.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Modo expositivo e função fática. O modo expositivo busca informar com imparcialidade, o que não ocorre: o trecho é claramente opinativo e apelativo. A função fática, como dito, testa o canal, não se aplica. Erro: troca de conceitos — confunde injunção com exposição e conativa com fática.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre função conativa (apelar ao receptor) e função fática (testar o canal), além de tentar fazer você achar que o trecho é argumentativo por estar no final de um texto argumentativo. A chave é perceber o verbo no imperativo e a convocação direta ao leitor.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o modo e a função, pergunte: o autor quer que eu faça algo? Se sim, é injuntivo e conativo. Se ele só quer me informar, é expositivo/referencial. Se quer me convencer com argumentos, é argumentativo. Se quer que eu sinta algo, é emotivo.

Conclusão: o último período do texto é uma convocação à ação, típica do modo injuntivo e da função conativa. As demais alternativas ou trocam os conceitos ou contradizem o que o trecho expressa. Gabarito: letra C.

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