Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg164020
Banca
FGV
Órgão
CM SP
Ano
2024
Cargo
Cons Leg ( )
Observe o texto abaixo sobre a escravidão:
“A escravidão, por felicidade nossa, não azedou nunca a alma do escravo contra o senhor – falando coletivamente – nem criou entre as duas raças o ódio recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimidos. [....] Thomas Macaulay disse na Câmara dos Comuns em 1845: ‘Eu não julgo improvável que a população preta do Brasil seja livre e feliz dentro de oitenta ou cem anos. Não vejo, porém, perspectiva razoável de igual mudança nos Estados Unidos’. (Joaquim Nabuco)
Sobre a composição e significação desse fragmento textual, assinale a afirmação correta.
AO termo “falando coletivamente” expressa uma ressalva em relação ao que foi afirmado anteriormente.
BA tese do texto se concentra na última frase do texto, alusiva à escravidão nos Estados Unidos.
CA declaração de Thomas Macaulay serve de argumento de defesa da escravidão nos moldes americanos.
DO texto mostra uma organização sequencial, ou seja, um acúmulo de argumentos a favor de uma tese.
EO texto mostra o valor preditivo de antecipar realidades que hoje se tornaram fatos.
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GabaritoA — O termo “falando coletivamente” expressa uma ressalva em relação ao que foi afirmado anteriormente.
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Função do termo intercalado e estrutura argumentativa
Gabarito: letra A. O termo “falando coletivamente” funciona como uma ressalva — um comentário do autor que restringe o alcance da afirmação anterior, evitando que ela seja entendida como válida para todos os casos individuais. A passagem que comprova isso é a própria construção do período: o autor afirma que a escravidão “não azedou nunca a alma do escravo contra o senhor” e, em seguida, acrescenta “– falando coletivamente –”, ou seja, ele mesmo limita a generalização. As demais alternativas ou extrapolam o texto, ou invertem a função da citação de Macaulay.
O comando da questão
O enunciado pede que você analise a composição e significação do fragmento. Isso significa que a resposta deve se apoiar em elementos textuais concretos: a função de um termo, a localização da tese, o papel de uma citação. Não se trata de inferir algo além do texto, mas de reconhecer estruturas — e é exatamente isso que a banca explora: a diferença entre o que está explícito (a ressalva) e o que é interpretação apressada (como achar que a citação defende a escravidão americana).
O texto e seu movimento argumentativo
O fragmento de Joaquim Nabuco tem uma tese central: a escravidão no Brasil não gerou o ódio recíproco entre raças que seria “natural” entre opressores e oprimidos. Para sustentar essa tese, ele recorre a um argumento de autoridade — a citação de Thomas Macaulay, que prevê um futuro melhor para a população negra no Brasil do que nos Estados Unidos. Perceba a estrutura:
“A escravidão, por felicidade nossa, não azedou nunca a alma do escravo contra o senhor – falando coletivamente – nem criou entre as duas raças o ódio recíproco que existe naturalmente entre opressores e oprimidos.”
O trecho em destaque é uma intercalação — um comentário do autor que se insere no meio da frase. Ele tem a função de restringir a afirmação: Nabuco não diz que nenhum escravo jamais odiou seu senhor; diz que, no conjunto, isso não aconteceu. É uma ressalva típica de quem quer evitar generalizações absolutas.
A técnica que decide a questão
A palavra-chave é “ressalva”. Uma ressalva é um ajuste, uma limitação que o autor faz ao que acabou de dizer. No texto, “falando coletivamente” cumpre exatamente esse papel: restringe o sujeito da afirmação (não é cada escravo individualmente, mas a coletividade). Isso é diferente de uma oposição (que negaria o que foi dito) ou de uma explicação (que apenas esclareceria).
Para as demais alternativas, o erro é sempre o mesmo: extrapolar ou inverter o que o texto diz. Vejamos cada uma.
"Falando coletivamente"
1Função
Ressalva
Restringe o alcance da afirmação
2Efeito
Evita generalização absoluta
Precisão semântica
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que “falando coletivamente” expressa uma ressalva em relação ao que foi afirmado anteriormente. Isso está literalmente no texto: o autor faz uma afirmação geral (“não azedou nunca a alma do escravo contra o senhor”) e, em seguida, restringe essa afirmação com o termo intercalado. A ressalva é um mecanismo de precisão semântica: o autor evita que sua tese seja interpretada de forma absoluta. Não há outra leitura possível para o termo nesse contexto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que a tese se concentra na última frase, sobre os Estados Unidos. Erro: contradiz o texto. A tese de Nabuco está na primeira frase — a afirmação sobre a escravidão no Brasil não ter gerado ódio recíproco. A citação de Macaulay é um argumento de autoridade que reforça essa tese, não a tese em si. A última frase é um exemplo comparativo, não a ideia central.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a declaração de Macaulay serve como argumento de defesa da escravidão nos moldes americanos. Erro: extrapolação e inversão de sentido. Macaulay não defende a escravidão; ele apenas prevê que a população negra do Brasil será livre e feliz em 80 ou 100 anos, enquanto nos EUA não vê perspectiva razoável de mudança. A citação é usada para contrastar a situação brasileira (mais branda) com a americana (mais rígida), e não para defender o sistema escravista. Além disso, o texto de Nabuco é abolicionista — defender a escravidão seria contradizer sua própria tese.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o texto mostra uma organização sequencial com acúmulo de argumentos a favor de uma tese. Erro: generalização indevida. O texto tem um argumento principal (a tese) e uma citação de autoridade que a reforça. Não há um encadeamento de vários argumentos — há uma tese e um suporte. A palavra “acúmulo” sugere uma progressão argumentativa que não existe no fragmento.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o texto mostra o valor preditivo de antecipar realidades que hoje se tornaram fatos. Erro: extrapolação. O texto não discute se as previsões de Macaulay se concretizaram ou não. Ele apenas cita a previsão como argumento. Afirmar que “hoje se tornaram fatos” é acrescentar informação de fora do texto — um típico caso de extrapolação com conhecimento de mundo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta atrair o candidato para a letra D, que generaliza a estrutura do texto como “acúmulo de argumentos”, quando na verdade há apenas uma tese seguida de uma citação de autoridade. Também explora a confusão entre “argumento de defesa” e “argumento de autoridade”.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a função de um termo intercalado, pergunte-se: ele restringe, explica, opõe ou exemplifica? No caso, “falando coletivamente” restringe o alcance da afirmação — é uma ressalva.