Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FGV 2023
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
fg160278
Banca
FGV
Órgão
Pref Niterói
Ano
2023
Cargo
Ana ( )
Eis abaixo o início do romance Esaú e Jacó, de Machado de Assis: “Era a primeira vez que as duas iam ao Morro do Castelo. Começaram de subir pelo lado da Rua do Carmo. Muita gente há no Rio de Janeiro que nunca lá foi, muita haverá morrido, muita mais nascerá e morrerá sem lá pôr os pés. Nem todos podem dizer que conhecem uma cidade inteira. Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo”. Considerando-se esse segmento inicial da obra, depreende-se que:
Aa narrativa é direta, sem digressões;
Bo texto é de caráter autobiográfico;
Ca narração é feita em linguagem popular;
Do texto mostra inserções descritivas;
Eo narrador do texto é onisciente.
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GabaritoE — o narrador do texto é onisciente.
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Narrador onisciente no início de Esaú e Jacó
Gabarito: letra E. O narrador do texto é onisciente porque conhece não apenas os fatos narrados, mas também os pensamentos e a vida interior das personagens — como se vê na passagem em que ele revela o que o velho inglês "confiava" ao narrador. A onisciência é a marca do narrador de 3ª pessoa que tudo sabe, e o trecho prova isso ao expor uma confidência íntima que só um narrador que tudo conhece poderia relatar.
"Um velho inglês, que aliás andara terras e terras, confiava-me há muitos anos em Londres que de Londres só conhecia bem o seu clube, e era o que lhe bastava da metrópole e do mundo."
Aqui, o narrador não apenas descreve o que vê (as duas subindo o morro), mas penetra na experiência passada e na opinião do velho inglês — algo que um narrador-observador comum, limitado ao que vê, não poderia saber. Essa capacidade de acessar o interior das personagens é a definição clássica de narrador onisciente.
O comando: "depreende-se"
O verbo "depreender" indica que a questão pede uma inferência — não algo dito literalmente, mas uma conclusão que o texto autoriza por pistas. No caso, a pista é a própria estrutura narrativa: quem conta a história, de que ponto de vista, e o que esse narrador é capaz de saber. A resposta correta é a que melhor explica o foco narrativo revelado no trecho.
O texto: narração com digressão e onisciência
O trecho é o início de um romance, portanto um texto narrativo. O narrador conta a ação ("Começaram de subir pelo lado da Rua do Carmo"), mas logo se afasta do fato para fazer uma digressão — um comentário geral sobre o Rio de Janeiro e sobre o velho inglês. Essa digressão é a chave: ela mostra que o narrador não se limita ao presente da cena; ele tem conhecimento amplo, inclusive de conversas passadas em Londres. É exatamente essa liberdade de transitar entre tempos e acessar confidências que caracteriza a onisciência.
A técnica: o que é narrador onisciente
Narrador onisciente é aquele que sabe tudo sobre a história: os fatos, os pensamentos, os sentimentos e até o passado das personagens. Ele não participa da ação (ou participa como testemunha, como aqui, em que o narrador é também personagem secundário — "confiava-me"), mas tem acesso privilegiado à mente das personagens. No trecho, o narrador revela o que o velho inglês "confiava" a ele — uma informação íntima que só um narrador onisciente poderia trazer. As demais alternativas falham porque ou contradizem o texto, ou extrapolam, ou confundem conceitos.
Narrador
1Onisciente (3ª pessoa)
Sabe fatos e ações
Acessa pensamentos e confidências
Transita entre tempos (passado em Londres)
2Observador (limita-se ao que vê)
Não acessa o interior
3Personagem (participa da ação)
"confiava-me" — testemunha
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a narrativa é "direta, sem digressões". O texto contradiz isso: logo após narrar a subida, o narrador faz uma longa reflexão sobre quem conhece ou não a cidade, e depois conta a história do velho inglês. Isso é uma digressão — um afastamento do fio narrativo principal. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o texto é "de caráter autobiográfico". Não há nenhuma pista de que o narrador seja o próprio Machado de Assis contando sua vida. O narrador é uma personagem que relata um episódio, mas isso não torna o texto uma autobiografia. A alternativa extrapola — acrescenta uma informação que o texto não sustenta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a narração é feita em "linguagem popular". O texto usa linguagem erudita e formal, típica de Machado de Assis: "confiava-me", "andara terras e terras", "era o que lhe bastava da metrópole e do mundo". Não há marcas de oralidade ou coloquialismo. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o texto "mostra inserções descritivas". Há, sim, uma breve descrição do ato de subir, mas o trecho é predominantemente narrativo e digressivo, não descritivo. A descrição exigiria um detalhamento sensorial de pessoas, lugares ou objetos — o que não ocorre. A alternativa tangencia o texto: fala de um recurso que não é o predominante nem o que caracteriza o trecho.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como provado na abertura, o narrador é onisciente porque conhece o passado e a intimidade das personagens. A passagem do velho inglês é a prova: o narrador sabe o que o inglês "confiava" a ele, e reproduz essa confidência. Esse conhecimento profundo é a marca do narrador onisciente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato com a alternativa D ("inserções descritivas"), que parece plausível, mas o trecho não descreve — ele digride e revela o interior das personagens. A onisciência está na capacidade de acessar o que não é visível.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o narrador onisciente, pergunte: o narrador sabe o que as personagens pensam ou sentem? Se sim, é onisciente. No trecho, ele sabe o que o velho inglês confiava — logo, onisciente.