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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FGV 2023

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fg160478
Banca
FGV
Órgão
TJ SE
Ano
2023
Cargo
AJ ( )

Células-tronco podem ser o segredo da origem e evolução de seres multicelulares

[fragmento; adaptado]

Por Bruno Vaiano

 

Ernst Haeckel era estudante de medicina, filho de um conselheiro da corte prussiana, e “provavelmente o homem mais bonito que eu já havia visto”, escreveu um de seus alunos. Ele e sua prima de primeiro grau, Anna, eram apaixonados desde a adolescência – o que, longe de ser um problema, era o sonho de todo clã aristocrático da Europa no século 19: Darwin, por exemplo, se casou com sua prima, e o irmão dela, com a irmã de Darwin. A ideia era manter a herança na família e preservar o poder dos sobrenomes.

 

Haeckel era o partidão perfeito, não fosse um problema: sua semelhança com Darwin não parava no casamento endogâmico. Ele também queria ser naturalista. O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico. Para convencer a família de que conseguiria sustentar sua prima-noiva, ele saiu em turnê pelo sul da Europa, estudando animais marinhos nas praias e desenhando-os em minúcias.

 

Deu certo. Haeckel escreveu best-sellers, virou professor universitário e suas ilustrações foram uma sensação. Com a grana no bolso, casou-se com Anna. Um ano e meio depois, aos 29 anos, ela morreu (talvez de febre tifoide, mas não houve diagnóstico). Deprê e niilista, ele abandonou a fé religiosa e abraçou de vez a evolução por seleção natural. Viciou-se em trabalho, dormia quatro horas por noite e começou a traçar imensas árvores da vida na Terra, que indicavam o grau de parentesco entre as espécies.

 

Nem todos os insights de Haeckel estavam certos. Mas, dentre suas hipóteses de arrepiar os cabelos da Igreja, uma, em particular, sobrevive na biologia: nós (e todos os animais da Terra) somos netos do Bob Esponja.

 

Questões porosas

As esponjas são tubos de células que se apoiam em rochas, no fundo do mar. A água entra pelas paredes desses cilindros, que filtram os nutrientes e deixam o resto sair pela abertura no topo. [...]

 

Em 1874, Haeckel percebeu que as células filtradoras de comida das esponjas, os coanócitos, têm exatamente a mesma arquitetura de micróbios aquáticos chamados coanoflagelados. Eles são criaturinhas microscópicas inofensivas e onipresentes nas águas da Terra [...].

Pertencem ao reino Protista, aquele em que os biólogos põem as coisas que eles não sabem direito o que são (rs). Um saco de gatos taxonômico. Protistas não são fungos, animais nem plantas. Mas suas células têm estruturas complexas que esses seres vivos grandões também apresentam – como um núcleo para guardar o DNA, e usinas de geração de energia chamadas mitocôndrias. [...]

 

Existem protistas multicelulares, visíveis a olho nu, como as algas (pois é, elas não são plantas). Mas muitos, como as amebas e protozoários, são feitos de uma célula só. É o caso dos coanoflagelados. Vistos no microscópio, eles têm a forma de uma bola em cima de um cone. Como a silhueta de um buraco de fechadura, ou de um peão de xadrez. A bola é a célula em si, onde fica o DNA e o resto do maquinário biológico. Já o cone é formado por 30 ou 40 microvilosidades, filamentos que parecem tentáculos de uma água-viva. Do centro desse cone, emerge um filamento maior, chamado flagelo, parecido com o que equipa os espermatozoides – e com a mesma função: nadar. O conjunto da obra fica assim: ~>O

 

É de se imaginar que esse rabinho ficasse atrás, empurrando a célula, como ocorre com o espermatozoide. Mas a verdade é que ele nada ao contrário, com o cone e o rabinho para frente. Como um avião com hélice no nariz: O<~

 

O coanoflagelado se move assim porque as microvilosidades atuam como “boca”: vão captando bactérias e pequenas partículas de material orgânico que pairam na água.

 

A sacada de Haeckel foi que uma esponja-do-mar funciona como uma colônia de coanoflagelados, que se uniram em uma muralha para aumentar a área de captação de comida. A diferença é que eles abanam coletivamente seus flagelos – lembre-se, os “rabinhos” – para sugar a água para dentro da esponja, e não para se mover. Um é Maomé indo à montanha, o outro atrai a montanha para Maomé. Os coanócitos das esponjas atuais seriam herdeiros de coanoflagelados. Protistas em carreira solo que se juntaram para formar o primeiro animal, o ancestral comum de toda a fauna da Terra.

 

Vale esclarecer algo: isso não quer dizer que nossos ancestrais sejam os mesmos coanoflagelados que hoje nadam pelados em Santos. Eles eram, isso sim, um protista pré-histórico, que existiu há uns 700 milhões de anos, muito parecido tanto com os coanoflagelados quanto com as células das esponjas – e cuja linhagem se bifurcou para dar origem a ambos. [...]

