Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa) — FGV 2023

PortuguêsVozes (Voz Passiva e Voz Ativa)
Código
fg160364
Banca
FGV
Órgão
TJ SE
Ano
2023
Cargo
AJ ( )

Células-tronco podem ser o segredo da origem e evolução de seres multicelulares

[fragmento; adaptado]

Por Bruno Vaiano

 

Ernst Haeckel era estudante de medicina, filho de um conselheiro da corte prussiana, e “provavelmente o homem mais bonito que eu já havia visto”, escreveu um de seus alunos. Ele e sua prima de primeiro grau, Anna, eram apaixonados desde a adolescência – o que, longe de ser um problema, era o sonho de todo clã aristocrático da Europa no século 19: Darwin, por exemplo, se casou com sua prima, e o irmão dela, com a irmã de Darwin. A ideia era manter a herança na família e preservar o poder dos sobrenomes.

 

Haeckel era o partidão perfeito, não fosse um problema: sua semelhança com Darwin não parava no casamento endogâmico. Ele também queria ser naturalista. O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico. Para convencer a família de que conseguiria sustentar sua prima-noiva, ele saiu em turnê pelo sul da Europa, estudando animais marinhos nas praias e desenhando-os em minúcias.

 

Deu certo. Haeckel escreveu best-sellers, virou professor universitário e suas ilustrações foram uma sensação. Com a grana no bolso, casou-se com Anna. Um ano e meio depois, aos 29 anos, ela morreu (talvez de febre tifoide, mas não houve diagnóstico). Deprê e niilista, ele abandonou a fé religiosa e abraçou de vez a evolução por seleção natural. Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies.

 

Nem todos os insights de Haeckel estavam certos. Mas, dentre suas hipóteses de arrepiar os cabelos da Igreja, uma, em particular, sobrevive na biologia: nós (e todos os animais da Terra) somos netos do Bob Esponja.

 

Questões porosas

As esponjas são tubos de células que se apoiam em rochas, no fundo do mar. A água entra pelas paredes desses cilindros, que filtram os nutrientes e deixam o resto sair pela abertura no topo. [...]

 

Em 1874, Haeckel percebeu que as células filtradoras de comida das esponjas, os coanócitos, têm exatamente a mesma arquitetura de micróbios aquáticos chamados coanoflagelados. Eles são criaturinhas microscópicas inofensivas e onipresentes nas águas da Terra [...].

Pertencem ao reino Protista, aquele em que os biólogos põem as coisas que eles não sabem direito o que são (rs). Um saco de gatos taxonômico. Protistas não são fungos, animais nem plantas. Mas suas células têm estruturas complexas que esses seres vivos grandões também apresentam – como um núcleo para guardar o DNA, e usinas de geração de energia chamadas mitocôndrias. [...]

 

Existem protistas multicelulares, visíveis a olho nu, como as algas (pois é, elas não são plantas). Mas muitos, como as amebas e protozoários, são feitos de uma célula só. É o caso dos coanoflagelados. Vistos no microscópio, eles têm a forma de uma bola em cima de um cone. Como a silhueta de um buraco de fechadura, ou de um peão de xadrez. A bola é a célula em si, onde fica o DNA e o resto do maquinário biológico. Já o cone é formado por 30 ou 40 microvilosidades, filamentos que parecem tentáculos de uma água-viva. Do centro desse cone, emerge um filamento maior, chamado flagelo, parecido com o que equipa os espermatozoides – e com a mesma função: nadar. O conjunto da obra fica assim: ~>O

 

É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula, como ocorre com o espermatozoide. Mas a verdade é que ele nada ao contrário, com o cone e o rabinho para frente. Como um avião com hélice no nariz: O<~

 

O coanoflagelado se move assim porque as microvilosidades atuam como “boca”: vão captando bactérias e pequenas partículas de material orgânico que pairam na água.

 

A sacada de Haeckel foi que uma esponja-do-mar funciona como uma colônia de coanoflagelados, que se uniram em uma muralha para aumentar a área de captação de comida. A diferença é que eles abanam coletivamente seus flagelos – lembre-se, os “rabinhos” – para sugar a água para dentro da esponja, e não para se mover. Um é Maomé indo à montanha, o outro atrai a montanha para Maomé. Os coanócitos das esponjas atuais seriam herdeiros de coanoflagelados. Protistas em carreira solo que se juntaram para formar o primeiro animal, o ancestral comum de toda a fauna da Terra.

