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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg164151
Banca
FGV
Órgão
MinC
Ano
2024
Cargo
Temp NS ( )

Observe os versos abaixo, de Manoel de Barros:
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.


Assinale a alternativa correta sobre a leitura do trecho.

  1. APercebe-se uma forte intenção estética, em que se explora uma linguagem plurissignificativa.
  2. BExiste a representação de uma realidade tangível, expressa por meio de uma causalidade lógica.
  3. CNota-se que o modo como os versos se estruturam independem da construção dos sentidos possíveis.
  4. DVerifica-se, majoritariamente, uma linguagem denotativa e a ausência de figuras de linguagem.
  5. EHá presença de linguagem objetiva, com predomínio do conteúdo sobre a expressão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Percebe-se uma forte intenção estética, em que se explora uma linguagem plurissignificativa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Plurissignificação e função poética no poema de Manoel de Barros

Gabarito: letra A. O trecho explora uma linguagem plurissignificativa — as palavras ganham múltiplos sentidos, especialmente conotativos — e isso revela uma forte intenção estética, típica da função poética. A prova está no verso "Eu escuto a cor dos passarinhos": escutar não é verbo que se combine com "cor" no sentido literal; a construção só se sustenta no plano figurado, abrindo o texto a várias leituras.

O comando pede uma leitura do trecho — ou seja, uma interpretação global, não uma informação pontual. Isso significa que a alternativa correta deve descrever o efeito de sentido que o texto produz, e não apenas repetir uma palavra. A banca quer que você reconheça o caráter poético e a abertura semântica do texto.

O poema de Manoel de Barros é um exemplo clássico de função poética: a mensagem se volta sobre si mesma, valorizando a forma, as imagens e as combinações inusitadas de palavras. O verso inicial, "No descomeço era o verbo", já subverte a expressão bíblica "No princípio era o Verbo", criando um neologismo ("descomeço") que desloca o sentido. A seguir, "delírio do verbo" e "escuto a cor" são sinestesias — fusão de sentidos (audição e visão) — que ampliam as possibilidades de interpretação.

A plurissignificação é a propriedade do texto de admitir vários sentidos simultâneos. Ela se opõe à denotação (sentido literal, único) e é típica da linguagem literária, especialmente da poesia. Quando o poeta escreve "escuto a cor", ele não está descrevendo um fato físico; está criando uma imagem que mistura percepções sensoriais, convidando o leitor a interpretar de múltiplas formas. Essa abertura semântica é exatamente o que a alternativa A captura.

"O delírio do verbo estava no começo, lá onde a criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos."

Nesse trecho, a sinestesia (fusão de audição e visão) é a figura que materializa a plurissignificação: "escutar cor" não tem sentido literal, mas gera uma imagem poética rica. O texto, portanto, não representa uma realidade tangível e lógica (como diz a B), nem é objetivo e denotativo (como dizem D e E). A estrutura dos versos, com o neologismo "descomeço" e a inversão "No descomeço era o verbo", é intencional e constrói os sentidos — o que derruba a C.

1Linguagem plurissignificativa
Conotação
Múltiplos sentidos
2Recursos formais
Sinestesia ("escuto a cor")
Neologismo ("descomeço")
Metáfora ("delírio do verbo")
3Forma e sentido
Indissociáveis
Estrutura produz sentidos
Função poética
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Função poética: Linguagem plurissignificativa (Conotação, Múltiplos sentidos); Recursos formais (Sinestesia ("escuto a cor"), Neologismo ("descomeço"), Metáfora ("delírio do verbo")); Forma e sentido (Indissociáveis, Estrutura produz sentidos)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que há "forte intenção estética" e "linguagem plurissignificativa". Isso está diretamente ancorado no texto: o verso "Eu escuto a cor dos passarinhos" é uma sinestesia — figura que mistura sentidos (audição + visão) — e, por isso, a palavra "cor" não é usada em seu sentido literal, mas conotativo, abrindo múltiplas interpretações. Além disso, o neologismo "descomeço" e a inversão "No descomeço era o verbo" (paródia do Gênesis) revelam um trabalho consciente com a linguagem, típico da função poética. A alternativa descreve exatamente o que o texto faz: explora a plurissignificação com intenção estética.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "representação de uma realidade tangível" e "causalidade lógica". O texto, porém, não representa uma realidade objetiva: "escuto a cor" é uma impossibilidade lógica no plano literal. Não há causalidade lógica — o verso "Só depois é que veio o delírio do verbo" não estabelece uma relação de causa e efeito racional, mas uma sequência poética. A alternativa contradiz o texto, que é essencialmente figurado e ilógico. Erro: contradiz_texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que "o modo como os versos se estruturam independem da construção dos sentidos possíveis". Isso é falso: a estrutura é justamente o que produz os sentidos. O neologismo "descomeço" e a inversão sintática "No descomeço era o verbo" são recursos formais que criam o efeito poético. A forma e o sentido são indissociáveis no texto literário. A alternativa contradiz o texto e a própria natureza da poesia. Erro: contradiz_texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que há "majoritariamente uma linguagem denotativa e a ausência de figuras de linguagem". Isso é o oposto do que ocorre: o texto é repleto de figuras — sinestesia ("escuto a cor"), neologismo ("descomeço"), metáfora ("delírio do verbo"). A linguagem é predominantemente conotativa, não denotativa. A alternativa contradiz o texto de forma direta. Erro: contradiz_texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "linguagem objetiva, com predomínio do conteúdo sobre a expressão". No poema, a expressão (a forma, as imagens, as palavras) é tão importante quanto o conteúdo — é a marca da função poética. Não há objetividade: o texto é subjetivo, imagético e aberto a múltiplas leituras. A alternativa contradiz o texto e o gênero poético. Erro: contradiz_texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que o texto é objetivo e lógico (B, D, E) ou que a forma não importa (C). A chave é reconhecer a plurissignificação e a função poética — o texto é construído para abrir sentidos, não para fechá-los.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de poesia, desconfie de alternativas que usam palavras como "objetiva", "lógica", "denotativa", "realidade tangível". Poesia é o reino da conotação e da subjetividade.

Gabarito: letra A — a única que descreve corretamente o efeito estético e plurissignificativo do texto.

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