Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FGV 2025
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fg167762
Banca
FGV
Órgão
PM TO
Ano
2025
Cargo
Cad ( )
Leia o texto a seguir de Monteiro Lobato. Estilos, estilos... Eu só conheço uma centena na literatura universal e entre nós só um, o do Machado. E, ademais, estilo é a última coisa que nasce num literato – é o dente do siso. Quando já está quarentão e já cristalizou uma filosofia própria, quando possui uma luneta só dele e para ele fabricada sob medida, quando já não é suscetível de influenciação por mais ninguém, quando alcança a perfeita maturidade de inteligência, então, sim, aparece o estilo. Assinale a afirmativa correta sobre sua estruturação ou significação:
AA expressão “entre nós” se refere ao próprio autor do texto e seus leitores.
BA expressão “ademais” se refere ao acréscimo de algo, em tom excessivo.
CO termo “dente do siso” se refere comparativamente ao momento em que a pessoa chega à maturidade.
DO fato de ter “uma luneta só dele” mostra a independência de visão de mundo de um autor.
EO texto indica que o estilo de um autor só fica “pronto” com a velhice.
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GabaritoD — O fato de ter “uma luneta só dele” mostra a independência de visão de mundo de um autor.
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Sentido figurado e maturidade no texto de Monteiro Lobato
Gabarito: letra D. A alternativa correta é a D, pois a expressão “uma luneta só dele” é uma metáfora que representa a visão de mundo própria e independente de um autor. No texto, Lobato associa essa imagem à condição de quem “já cristalizou uma filosofia própria” e “não é suscetível de influenciação por mais ninguém”, ou seja, alguém que desenvolveu um olhar autônomo sobre o mundo. A passagem que ancora essa leitura é:
“quando possui uma luneta só dele e para ele fabricada sob medida, quando já não é suscetível de influenciação por mais ninguém”
A luneta é o instrumento com que se enxerga; tê-la “só dele” e “fabricada sob medida” significa que o autor passou a ver o mundo com os próprios olhos, sem depender do olhar alheio. É exatamente isso que a alternativa D afirma: independência de visão de mundo.
O comando da questão
O enunciado pede a afirmativa correta sobre a estruturação ou significação do texto. Isso significa que a banca quer que o candidato analise o sentido de expressões específicas dentro do contexto — não que faça uma interpretação global do texto, mas que compreenda o valor semântico de cada recurso linguístico usado por Lobato. É uma questão de compreensão (o que está dito) e de análise de sentido figurado (o que as metáforas significam).
O texto e seu movimento argumentativo
Lobato discute o que é estilo e quando ele surge. A tese é clara: o estilo é a última coisa que nasce num escritor, como o “dente do siso” — que, no senso comum, nasce na fase adulta. Para defender essa ideia, ele elenca uma série de condições que precisam estar maduras: uma filosofia própria, uma luneta exclusiva, a imperturbabilidade diante de influências e a “perfeita maturidade de inteligência”. O texto é uma definição progressiva: cada imagem (dente do siso, luneta, filosofia) reforça a mesma ideia de que o estilo exige amadurecimento intelectual.
A técnica que decide a questão
A chave está em reconhecer a metáfora e seu referente. A “luneta” não é um objeto físico; é um símbolo da percepção individual. Quando Lobato diz que o autor possui “uma luneta só dele e para ele fabricada sob medida”, ele está dizendo que esse autor enxerga o mundo de um jeito único, com um filtro próprio. A alternativa D captura exatamente esse sentido: a luneta = visão de mundo; “só dele” = independência. As demais alternativas ou extrapolam (E), ou restringem o sentido (C), ou confundem o referente (A), ou inventam um tom que não existe (B).
Metáforas do texto: "Dente do siso" (Estilo é o último a nascer); "Luneta só dele" (Visão de mundo própria, Independência de influências); "Filosofia própria" (Maturidade intelectual); "Quarentão" (Maturidade, não velhice)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A expressão “entre nós” não se refere ao autor e seus leitores, mas sim ao conjunto de escritores brasileiros. No texto, Lobato diz: “Eu só conheço uma centena na literatura universal e entre nós só um, o do Machado”. O “nós” é um nós inclusivo que abrange os literatos do Brasil — é por isso que ele cita Machado de Assis como o único estilo brasileiro que conhece. A alternativa extrapola ao restringir o referente a “autor e leitores”, o que não encontra apoio no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A expressão “ademais” significa “além disso”, “por outro lado”, e tem função de acréscimo de argumento, mas não carrega um “tom excessivo”. O texto usa “ademais” para introduzir uma nova justificativa para a tese de que o estilo é tardio: “E, ademais, estilo é a última coisa que nasce num literato”. Não há exagero, há continuação lógica. A alternativa acrescenta uma opinião (o “tom excessivo”) que não está no texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O termo “dente do siso” é usado como comparação para indicar que o estilo é a última coisa a aparecer, assim como o siso é o último dente a nascer. A alternativa diz que ele se refere “ao momento em que a pessoa chega à maturidade”. Isso é uma restrição indevida: o texto não fala de “maturidade” em geral, mas de um processo específico — o amadurecimento do literato. Além disso, a comparação é com a ordem de aparecimento (último), não com o momento exato da maturidade. A alternativa restringe o alcance da metáfora.
Alternativa D — ✅ Correta
Como já explicado, a “luneta só dele” é uma metáfora da visão de mundo individual. O texto associa essa imagem à condição de quem “já não é suscetível de influenciação por mais ninguém”, o que prova a independência de visão. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto, sem acréscimos ou restrições.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O texto diz que o estilo aparece quando o autor “alcança a perfeita maturidade de inteligência”, mas não afirma que isso ocorre “com a velhice”. A palavra “velhice” é uma extrapolação: o texto fala em maturidade intelectual, não em idade cronológica. Um autor pode ter maturidade aos 40 anos, como o próprio Lobato sugere (“quando já está quarentão”). A alternativa generaliza e acrescenta uma informação que não está no texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a extrapolação na alternativa E, tentando fazer o candidato associar “maturidade” a “velhice”, quando o texto fala de maturidade intelectual, não etária. Fique atento a palavras como “velhice”, “sempre”, “todos” — elas costumam sinalizar generalizações indevidas.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar metáforas, pergunte-se: o que o autor quer dizer com essa imagem? A luneta não é um objeto; é um símbolo de percepção. Identifique o referente abstrato por trás da imagem concreta.
Gabarito: letra D. A resposta correta é a única que traduz fielmente o sentido da metáfora da “luneta” como independência de visão de mundo, sem extrapolar, restringir ou acrescentar opiniões.