Questão de Direito Constitucional — Métodos e Princípios de Interpretação das Normas Constitucionais — FGV 2025
Direito Constitucional›Métodos e Princípios de Interpretação das Normas Constitucionais
Código
fg166347
Banca
FGV
Órgão
OAB
Ano
2025
Cargo
NAC UNI
A partir da análise do conflito entre normas constitucionais originárias em uma relação processual, ambas validas e vigentes, João, advogado do autor, sustentou que a norma X, por ser, sob a perspectiva conteudística, materialmente constitucional, deve ter preponderância sobre a norma ¥, pois esta última versa sobre matéria que não é própria de uma Constituição, sendo considerada norma constitucional apenas sob o prisma da forma. Pedro, advogado da parte ex adversa, por não concordar com a análise de João, se opõe, afirmando que, sob uma perspectiva normativo-hierárquica, a discussão não possui sentido, já que, prima facie, ambas as normas possuem a mesma hierarquia no âmbito do ordenamento jurídico brasileiro. Sobre a hipótese apresentada, segundo a visão jurídico constitucional brasileira, assinale a afirmativa correta.
AJoão está correto, pois as normas constitucionais, na perspectiva meramente formal, possuem, prima facie, status legal e, portanto, hierarquia inferior aquelas materialmente constitucionais.
BPedro está correto, porque as normas formalmente constitucionais, sob a perspectiva do contendo, obrigatoriamente também o são sob a perspectiva de análise material.
CJoão, como a norma Y consubstancia norma constitucional somente sob o ponto de vista formal, está correto, pois há de se considerar que a ela deve ser sempre atribuído status supralegal, mas infraconstitucional.
DPedro está correto, porque as normas X e ¥, na perspectiva normativo-hierárquica, não possuem qualquer superioridade uma sobre a outra, sendo reconhecida em ambas a estatura constitucional.
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GabaritoD — Pedro está correto, porque as normas X e ¥, na perspectiva normativo-hierárquica, não possuem qualquer superioridade uma sobre a outra, sendo reconhecida em ambas a estatura constitucional.
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Conflito entre normas constitucionais originárias: a inexistência de hierarquia
Gabarito: letra D. No ordenamento jurídico brasileiro, não há hierarquia entre normas constitucionais originárias: todas possuem a mesma estatura, independentemente de seu conteúdo ser material ou apenas formalmente constitucional. A tese de João, que pretende atribuir preponderância à norma X por ser "materialmente constitucional", é incompatível com o sistema de Constituição rígida adotado pelo Brasil, conforme consolidado na jurisprudência do Supremo Tribunal Federal.
A distinção entre normas materialmente e formalmente constitucionais é um dos temas mais clássicos da Teoria da Constituição. Uma norma materialmente constitucional é aquela cujo conteúdo é tipicamente constitucional — trata da organização fundamental do Estado, da estrutura dos poderes, dos direitos fundamentais. Já uma norma formalmente constitucional é aquela que, independentemente do conteúdo, foi introduzida no ordenamento pelo processo legislativo especial e solene reservado às normas constitucionais (poder constituinte originário ou derivado reformador). O exemplo clássico de norma apenas formalmente constitucional é o art. 242, § 2º, da CF/88, que trata da manutenção do Colégio Pedro II na órbita federal — matéria que, sob o prisma material, não é essencialmente constitucional, mas que, por estar no texto da Constituição, ostenta a mesma hierarquia de qualquer outra norma constitucional.
A questão central, porém, não é a classificação em si, mas a consequência jurídica dessa distinção. O erro de João está em extrair da classificação material/formal uma consequência hierárquica: ele sustenta que a norma materialmente constitucional deveria preponderar sobre a apenas formalmente constitucional. Essa tese é rejeitada pela doutrina e pela jurisprudência. O princípio da unidade da Constituição impõe que todas as normas constitucionais sejam interpretadas como partes de um sistema unitário, sem que se estabeleça qualquer relação de superioridade entre elas. Eventuais conflitos entre normas constitucionais originárias são aparentes e devem ser resolvidos por meio dos métodos e princípios de interpretação constitucional — como o princípio da concordância prática ou da harmonização — e não pela declaração de invalidade de uma norma em face de outra.
