Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg164099
Banca
FGV
Órgão
ALETO
Ano
2024
Cargo
Proc Jur ( )
Platão
Diotima – Qual é, Sócrates, na sua opinião, a causa deste amor, deste desejo? Você já observou em que estranha crise se encontram todos os animais, os que voam e os que marcham, quando são tomados pelo desejo de procriar? Como ficam doentes e possuídos de desejo, primeiro no momento de se ligarem, depois, quando se torna necessário alimentar os filhos? [....] Tanto no caso dos humanos como no dos animais, a natureza mortal busca, na medida do possível, perpetuar-se e imortalizar- se. Apenas desse modo, por meio da procriação, a natureza mortal é capaz da imortalidade, deixando sempre um jovem no lugar do velho. [...] Pois saiba, Sócrates, que o mesmo vale para a ambição dos homens. Você fica assombrado com a sua misteriosa irracionalidade, a não ser que compreenda o que eu disse, e reflita sobre o que se passa com eles quando são tomados pela ambição e pelo desejo de glória eterna. É pela fama, mais ainda que por seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e até mesmo sacrificar suas vidas. [...] Aqueles cujo instinto criador é físico recorrem de preferência às mulheres e revelam seu amor dessa maneira, acreditando que pela geração de filhos podem se assegurar da imortalidade e de uma recordação perene de si. Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz. E o que é próprio da natureza da alma procriar? A sabedoria e as virtudes em geral, cujos progenitores são os poetas e os criadores fecundos.
(Platão, século IV a. C.)
Texto 1
O texto 1 foi retirado do O Livro das Citações, do novo acadêmico Eduardo Giannetti e está inserido numa seção intitulada “Monumentos mais duradouros que o bronze”.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O título "Monumentos mais duradouros que o bronze" e a justificativa
Gabarito: letra B. O título da seção se justifica porque os textos ali reunidos testemunham momentos culturais significativos — não por serem antigos, nem por serem de autores famosos, nem por mostrarem valores abandonados, nem por serem obras de arte. A passagem que ancora essa leitura está no próprio texto de Platão, quando Diotima fala da busca pela imortalidade por meio da fama e da recordação perene:
"É pela fama, mais ainda que por seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos, suportar fadigas, esbanjar fortunas e até mesmo sacrificar suas vidas."
O texto de Platão é um monumento cultural porque registra, de forma duradoura, uma reflexão filosófica sobre o desejo humano de perpetuar-se — um momento cultural significativo da civilização ocidental. O título "Monumentos mais duradouros que o bronze" (expressão do poeta Horácio, aliás) celebra exatamente isso: textos que, como o de Platão, atravessam séculos por seu valor cultural, não por mera antiguidade.
O comando
A questão pede que você justifique o título da seção do livro de Eduardo Giannetti. Não é uma pergunta de inferência profunda, mas de compreensão: você precisa entender o que o título sugere e relacionar isso ao conteúdo do texto. O título "Monumentos mais duradouros que o bronze" é uma metáfora: assim como um monumento de bronze dura muito, certos textos duram ainda mais — porque carregam algo de valor permanente. A pergunta é: por que esses textos são considerados monumentos? A resposta está no valor cultural que eles representam.
O texto
O texto de Platão (século IV a.C.) é um diálogo filosófico em que Diotima explica a Sócrates a natureza do amor e do desejo de imortalidade. Ela diz que os seres humanos buscam perpetuar-se de duas formas: pela procriação física (ter filhos) e pela procriação espiritual (gerar sabedoria e virtudes). O trecho final é decisivo:
"Mas existem alguns cujo instinto criador se aloja na alma e que desejam procriar não pelo corpo, mas espiritualmente, gerando filhos que são próprios da natureza da alma conceber e dar à luz. E o que é próprio da natureza da alma procriar? A sabedoria e as virtudes em geral, cujos progenitores são os poetas e os criadores fecundos."
Ou seja: o texto fala de algo que permanece — a sabedoria, as virtudes, a fama. Isso é exatamente o que o título celebra: textos que, como este, são "monumentos" porque transmitem ideias que atravessam o tempo. O texto de Platão é um testemunho de um momento cultural significativo: o auge da filosofia grega clássica.
A técnica
A chave para resolver é parafrasear o título e conectá-lo ao conteúdo. "Monumentos mais duradouros que o bronze" = textos que duram mais que estátuas de bronze. Por que duram? Porque testemunham momentos culturais significativos — registram ideias, valores, reflexões que continuam relevantes. A alternativa B é a única que capta essa ideia de valor cultural duradouro. As demais ou são superficiais (A), ou irrelevantes (C, E), ou contradizem o texto (D).
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto é antigo (século IV a.C.), mas o título não se justifica pela antiguidade em si. Um texto antigo pode ser esquecido; o que o torna "monumento" é o valor cultural que ele carrega. A antiguidade é um fato, mas não é a razão apresentada pelo título. O título fala de durabilidade, não de idade.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Correta. O texto de Platão é um testemunho de um momento cultural significativo: a filosofia grega clássica, com suas reflexões sobre amor, imortalidade e sabedoria. O título "Monumentos mais duradouros que o bronze" celebra exatamente isso: textos que, como este, perpetuam ideias e valores por séculos. A passagem "É pela fama, mais ainda que por seus filhos, que eles se dispõem a encarar todos os riscos" mostra que o texto trata da busca pela permanência — e o próprio texto é um exemplo dessa permanência.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: tangenciamento. O texto é de Platão, um autor famoso, mas o título não se justifica pela fama do autor. A fama é uma consequência, não a causa. O título celebra o conteúdo do texto, não o nome de quem o escreveu. Além disso, a seção do livro pode conter textos de autores menos conhecidos — o que importa é o valor cultural.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. O texto de Platão não mostra valores "hoje abandonados". Pelo contrário, os valores que ele defende — a busca pela sabedoria, pela virtude, pela imortalidade espiritual — são perenes, continuam relevantes. O título "monumentos duradouros" sugere justamente que esses valores permanecem, não que foram abandonados.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: tangenciamento. O texto pode ser considerado uma obra de arte literária, mas o título não se justifica por isso. "Monumentos" aqui tem sentido de registro cultural duradouro, não de obra estética. A alternativa confunde o valor artístico com o valor de testemunho histórico-cultural.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o valor histórico dos textos e o motivo de serem "monumentos duradouros", levando o candidato a escolher "são muito antigos". A antiguidade é um fato, mas não é a razão apresentada pelo título.
PEGA ESSA DICA!
Ao justificar um título, pergunte-se: o que o título celebra? Se ele fala de durabilidade, procure a alternativa que explique por que o texto dura — não apenas fatos sobre ele.