Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — FGV 2024
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
fg164144
Banca
FGV
Órgão
MinC
Ano
2024
Cargo
Temp NS ( )
Observe o trecho a seguir, de Marques Rebelo: Magra, ágil, elegante, Loló era feia de rosto, mas os olhos — somente os olhos! — grandes, imensamente negros, faziam-na bela. O pai era rico, bastante rico, a sua casa, recém-construída, era a mais bonita da rua, branca, com os beirais azuis, um jeito de casa de boneca. Trata-se de um texto predominantemente descritivo, sobretudo pelo uso de
Aadjetivos, inscrevendo uma avaliação sobre personagens e objetos.
Bverbos no passado, indicando uma sucessão de fatos e acontecimentos.
Cvírgulas em sequência, com omissão de conectivos, contribuindo para a fluidez do texto.
Dadvérbios, permitindo uma perspectiva objetiva sobre os personagens.
Esubstantivos abstratos, marcando uma apresentação precisa da cena.
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GabaritoA — adjetivos, inscrevendo uma avaliação sobre personagens e objetos.
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Tipologia textual: o texto descritivo e o papel dos adjetivos
Gabarito: letra A. O trecho de Marques Rebelo é predominantemente descritivo porque o autor caracteriza Loló e a casa, e essa caracterização se apoia, sobretudo, no uso de adjetivos — que inscrevem uma avaliação sobre personagens e objetos. Como se lê já na abertura: "Magra, ágil, elegante, Loló era feia de rosto" — os adjetivos magra, ágil, elegante, feia não apenas informam traços, mas expressam um juízo do narrador sobre a personagem. A alternativa A é a única que nomeia exatamente o recurso que predomina no texto.
O comando: o que a banca pede
A questão pede que se identifique o recurso linguístico responsável pelo predomínio descritivo do trecho. Não se trata de compreender o sentido global, nem de inferir algo; trata-se de reconhecer a marca tipológica — o elemento que, no texto, caracteriza pessoas e objetos. Para isso, é preciso saber que o texto descritivo se define pela caracterização estática (sem progressão temporal), e que essa caracterização se materializa, principalmente, por meio de adjetivos e verbos de estado.
O texto: tema e movimento
O trecho descreve duas "personagens": Loló e a casa da família. Não há sucessão de fatos — nada "acontece" no sentido narrativo; o narrador pausa o tempo para apresentar qualidades: Loló é magra, ágil, elegante, feia de rosto, mas tem olhos grandes e negros que a fazem bela; a casa é recém-construída, a mais bonita da rua, branca, com beirais azuis, jeito de casa de boneca. Tudo isso é caracterização, não ação. Os verbos "era", "faziam", "era" são verbos de estado (ser, fazer com valor de estado), e os adjetivos (magra, ágil, elegante, feia, grandes, negros, rica, bonita, branca, azuis) são a matéria-prima da descrição.
A técnica que decide: descrição × narração
A descrição é o tipo textual que caracteriza pessoas, objetos, ambientes ou situações, sem progressão temporal — é como uma fotografia verbal. A narração, por sua vez, conta uma sequência de fatos com personagens, tempo, espaço e enredo, com verbos de ação e progressão cronológica. No trecho, não há enredo, não há conflito, não há sucessão de acontecimentos: há apenas a apresentação de qualidades. Por isso, o recurso que predomina é o adjetivo, que é a classe de palavras cuja função é atribuir qualidade — e, no texto, essas qualidades vêm carregadas de avaliação do narrador ("feia de rosto", "imensamente negros", "jeito de casa de boneca").
"Magra, ágil, elegante, Loló era feia de rosto, mas os olhos — somente os olhos! — grandes, imensamente negros, faziam-na bela."
Aqui, os adjetivos magra, ágil, elegante, feia, grandes, negros, bela não apenas descrevem, mas avaliam: o narrador emite um juízo sobre a aparência de Loló. O mesmo ocorre com a casa: "a mais bonita da rua, branca, com os beirais azuis, um jeito de casa de boneca" — os adjetivos bonita, branca, azuis e a expressão jeito de casa de boneca (que funciona como predicativo) caracterizam e avaliam o objeto.