 

Vale esclarecer algo: isso não quer dizer que nossos ancestrais sejam os mesmos coanoflagelados que hoje nadam pelados em Santos. Eles eram, isso sim, um protista pré-histórico, que existiu há uns 700 milhões de anos, muito parecido tanto com os coanoflagelados quanto com as células das esponjas – e cuja linhagem se bifurcou para dar origem a ambos. [...]

 

Carambolas

A hipótese esponjosa de Haeckel permaneceu incólume, por 140 anos, como nossa melhor explicação para a origem dos animais. Até que apareceram as carambolas do mar – nome popular dos ctenóforos, bichos aquáticos translúcidos e gelatinosos, que lembram águas-vivas com forma de bola de rugby. Em 2017, um estudo comparativo de genomas identificou as carambolas, e não as esponjas, na raiz da irradiação dos animais. E essa conclusão tem respaldo no registro fóssil: no sul da China, há um fóssil de carambola de 631 milhões de anos na formação geológica de Doushantuo – uma data que corresponde à época mais aceita para a origem dos seres multicelulares.

 

Nem uma coisa nem outra são suficientes para tirar o trono pioneiro das esponjas. Afinal, sempre dá para encontrar um fóssilmais antigo – neste exato momento, uma potencial esponja de 890 milhões de anos está gerando debate entre paleontólogos. O registro geológico não é uma foto perfeita da realidade, principalmente quando estamos tratando de animais moles, que geralmente se decompõem sem deixar rastro. Além disso, análises filogenéticas estão sujeitas a alguma incerteza: métodos e pesquisadores diferentes extraem conclusões distintas dos mesmos DNAs.

 

Seja como for, essas duas descobertas reacendem o debate. E afora as carambolas, há um outro front de pesquisa que desafia as ideias de Haeckel: a investigação de protistas ainda mais estranhos que os coanoflagelados, que alternam entre estágios de vida uni e multicelulares.

 

Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia

/celulas-troncopodem- ser-o-segredo-da-origem-e-evolucao-de-seresmulticelulares/

Texto 1

 

“Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies.” (Texto 1, 3º parágrafo)

 

A alternativa em que a oração sublinhada foi convertida para a voz passiva SEM alteração substancial de significado e SEM desvio em relação à norma padrão é:

  1. Aque haviam indicado o grau de parentesco entre as espécies;
  2. Bque havia sido indicado o grau de parentesco entre as espécies;
  3. Conde o grau de parentesco entre as espécies fora indicado;
  4. Dcujo grau de parentesco entre as espécies seria indicado;
  5. Eem que era indicado o grau de parentesco entre as espécies.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — em que era indicado o grau de parentesco entre as espécies.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Conversão para a voz passiva em oração adjetiva

Gabarito: letra E. A oração sublinhada "que indicavam o grau de parentesco entre as espécies" está na voz ativa, com o verbo "indicavam" no pretérito imperfeito do indicativo. A conversão correta para a voz passiva analítica exige manter o mesmo tempo verbal e transformar o objeto direto "o grau de parentesco" em sujeito paciente. A alternativa E faz exatamente isso: "em que era indicado o grau de parentesco entre as espécies", com o verbo "era indicado" no pretérito imperfeito, concordando com o sujeito singular. As demais alternativas alteram o tempo verbal, o sujeito ou a estrutura, incorrendo em desvios.

O comando da questão

O enunciado pede a conversão da oração sublinhada para a voz passiva, com dois requisitos: sem alteração substancial de significado e sem desvio em relação à norma padrão. Isso significa que devemos:

  • Identificar o tempo verbal da forma ativa (pretérito imperfeito do indicativo) e reproduzi-lo na locução passiva (verbo auxiliar "ser" no mesmo tempo + particípio).

  • Transformar o objeto direto da ativa em sujeito paciente da passiva.

  • Manter o referente do pronome relativo "que" (as árvores da vida) e a função sintática da oração (adjetiva restritiva).

O texto e a oração em análise

No trecho do texto 1, 3º parágrafo:

"Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies."