A jurisprudência do STF é firme nesse sentido. No julgamento da ADI 815, o Tribunal assentou que a tese de hierarquia entre normas constitucionais originárias, que daria azo à declaração de inconstitucionalidade de umas em face de outras, é incompossível com o sistema de Constituição rígida. Isso significa que não se pode declarar a inconstitucionalidade de uma norma constitucional originária com base em outra norma constitucional originária. A única hipótese de controle de constitucionalidade de normas que integram o texto constitucional diz respeito às emendas constitucionais (normas derivadas), que podem ser declaradas inconstitucionais se violarem cláusulas pétreas ou o processo de reforma — mas isso porque o poder constituinte derivado é submisso ao originário, não porque exista hierarquia entre as normas originárias.
A tese de Pedro, portanto, está correta: sob a perspectiva normativo-hierárquica, as normas X e Y, ambas originárias, possuem a mesma hierarquia. A distinção entre material e formal é relevante para a classificação e para a interpretação, mas não gera qualquer superioridade de uma norma sobre a outra. É exatamente essa a fronteira que separa as alternativas: a banca explora a confusão entre o critério de classificação (material/formal) e o critério hierárquico (que é inexistente entre normas originárias).
Normas constitucionais originárias
1Classificação (critério de conteúdo)
Materialmente constitucionais
Conteúdo tipicamente constitucional
Formalmente constitucionais
Introduzidas pelo processo solene
Ex.: art. 242, §2º (Colégio Pedro II)
2Hierarquia (inexistente entre originárias)
Todas com mesma estatura
Conflito aparente → interpretação
Concordância prática
Unidade da Constituição
Sem declaração de invalidade
3Controle de constitucionalidade
Originárias: não se controlam entre si
Derivadas (emendas): controláveis
Cláusulas pétreas
Processo de reforma
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que as normas formalmente constitucionais possuem "status legal" e hierarquia inferior às materialmente constitucionais. É o erro inverso ao de João, mas igualmente equivocado. As normas formalmente constitucionais, por integrarem o texto da Constituição, possuem status constitucional, não status legal. A distinção material/formal não gera hierarquia: ambas as normas estão no mesmo patamar, no ápice do ordenamento jurídico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sustenta que as normas formalmente constitucionais, sob a perspectiva do conteúdo, obrigatoriamente também o são sob a perspectiva material. Isso é falso: existem normas que são apenas formalmente constitucionais, pois seu conteúdo não é tipicamente constitucional. O exemplo do art. 242, § 2º, da CF/88 (Colégio Pedro II) demonstra exatamente isso — é uma norma formalmente constitucional, mas não materialmente. A classificação material e formal são critérios independentes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a norma apenas formalmente constitucional deve ter "status supralegal, mas infraconstitucional". Isso é um contrassenso: se a norma integra o texto constitucional, ela é constitucional, ponto. Não existe uma categoria intermediária de "supralegal infraconstitucional" para normas formalmente constitucionais. A distinção entre normas materialmente e formalmente constitucionais não implica qualquer diferença de hierarquia — ambas são normas constitucionais plenas.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Pedro está correto: as normas X e Y, na perspectiva normativo-hierárquica, não possuem qualquer superioridade uma sobre a outra, sendo reconhecida em ambas a estatura constitucional. É exatamente o que a jurisprudência do STF consolidou: não há hierarquia entre normas constitucionais originárias. O conflito entre elas é aparente e deve ser resolvido pela interpretação, não pela prevalência de uma sobre a outra.
A regra de ouro para a prova: a classificação material/formal é um critério de conteúdo, não de hierarquia. Toda norma que integra o texto constitucional originário tem a mesma estatura, seja ela materialmente constitucional ou apenas formalmente constitucional. Conflitos entre normas originárias são resolvidos pela interpretação (concordância prática, unidade da Constituição), nunca pela declaração de invalidade de uma em face da outra.