 

Carambolas

A hipótese esponjosa de Haeckel permaneceu incólume, por 140 anos, como nossa melhor explicação para a origem dos animais. Até que apareceram as carambolas do mar – nome popular dos ctenóforos, bichos aquáticos translúcidos e gelatinosos, que lembram águas-vivas com forma de bola de rugby. Em 2017, um estudo comparativo de genomas identificou as carambolas, e não as esponjas, na raiz da irradiação dos animais. E essa conclusão tem respaldo no registro fóssil: no sul da China, há um fóssil de carambola de 631 milhões de anos na formação geológica de Doushantuo – uma data que corresponde à época mais aceita para a origem dos seres multicelulares.

 

Nem uma coisa nem outra são suficientes para tirar o trono pioneiro das esponjas. Afinal, sempre dá para encontrar um fóssilmais antigo – neste exato momento, uma potencial esponja de 890 milhões de anos está gerando debate entre paleontólogos. O registro geológico não é uma foto perfeita da realidade, principalmente quando estamos tratando de animais moles, que geralmente se decompõem sem deixar rastro. Além disso, análises filogenéticas estão sujeitas a alguma incerteza: métodos e pesquisadores diferentes extraem conclusões distintas dos mesmos DNAs.

 

Seja como for, essas duas descobertas reacendem o debate. E afora as carambolas, há um outro front de pesquisa que desafia as ideias de Haeckel: a investigação de protistas ainda mais estranhos que os coanoflagelados, que alternam entre estágios de vida uni e multicelulares.

 

Disponível em: https://super.abril.com.br/ciencia

/celulas-troncopodem- ser-o-segredo-da-origem-e-evolucao-de-seresmulticelulares/

Texto 1 –

 

“Para convencer a família de que conseguiria sustentar sua prima-noiva, ele saiu em turnê pelo sul da Europa [...]” (Texto 1, 2º parágrafo)

 

O efeito expressivo da expressão sublinhada advém do fato de que ela:

  1. Arelativiza uma dificuldade;
  2. Bdesenvolve uma analogia;
  3. Csuaviza um comentário;
  4. Devidencia um paradoxo;
  5. Ecorrobora uma suspeita.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — desenvolve uma analogia;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Efeito expressivo da expressão "tio-do-pavê-e-futuro-sogro"

Gabarito: letra B. A expressão sublinhada produz efeito expressivo porque desenvolve uma analogia: o autor compara a situação de Haeckel (abandonar a Medicina para ser naturalista) com a de alguém que largaria um curso prestigiado para ser músico, criando uma imagem comparativa que aproxima duas realidades distintas. Como se lê no 2º parágrafo: "O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico." A palavra "equivalia" sinaliza a comparação implícita.

O comando

A questão pede que se identifique o efeito expressivo da expressão destacada. Isso não é uma pergunta de gramática normativa, mas de interpretação de recursos expressivos: o que o autor quis provocar no leitor ao usar aquela construção? A resposta está no sentido contextual da expressão, não em sua estrutura sintática.

O texto

No 2º parágrafo, o autor narra a decisão de Haeckel de trocar a Medicina pela carreira de naturalista. Para explicar o impacto dessa escolha no contexto do século XIX, ele cria uma comparação com uma situação moderna e absurda: "largar Medicina da USP para ser músico". A expressão "tio-do-pavê-e-futuro-sogro" é uma metáfora que representa a família conservadora da época, e a frase inteira funciona como uma analogia entre o drama de Haeckel e um drama contemporâneo.

A técnica

O efeito expressivo decorre da analogia: o autor aproxima dois termos (a situação histórica e a situação moderna) para tornar o texto mais vivo e compreensível. A palavra "equivalia" é a pista: ela estabelece uma relação de equivalência entre as duas situações. Não há relativização, suavização, paradoxo ou suspeita — há uma comparação.

Efeito expressivo
  • 1Analogia (gabarito)
    • Aproxima duas realidades
    • "Equivalia" marca a comparação
  • 2Outros efeitos (não se aplicam)
    • Relativizar (diminui)
    • Suavizar (atenua)
    • Paradoxo (contradição)
    • Suspeita (desconfiança)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Relativiza uma dificuldade — A expressão não diminui a importância do problema; ela o amplifica ao compará-lo com uma situação absurda. Relativizar seria dizer "não era tão grave", o que não ocorre.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Desenvolve uma analogia — A expressão cria uma comparação entre a escolha de Haeckel e a ideia de abandonar Medicina para ser músico. A palavra "equivalia" no trecho "O que, no século 19, equivalia a contar para seu tio-do-pavê-e-futuro-sogro que você largaria Medicina da USP para ser músico" é a marca da analogia: aproxima duas situações para explicar o impacto da decisão.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Suaviza um comentário — Não há suavização; a expressão é irônica e exagerada, não atenuante. Suavizar seria usar um eufemismo, o que não acontece.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Evidencia um paradoxo — Paradoxo é uma contradição aparente. Aqui não há contradição: a comparação é coerente, apenas inusitada.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Corrobora uma suspeita — Não há suspeita no contexto; o autor apenas explica uma decisão, não confirma nenhuma desconfiança.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir o candidato com efeitos expressivos parecidos (relativizar, suavizar). A chave é perceber a comparação implícita na palavra "equivalia".

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar efeito expressivo, pergunte: "o que o autor está fazendo com essa expressão?" Se houver comparação, é analogia; se houver exagero, é hipérbole; se houver contradição, é paradoxo.

Gabarito: letra B.

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