A oração sublinhada é adjetiva restritiva, introduzida pelo pronome relativo "que", que retoma "imensas árvores da vida na Terra". O verbo "indicavam" está na voz ativa, no pretérito imperfeito do indicativo, e o termo "o grau de parentesco entre as espécies" é o objeto direto.

A técnica: transposição de vozes verbais

Na conversão da voz ativa para a passiva analítica, o objeto direto da ativa vira sujeito paciente da passiva, e o verbo principal assume a forma de particípio, antecedido do verbo auxiliar ser no mesmo tempo e modo do verbo ativo. Veja o esquema:

Voz ativa

Voz passiva analítica

Sujeito agente + VTD + OD

Sujeito paciente + ser (mesmo tempo) + particípio + (agente da passiva)

As árvores indicavam o grau

O grau era indicado (pelas árvores)

No caso, o verbo "indicavam" está no pretérito imperfeito do indicativo. Portanto, a passiva deve usar "era indicado" (pretérito imperfeito do indicativo do verbo ser + particípio). O sujeito paciente é "o grau de parentesco entre as espécies", que concorda com o verbo no singular.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"que haviam indicado o grau de parentesco entre as espécies" — Esta forma está na voz ativa, não na passiva. "Haviam indicado" é locução de pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo, na voz ativa. Além disso, o tempo verbal foi alterado (pretérito imperfeito → mais-que-perfeito), o que viola o requisito de sem alteração substancial de significado. Erro: troca de tempo verbal e manutenção da voz ativa.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"que havia sido indicado o grau de parentesco entre as espécies" — Aqui há um problema de concordância: o sujeito "o grau de parentesco" é singular, mas o verbo "havia" está no singular, o que até concorda, mas a estrutura "havia sido indicado" está no pretérito mais-que-perfeito composto da passiva, alterando o tempo. Além disso, a oração ficou sem sujeito claro: "que havia sido indicado o grau..." — o "que" não tem função sintática definida, pois a passiva exige que o sujeito paciente seja o termo que o pronome relativo retoma. Aqui, "que" não retoma "árvores", mas sim "o grau", o que quebra a coesão. Erro: alteração de tempo e quebra da referência do pronome relativo.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"onde o grau de parentesco entre as espécies fora indicado" — O pronome relativo "onde" só pode ser usado para indicar lugar físico. No texto, o antecedente é "árvores da vida na Terra", que não é um lugar físico, mas um conceito. Além disso, "fora indicado" está no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, alterando o tempo. Erro: uso indevido de "onde" e alteração de tempo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"cujo grau de parentesco entre as espécies seria indicado" — O pronome relativo "cujo" estabelece relação de posse entre o antecedente e o termo seguinte. No texto, não há relação de posse entre "árvores" e "grau de parentesco"; o que se diz é que as árvores indicavam o grau. Além disso, "seria indicado" está no futuro do pretérito, alterando o tempo. Erro: troca do pronome relativo e alteração de tempo.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"em que era indicado o grau de parentesco entre as espécies" — Esta alternativa mantém o pretérito imperfeito do indicativo ("era indicado"), transforma o objeto direto "o grau de parentesco" em sujeito paciente, e usa o pronome relativo "em que", que retoma corretamente "árvores da vida na Terra" (lugar figurado, mas aceito como "em que"). A concordância está correta: "o grau" (singular) com "era indicado" (singular). Não há alteração substancial de significado. É a conversão perfeita.

Conclusão

A alternativa E é a única que atende aos dois requisitos: mesmo tempo verbal (pretérito imperfeito) e estrutura passiva correta (ser + particípio, com sujeito paciente). As demais ou alteram o tempo, ou usam pronomes relativos inadequados, ou quebram a concordância.

PEGA ESSA DICA!

Na transposição de vozes, nunca mude o tempo verbal. Se o verbo ativo está no pretérito imperfeito, a passiva deve usar "era + particípio". Desconfie de alternativas que trocam o tempo ("havia", "fora", "seria").

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora trocar o tempo verbal e usar "onde" ou "cujo" para confundir. Lembre-se: "onde" só para lugar físico; "cujo" indica posse.

Gabarito: letra E

Link permanente: /questoes/fg160364