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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg164095
Banca
FGV
Órgão
ALETO
Ano
2024
Cargo
Proc Jur ( )

Platão

 

Diotima – Qual é, Sócrates, na sua opinião, a causa deste amor, deste desejo? Você já observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando são tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possuídos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necessário alimentar os filhos? [....] Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do possível, perpetuar-se e imortalizar- se. Apenas desse modo, por meio da procriação, a natureza mortal é capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [...] Pois saiba, Sócrates, que o mesmo vale para a ambição dos homens. Você fica assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a não ser que compreenda o que eu disse, e reflita sobre o que se passa com eles quando são tomados pela ambição e pelo desejo de glória eterna. É pela fama, mais ainda que por seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e até mesmo sacrificar suas vidas. [...] Aqueles cujo instinto criador é físico recorrem de preferência às mulheres e revelam seu amor dessa maneira, acreditando que pela geração de filhos podem se assegurar da imortalidade e de uma recordação perene de si. Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz. E o que é próprio da natureza da alma procriar? A sabedoria e as virtudes em geral, cujos progenitores são os poetas e os criadores fecundos.

 

(Platão, século IV a. C.)

Texto 1

   

Sobre a estruturação geral desse fragmento textual argumentativo, uma fala de Diotima (orientadora de Sócrates nos assuntos de amor) para Sócrates, assinale a observação correta.

  1. AA tese exposta nesse fragmento é a de que a procriação da alma é superior à do corpo.
  2. BOs argumentos apresentados para a defesa da tese se apoiam na autoridade dos participantes do diálogo.
  3. CO público-alvo de toda a argumentação do texto se reduz a Sócrates, citado na exposição da tese.
  4. DA exposição argumentativa tem estreita ligação com a época em que ocorre o diálogo.
  5. EO texto argumentativo acima se estrutura por meio de um debate informativo e expositivo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — A tese exposta nesse fragmento é a de que a procriação da alma é superior à do corpo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Estrutura do fragmento argumentativo de Diotima

Gabarito: letra A. A tese defendida por Diotima no fragmento é a de que a procriação da alma é superior à do corpo, como se comprova na passagem final: "Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz." A alternativa A é a única que captura essa hierarquia valorativa que estrutura todo o raciocínio.

O comando pede uma observação sobre a estruturação geral do fragmento argumentativo — ou seja, exige que você identifique a tese (a ideia central defendida) e como os argumentos se organizam em torno dela. Não se trata de localizar uma informação pontual, mas de compreender o movimento argumentativo do texto: Diotima parte de um fenômeno comum (o desejo de procriar nos animais e nos humanos) para, por analogia, chegar a uma distinção entre dois tipos de procriação — a física e a espiritual — e, ao final, valorizar a segunda.

O texto é um diálogo filosófico, mas a estrutura é dissertativo-argumentativa: há uma tese (a superioridade da procriação da alma), desenvolvida por meio de argumentos (a comparação com os animais, a ambição humana por glória, a distinção entre os dois instintos criadores). A fala de Diotima não é meramente expositiva; ela defende um ponto de vista e tenta persuadir Sócrates. Por isso, a alternativa E, que fala em "debate informativo e expositivo", falha ao ignorar o caráter persuasivo e valorativo do texto.

A tese não está apenas no final; ela é anunciada desde o início quando Diotima fala da "natureza mortal" que busca "perpetuar-se e imortalizar-se" e, depois, contrasta os dois modos de procriação. O clímax do raciocínio é a passagem que distingue os que têm "instinto criador físico" dos que têm "instinto criador na alma", concluindo que estes geram "a sabedoria e as virtudes em geral". Essa hierarquia — alma > corpo — é o que torna a alternativa A correta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta atrair o candidato para aspectos periféricos (autoridade dos participantes, público-alvo, contexto histórico, caráter expositivo) em vez da tese central. A tese é a hierarquia entre procriação da alma e do corpo — não a simples existência de um diálogo ou a época em que ocorre.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "estruturação geral", pergunte-se: "qual é a ideia que o autor defende e que todos os argumentos sustentam?" A tese costuma aparecer na introdução ou na conclusão — aqui, está na conclusão do raciocínio de Diotima.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A afirma que "a tese exposta nesse fragmento é a de que a procriação da alma é superior à do corpo". Isso está literalmente no texto, na passagem final:

"Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz."

Aqui, Diotima contrapõe os dois tipos de procriação e atribui à alma um valor superior — os filhos da alma são "a sabedoria e as virtudes em geral", enquanto os do corpo são apenas a geração de filhos. A palavra "mas" já sinaliza a oposição e a preferência pela via espiritual. Portanto, a tese é exatamente essa hierarquia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B diz que "os argumentos apresentados para a defesa da tese se apoiam na autoridade dos participantes do diálogo". Isso não ocorre no texto. Diotima não cita nenhuma autoridade externa (filósofos, poetas, sábios) para fundamentar sua tese; ela usa argumentos baseados na observação da natureza (animais, humanos) e na analogia entre o desejo de procriar e a ambição por glória. O texto não menciona "autoridade" de ninguém — apenas a fala de Diotima, que é a personagem que expõe a tese. A alternativa extrapola ao atribuir um recurso argumentativo que não está presente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "o público-alvo de toda a argumentação do texto se reduz a Sócrates, citado na exposição da tese". É verdade que Diotima se dirige a Sócrates ("Qual é, Sócrates, na sua opinião..."), mas isso não significa que o público-alvo se "reduza" a ele. O texto é um diálogo filosófico, mas a argumentação tem alcance universal: fala de "todos os animais", "os humanos", "a natureza mortal" — ou seja, trata de uma reflexão geral sobre o amor e a imortalidade. A palavra "reduz" é uma restrição indevida (armadilha de generalização/limitação). Além disso, o texto não discute o "público-alvo" em momento algum; essa é uma informação fora do escopo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D diz que "a exposição argumentativa tem estreita ligação com a época em que ocorre o diálogo". O texto não faz nenhuma referência à época, ao contexto histórico ou a elementos datados. A discussão sobre amor, procriação e imortalidade é atemporal — poderia ser dita em qualquer época. A alternativa tangencia o tema ao introduzir uma preocupação histórica que o texto não aborda. Não há pista textual que sustente essa ligação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E afirma que "o texto argumentativo acima se estrutura por meio de um debate informativo e expositivo". O texto é dissertativo-argumentativo, não meramente expositivo. Diotima não apenas informa; ela defende uma tese (a superioridade da procriação da alma) e tenta persuadir Sócrates. A diferença é crucial: o texto expositivo apresenta fatos de forma neutra; o argumentativo defende um ponto de vista. Aqui, há juízo de valor ("superior", "próprios da natureza da alma") e uma hierarquia clara. A alternativa confunde os tipos textuais — é uma troca de conceito.

Conclusão: a única alternativa que identifica corretamente a tese do fragmento é a A. As demais ou extrapolam (B, D), restringem indevidamente (C) ou confundem a tipologia (E). Lembre-se: em questões de estrutura argumentativa, a tese é o coração do texto — tudo o mais é argumento ou detalhe periférico.

Gabarito: letra A

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