Questão de Direito Processual Penal — Jurisprudência dos Tribunais Superiores sobre Competência — FGV 2025
Direito Processual Penal›Jurisprudência dos Tribunais Superiores sobre Competência
Código
fg166567
Banca
FGV
Órgão
OAB
Ano
2025
Cargo
NAC UNI
Lucas era investigado por estupro de vulnerável, pois, de acordo com as investigações, teria mantido relações sexuais com pessoa menor de 14 anos. A partir de indícios concretos, a 1ª Vara Criminal da Comarca correspondente ao local dos fatos expediu mandado de busca e apreensão de aparelhos eletrônicos de Lucas, após regular requerimento do Ministério Público.
Nos dispositivos eletrônicos apreendidos foram localizados diversos arquivos, cujo conteúdo apresentava abuso sexual infantil, armazenados e compartilhados nas redes sociais, acessíveis de qualquer lugar do país e do exterior, sem se confirmar, contudo, a hipótese inicial de estupro de vulnerável.
Assim, Lucas foi denunciado como incurso nas penas do Art. 241- Aedo Art. 241-B, ambos do ECA (divulgação e armazenamento de conteúdo pornográfico envolvendo criança ou adolescente). A sentença foi proferida pelo Juiz de Direito da 1ª Vara Criminal da Comarca, tendo sido confirmada pelo Tribunal de Justiça correspondente, e transitada em julgado, condenando Lucas a 5 anos de reclusão, em regime semiaberto.
A respeito dos fatos, assinale a opção que apresenta, corretamente, a providência de Direito Processual Penal que o(a) advogado(a) deve adotar.
AA ocorrência do trânsito em julgado impede que sejam suscitadas questões processuais atinentes à nulidade ou à incompetência absoluta, admitindo-se a rediscussão dos fatos apenas se for baseada em prova nova, mediante revisão criminal.
BPode ser alegada a nulidade da busca e apreensão e de todos os atos dela decorrentes, diante da incompetência absoluta do Juízo que determinou a diligência, impetrando-se habeas corpus.
CPode ser impetrado habeas corpus, alegando a nulidade da sentença e de todos os atos decisórios posteriores à realização da busca e apreensão, diante da incompetência absoluta do Juízo.
DTendo em vista que a busca e apreensão foi deferida apenas para a investigação de estupro de vulnerável, é incabível a utilização das provas na persecução penal relativa a fato diverso, o que pode ser alegado pela impetração de um mandado de segurança.
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GabaritoC — Pode ser impetrado habeas corpus, alegando a nulidade da sentença e de todos os atos decisórios posteriores à realização da busca e apreensão, diante da incompetência absoluta do Juízo.
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Competência e nulidade no processo penal: o caso da busca e apreensão e a incompetência absoluta
Gabarito: letra C. Diante da incompetência absoluta do juízo que determinou a busca e apreensão, a nulidade atinge apenas os atos decisórios posteriores à diligência, e não a própria busca e apreensão, que é ato de investigação válido. Por isso, o habeas corpus é o meio adequado para alegar a nulidade da sentença e dos atos decisórios posteriores, com fundamento no art. 567 do CPP, que dispõe que a incompetência do juízo anula somente os atos decisórios.
A questão envolve dois institutos centrais do processo penal: a incompetência absoluta e a nulidade dela decorrente, além do cabimento do habeas corpus para impugnar decisões que violam a liberdade de locomoção. A banca explora a distinção entre atos de investigação (como a busca e apreensão) e atos decisórios (como a sentença), bem como o alcance da nulidade por incompetência absoluta.
A incompetência absoluta, por violar regras de interesse público (como a competência material ou funcional), pode ser alegada a qualquer tempo e grau de jurisdição, inclusive após o trânsito em julgado, e deve ser declarada de ofício. No entanto, seus efeitos são limitados: conforme o art. 567 do CPP, a nulidade atinge apenas os atos decisórios, preservando-se os atos de investigação e de instrução, que são válidos. Isso significa que a busca e apreensão, realizada por juízo incompetente, não é nula, pois é ato de investigação, e as provas dela decorrentes podem ser utilizadas.
No caso, o juízo da 1ª Vara Criminal da Comarca era incompetente para julgar os crimes de divulgação e armazenamento de conteúdo pornográfico envolvendo criança ou adolescente, pois tais crimes, quando praticados por meio de redes sociais acessíveis de qualquer lugar do país e do exterior, atraem a competência da Justiça Federal, nos termos do art. 109, V, da CF. Assim, a sentença proferida por juízo incompetente é nula, mas apenas os atos decisórios posteriores à busca e apreensão são atingidos pela nulidade.