Análise das alternativas
Texto descritivo
1Caracterização estática
Sem progressão temporal
Verbos de estado (era, faziam)
2Recurso predominante
Adjetivos
Atribuem qualidade
Inscrevem avaliação
3Marca tipológica
Fotografia verbal
Não há enredo nem sucessão de fatos
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que o texto é descritivo sobretudo pelo uso de adjetivos, inscrevendo uma avaliação sobre personagens e objetos. Isso é exatamente o que ocorre: os adjetivos magra, ágil, elegante, feia, grandes, negros, bela, bonita, branca, azuis são abundantes e expressam qualidades que o narrador atribui a Loló e à casa. A palavra "avaliação" é precisa: o narrador não apenas informa traços objetivos, mas opina ("feia de rosto", "jeito de casa de boneca"). Portanto, a alternativa A é a única que nomeia o recurso predominante e sua função.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que o texto é descritivo pelo uso de verbos no passado, indicando sucessão de fatos. Há, de fato, verbos no pretérito ("era", "faziam", "era"), mas eles são verbos de estado, não de ação, e não indicam sucessão de fatos — não há sequência cronológica. O pretérito imperfeito, aliás, é típico da descrição ("Ela era branca, cheia de sardas"), pois expressa estado permanente no passado, não ação pontual. A alternativa confunde descrição com narração: a narração é que se caracteriza por verbos de ação no pretérito perfeito ("caminhou", "chegou"). Aqui, o erro é trocar o conceito: o passado não é a marca do descritivo, e sim o adjetivo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que o texto é descritivo pelo uso de vírgulas em sequência, com omissão de conectivos, contribuindo para a fluidez. É verdade que há vírgulas e ausência de conectivos (assíndeto), mas isso é um recurso estilístico, não a marca tipológica do descritivo. O assíndeto pode aparecer em qualquer tipo de texto; não é ele que torna o texto descritivo. A alternativa tangencia o tema: fala de um aspecto real do texto, mas não responde à pergunta sobre o que predomina na descrição. O que predomina é a adjetivação, não a pontuação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que o texto é descritivo pelo uso de advérbios, permitindo uma perspectiva objetiva. Há poucos advérbios no trecho ("imensamente", "bastante"), e eles não são a marca predominante. Além disso, a descrição é subjetiva, não objetiva: o narrador emite juízos ("feia", "bela", "jeito de casa de boneca"). A alternativa inverte a natureza do texto: a descrição aqui é carregada de avaliação, não de objetividade. O erro é trocar o conceito: advérbios não caracterizam substantivos; adjetivos é que o fazem.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que o texto é descritivo pelo uso de substantivos abstratos, marcando uma apresentação precisa da cena. Os substantivos presentes (rosto, olhos, casa, rua, beirais) são concretos, não abstratos. Além disso, a descrição não é "precisa" no sentido de objetiva — é subjetiva e avaliativa. A alternativa extrapola: inventa uma característica (substantivos abstratos) que não está no texto. O erro é fora do escopo: o texto não apresenta substantivos abstratos como recurso predominante.
Conclusão
A questão testa a capacidade de reconhecer a marca tipológica predominante. A descrição se caracteriza pela caracterização estática, e essa caracterização se materializa, sobretudo, por adjetivos que expressam avaliação. As demais alternativas ou confundem descrição com narração (B), ou tangenciam o tema (C), ou invertem a natureza do texto (D), ou extrapolam (E).
PEGA ESSA DICA!
Para identificar o tipo textual, pergunte: há progressão temporal? Se não, é descrição. E qual classe de palavra predomina? Se forem adjetivos, é descrição. Desconfie de alternativas que citam verbos no passado como marca de narração — o pretérito imperfeito é típico da descrição.