Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2023
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg160285
Banca
FGV
Órgão
TJ RN
Ano
2023
Millôr Fernandes escreveu um livro que mostra humoristicamente uma série de composições infantis, entre elas a que vai a seguir: “A galinha é um bicho com seis lados: esquerdo, direito, em cima, embaixo, atrás e na frente. Está sempre limpando os pés como a mamãe manda que a gente faça quando entra em casa e a gente não faz. Tem um bico que serve para bicar e um cacarejo que serve para dizer que ela botou ovo. Quando ela não cacareja, então fica resmungando baixinho feito vovó. Quando a cozinheira vai matar ela, a gente morre de pena, mas na hora do almoço ela fica tão gostosa que a gente nem se lembra”. O observador, que realiza uma descrição, não descreve tudo o que vê por causa de suas limitações; a limitação do observador do texto acima é proveniente:
Adas condições físicas do local onde está o animal descrito;
Bdo próprio referente, pois uma galinha é um tipo de ave não muito conhecido pelos humanos;
Cde caráter psicológico, pois, por algum motivo interior, não chega a ver o animal como ele é de fato;
Dde seu posicionamento, pois onde se posiciona não consegue ver detalhes do animal descrito;
Ede conhecimento, pois, sendo criança, não conhece tudo sobre o tema.
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GabaritoE — de conhecimento, pois, sendo criança, não conhece tudo sobre o tema.
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A limitação do observador na descrição infantil
Gabarito: letra E. A limitação do observador é de conhecimento, pois, sendo criança, não conhece tudo sobre o tema. O texto mostra uma descrição ingênua e cheia de imprecisões típicas do universo infantil — como dizer que a galinha tem "seis lados" ou que "está sempre limpando os pés" —, o que revela falta de conhecimento sobre o animal, e não um problema físico, psicológico ou de posicionamento. A passagem que ancora essa leitura é a própria composição infantil, que atribui à galinha características humanas e simplificadas, evidenciando a visão limitada de quem descreve.
O comando pede que se identifique a causa da limitação do observador. Não se trata de compreender o que o texto diz literalmente, mas de inferir — a partir das marcas textuais — por que a descrição é tão peculiar. A banca quer que o candidato perceba que a descrição é limitada pelo repertório de quem a faz: uma criança.
O texto é uma composição infantil humorística. A criança descreve a galinha com base no que conhece do seu cotidiano: "a mamãe manda que a gente faça quando entra em casa", "feito vovó", "a cozinheira vai matar ela". Ela não descreve a galinha como um ornitólogo faria; descreve-a a partir de experiências pessoais e limitadas. A limitação, portanto, não está no local, no referente, na psicologia ou na posição — está no conhecimento que a criança tem do mundo.
A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza esta causa, ou exige acrescentar algo de fora? A alternativa correta é a única que se sustenta inteiramente nas pistas do texto — a criança fala de "seis lados", de "limpar os pés", de "cacarejo" e de "vovó", tudo isso revela um repertório infantil limitado, não uma limitação física, psicológica ou de posição.
PEGA ESSA DICA!
Grife o comando: "a limitação do observador é proveniente" — isso pede uma inferência causal, não uma informação explícita. Procure a pista que liga a descrição à causa: a ingenuidade e a simplificação são marcas de falta de conhecimento.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona nenhuma condição física do local onde a galinha está. A descrição não é limitada por obstáculos visuais ou ambientais; a criança descreve a galinha com riqueza de detalhes ("seis lados", "bico", "cacarejo"), o que mostra que ela vê o animal, mas o interpreta de forma simplificada. A alternativa inventa uma causa que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto mostra que a criança conhece a galinha o suficiente para descrevê-la: sabe que tem bico, que cacareja, que bota ovo, que é comida no almoço. A galinha é um animal comum no cotidiano infantil, não "não muito conhecido pelos humanos". A alternativa contradiz a familiaridade evidente na descrição.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação com opinião embutida. O texto não sugere nenhum bloqueio psicológico ou motivo interior que impeça a criança de ver o animal "como ele é de fato". A descrição é ingênua, mas isso se deve à falta de conhecimento, não a um conflito emocional. A alternativa acrescenta uma interpretação psicológica que o texto não autoriza.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não indica que o observador esteja mal posicionado ou que não consiga ver detalhes. Pelo contrário, a criança descreve vários detalhes (lados, bico, cacarejo, pés). A limitação não é de visão física, mas de compreensão — ela vê, mas não entende tudo o que vê.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta: inferência ancorada no texto. A descrição é típica de uma criança: ela compara a galinha a "vovó", fala que "a mamãe manda" limpar os pés, e atribui à galinha "seis lados" como se fosse um objeto geométrico. Essas marcas revelam conhecimento limitado sobre o animal — a criança descreve com base no que aprendeu em casa, não com base em um saber científico ou completo. A limitação é, portanto, de conhecimento, exatamente como afirma a alternativa.
Conclusão: a questão ensina que, em inferência, a resposta deve ser obrigada pelas pistas do texto. A criança não tem limitação física, psicológica ou de posição — ela tem repertório infantil, e é isso que limita sua descrição. Gabarito: letra E.