O habeas corpus é o remédio constitucional adequado para impugnar a nulidade da sentença e dos atos decisórios posteriores, pois a condenação ilegal configura constrangimento ilegal à liberdade de locomoção. Não se trata de revisão criminal, pois esta exige o trânsito em julgado e a demonstração de uma das hipóteses do art. 621 do CPP, e não se presta a discutir nulidade por incompetência absoluta, que pode ser alegada por HC mesmo após o trânsito em julgado.
Incompetência absoluta: Natureza (Interesse público, Alegável a qualquer tempo, Declarável de ofício); Efeito (art. 567 CPP) (Anula só atos decisórios, Preserva atos de investigação, Preserva atos de instrução); Busca e apreensão (Ato de investigação, Válida mesmo por juízo incompetente, Provas aproveitáveis); Remédio cabível (Habeas corpus, Mesmo após trânsito em julgado)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o trânsito em julgado impede a discussão de nulidade ou incompetência absoluta, admitindo-se apenas a revisão criminal com base em prova nova. Isso é incorreto, pois a incompetência absoluta pode ser alegada a qualquer tempo, inclusive após o trânsito em julgado, e o habeas corpus é cabível para impugnar a nulidade dela decorrente, mesmo após o trânsito em julgado, quando há constrangimento ilegal à liberdade de locomoção. A revisão criminal é um meio autônomo de impugnação, mas não é o único, e não é o adequado para alegar incompetência absoluta, que pode ser feita por HC.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa alega nulidade da busca e apreensão e de todos os atos dela decorrentes, diante da incompetência absoluta do juízo que determinou a diligência. Isso é incorreto, pois, conforme o art. 567 do CPP, a incompetência do juízo anula somente os atos decisórios, não os atos de investigação, como a busca e apreensão. A busca e apreensão é ato de investigação e permanece válida, mesmo que determinada por juízo incompetente. Portanto, não há nulidade da busca e apreensão, e o habeas corpus não pode ser impetrado com esse fundamento.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta, pois a incompetência absoluta do juízo anula apenas os atos decisórios, conforme o art. 567 do CPP. A busca e apreensão, como ato de investigação, permanece válida, mas a sentença e os atos decisórios posteriores são nulos. O habeas corpus é o meio adequado para alegar essa nulidade, pois a condenação por juízo incompetente configura constrangimento ilegal à liberdade de locomoção. Assim, o advogado deve impetrar habeas corpus alegando a nulidade da sentença e dos atos decisórios posteriores à busca e apreensão.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que, como a busca e apreensão foi deferida apenas para a investigação de estupro de vulnerável, é incabível a utilização das provas na persecução penal relativa a fato diverso, o que pode ser alegado por mandado de segurança. Isso é incorreto, pois a busca e apreensão, uma vez deferida, autoriza a apreensão de objetos que constituam corpo de delito ou que tenham relação com o fato investigado, e as provas encontradas podem ser utilizadas para apurar outros crimes, desde que haja conexão ou continência, ou mesmo que sejam descobertas fortuitas. Além disso, o mandado de segurança não é o meio adequado para impugnar a utilização de provas, pois não há direito líquido e certo a ser protegido, e o habeas corpus é o remédio cabível para questões que envolvam a liberdade de locomoção.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato ao afirmar que a nulidade por incompetência absoluta atinge a busca e apreensão e todos os atos dela decorrentes. Na verdade, o art. 567 do CPP limita a nulidade aos atos decisórios, preservando os atos de investigação. Outra pegadinha é a tentação de usar a revisão criminal (alternativa A) ou o mandado de segurança (alternativa D), quando o habeas corpus é o remédio adequado para impugnar a nulidade da sentença por incompetência absoluta, mesmo após o trânsito em julgado.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões sobre nulidade por incompetência, lembre-se da regra do art. 567 do CPP: a incompetência anula somente os atos decisórios. Os atos de investigação e de instrução permanecem válidos. Além disso, o habeas corpus é o remédio constitucional para impugnar decisões que violem a liberdade de locomoção, e pode ser utilizado mesmo após o trânsito em julgado, quando há constrangimento ilegal.